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"The Last Dance": Michael Jordan e a história da despedida de um campeão /premium

"The Last Dance" é talvez o mais completo documentário e o que melhor contextualiza um tema eterno: a luta de um jogador glorioso para se manter no pódio quando já começa a ver o crepúsculo avançar.

Para os menores de trinta anos Michael Jordan não é o melhor basquetebolista de todos os tempos, nem um multimilionário de fato imaculado e imagem trabalhada ao milímetro cujas sapatilhas eram (e ainda são) vendidas aos milhões – não, para eles Michael Jordan é um meme, um meme de um negro a chorar.

O meme nasceu a 11 de Setembro de 2009, nas cerimónia de introdução de Jordan ao Basketball Hall of Fame in Springfield: Jordan recordou o seu passado, o esforço feito para ser o melhor do mundo e de repente soltou umas lagriminhas, algo inusitado num homem que sempre controlou meticulosamente a sua imagem de vencedor nato, de macho alfa impenetrável.

Pois agora a geração sub-30 tem outro meme à sua disposição, se se quiser dar ao trabalho: é no segundo episódio de “The Last Dance”, o documentário sobre a última época de Jordan nos Bulls, estreado esta segunda-feira na Netflix em sessão dupla: Jordan tem a bola na mão, à procura de a passar, tenta e tenta e ninguém se chega à frente para abrir uma linha de passe – e nisto Jordan faz o mais perfeito rolleyes que alguma vez vi, uma espécie de “porque é que tenho de aturar isto?” ocular merecedor de meme.

[o trailer de “The Last Dance”:]

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A linha de passe não chegou – e não chegou porque Scottie Pippen não estava ali, estava a (digamos assim) recuperar de uma lesão contraída no final da época anterior. Mas o problema de Pippen não era uma fratura de um osso de um pé – não, o problema dele remontava a seis anos antes, quando assinara por sete épocas num valor que o colocava (a ele, possivelmente o segundo melhor jogador da liga e o parceiro de eleição de Jordan, com quem se entendia de olhos fechados) apenas como 122º jogador mais bem pago da NBA.

De modo que Pippen, após múltiplas tentativas de melhor o seu contrato, decidira operar não no verão, mas quando a época de 1997/98 ia começar, o que tiraria de 25 jogos, exatamente no momento em que a equipa procurava o terceiro título consecutivo, sexto em oito anos – um feito sem precedentes na era moderna do basquetebol. A dada altura, Pippen exige mesmo ser trocado para outra equipa (algo que a direção dos Bulls procurara no verão), mas acaba por se resignar e ficar, voltando em janeiro.

Note-se que os Bulls só haviam ganho cinco títulos em sete anos porque Jordan resolveu desistir do basquete e ir jogar basebol durante ano e meio; se Jordan tivesse continuado não há a mínima dúvida que naquela altura os Bulls estariam com sete títulos. E agora, no momento em que tudo podia acabar, Pippen resolveu não ser operado no verão, ficar de fora 25 jogos, exigir trocas.

Sabíamos que Jordan crescera a jogar basquete contra irmãos competitivos e que o seu pai era duro, mas é outra coisa ver um irmão dele a insinuar que o pai lançava os irmãos uns contra os outros e, no fundo, os humilhava se perdessem – era um bully. Lemos sobre isto em livros e textos de jornal, mas visto é outra coisa.

Este é o drama de “The Last Dance”, que a partir da próxima semana será exibido ao ritmo de um episódio por semana: não o pé de Pippen, mas o facto de tudo poder acabar. O drama é introduzido logo no primeiro episódio, quando ficamos a saber que Jerry Krause, general manager dos Bulls e o homem que montara esta equipa vencedora (o homem que foi buscar Jordan, Pippen, Rodman e Toni Kukoc), concluíra que aquela equipa havia chegado ao seu limite e que estava na altura de desmontar a equipa e preparar o futuro pós-Michael Jordan, ao redor de Kukoc.

Isto incluía – entre outras decisões – trocar Pippen e não renovar o contrato de Phil Jackson no final da época. Jackson fora o treinador que conseguiu pôr Jordan e funcionar em equipa, que lhe ensinou a atrair adversários e passar para o homem livre quando tivesse dois homens em cima – o homem que o ensinou a confiar nos colegas. Que mais não fosse: Jackson era o responsável pelos cinco títulos.

Esta premissa é lançada logo no primeiro episódio, em que Krause é apresentado como um homem com um olho danado para encontrar jogadores e, acima de tudo, os jogadores certos para rodear Jordan. Também é dado a entender que Krause tinha um complexo de inferioridade por ser baixinho e que por ele todos os jogadores eram “trocáveis” e a organização estava acima de tudo. Numa filmagem de época vê-se Jordan a ser bully com Krause e a dizer que ele toma comprimidos para ser anão.

Nos 22 anos que separam os acontecimentos documentados e os dias de hoje, algumas destas imagens de Jordan a ser bully chegaram a ser superfície, o que no mundo digital significa que encontraram o seu caminho até ao Youtube. E os mais atentos sabem que Jordan não era a figura quase beatífica com que o marketing da NBA e da Nike o apresentaram: em The Jordan Rules: The Inside Story of a Turbulent Season with Michael Jordan and the Chicago Bulls, o jornalista Sam Smith relatava o percurso dos Bulls desde a chegada de Jordan até ao primeiro título e o livro deixava bem claro a mistura de génio, trabalho alucinante, exigência para com os outros, egomania e falta de empatia humana de Jordan, características que Phil Jackson conseguiu encaminhar para os melhores resultados.

Note-se que os Bulls só haviam ganho cinco títulos em sete anos porque Jordan resolveu desistir do basquete e ir jogar basebol durante ano e meio

“The Last Dance” não foge a mostrar esse lado – imagens de Jordan a tratar mal colegas não abundam mas estão presentes; num episódio recordam-se as Olimpíadas de 1992 e vê-se Jordan num treino, furioso por estar a perder, a dizer “Here’s another three” na cara de Magic enquanto distribuía insultos pelos colegas de equipa momentaneamente adversários. No primeiro jogo contra a Jugoslávia, ele e Pippen convenceram todo o Dream Team a atazanar Toni Kukoc, que já havia sido contratado pelos Bulls e era visto por Krauze como o futuro dos Bulls, até ao limite – atazanar, em termos da NBA da época, significava ser violento e abusivo com Kukoc, que ainda hoje não compreende o motivo. O motivo era simples: Jordan e Pippen queriam mandar uma mensagem a Krauze. (Kukoc e o duo dos Bulls voltaram a encontrar-se na final e Kukoc fez um grande jogo, impressionando Jordan.)

Este é o modus operandi de “The Last Dance”: primeiro lança a premissa de que Krauze, nos bastidores, preparava uma revolução numa equipa envelhecida, e que estabelecera que seria a última época de Phil Jackson e de Pippen (se não o conseguisse trocar antes). Phil Jackson, antecipando que os jogadores sentiam a tensão nos bastidores, entrega aos jogadores um dossier chamado “Last Dance”, com o que era necessário para levar a bom porto a época: era, por assim dizer, um apelo à união do balneário antes de este poder ser destruído pelos powers above.

A partir desta premissa, a série anda entre 97/98 e o passado, de modo a introduzir as origens destas pessoas – por exemplo, eu sabia que a infância de Rodman fora má, mas desconhecia a que ponto; sabia que Pippen era um driblador nato (porque o vi jogar), mas desconhecia que Pippen fora base em quase todo o liceu, e só nos dois últimos anos deu um salto em termos de altura. Recorrendo a imagens de arquivo que, em alguns casos são inéditas, “The Last Dance” mostra-nos o comportamento dos jogadores que não saía cá para fora: Rodman a conduzir motas sem capacete e com uma lata de cerveja na mão, em Las Vegas, numas férias de 48 horas que lhe foram concedidas porque ele asseverava precisar de descansar. Sabia que Jordan crescera a jogar basquete contra irmãos competitivos e que o seu pai era duro, mas é outra coisa ver um irmão dele a insinuar que o pai lançava os irmãos uns contra os outros e, no fundo, os humilhava se perdessem – era um bully. Lemos sobre isto em livros e textos de jornal, mas visto é outra coisa.

"The Last Dance", com a distância temporal que tem para com os eventos que escrutina, tem esta moral: é a de que toda a gente é dispensável. Jordan pode ter sido o melhor jogador de todos os tempos, mas isso não impediu uma organização de olhar para a sua idade e de substituí-lo.

Hoje sabemos que os jogadores estão sujeito a um intenso escrutínio dos media, mas é preciso lembrar que naquela época era diferente: é o próprio Jordan  que conta que quando chegou à liga, entrou num quarto de hotel de um colega de equipa numa digressão de pré-época para deparar com a equipa toda a dividir-se entre o cantinho da erva, o cantinho da coca e o cantinho das prostitutas. De novo: já tínhamos lido sobre isto, mas ver Jordan hoje a contá-lo é outra coisa.

Um pormenor denota o grau de limpeza de imagem a que Jordan se sujeitou: nos depoimentos dos dias de hoje e na footage antiga em que não está a falar com os media, Jordan tem um marcado sotaque sulista – mas isto não se notava nos seus dias de jogador, quando lidava com os media. Jordan, como sabemos, foi a desculpa que a NBA precisava para sair da era da violência, das drogas, dos bad boys – mas quando vemos imagem após imagem do homem a falar com a imprensa e a dizer que não sabe se Pippen vai sair e se esta vai ser a sua (de Jordan) última época, dezenas de jornalistas com microfones e câmaras fotográficas e de filmar em seu redor, ao ver isto assim compilado compreendemos a imensa força mental que ele teve de ter.

E a tudo isto contrapõe os depoimentos dos atletas e treinadores na atualidade, isto enquanto contrapõe o avançar da época (que começa terrivelmente, por causa da mencionada ausência de Pippen) com os recuos ao passado para lembrar o percurso de jogadores e equipa. Um detalhe, de novo sobre a imagem de Jordan: o homem não se coíbe minimamente, nos dias de hoje, de usar ziliões de “fucks” e fala abertamente sobre o que sentia na época – claramente está muito mais livre e é bonito ter dez episódios de um Jordan finalmente a dizer o que pensava num discurso carregado de vernáculo.

O que "The Last Dance" mostra é o crepúsculo do melhor atleta de qualquer desporto de todos os tempos

De certa forma é como se “The Last Dance” fizesse full circle com The Jordan Rules, o livro de Sam Smith: este traçava o percurso de um rapaz tímido mas extraordinariamente talentoso e ambicioso, frio ao ponto de não deixar que nada se interpusesse entre si e a vitória, mas incapaz ao início de perceber que não conseguiria resolver tudo sozinho – o livro acaba em triunfo, com Jordan – já visto como o melhor jogador de sempre – a finalmente alcançar o tão almejado anel de campeão, depois de (dizendo de forma simplista) aprender a ser um jogador de equipa e confiar no seu treinador e colegas.

“The Last Dance”, com a distância temporal que tem para com os eventos que escrutina, tem outra moral: é a de que toda a gente é dispensável. Jordan pode ter sido o melhor jogador de todos os tempos, mas isso não impediu uma organização de olhar para a sua idade (em 1997, no início da época, tinha 34 anos) e, uns anos antes, contratar Kukoc para ser o novo Jordan: nascido em 1968, Kukoc foi recrutado em 1990, mas só chegou aos Bulls em 1993, no exato ano em que Jordan se retirou pela primeira vez).

O que “The Last Dance” demonstra é que só há uma dança final para os jogadores e para os treinadores – porque nos bastidores os jogos políticos (como a tentativa de evitar que Jordan, ao início, jogasse, de maneira a que a equipa não fosse aos play-offs e no ano seguinte tivesse um lugar mais alto no draft), a procura obsessiva do dinheiro, da nova estrela que encha pavilhões e traga acordos comerciais continua sempre e os jogadores têm um prazo, mais ou menos volátil, mas determinado pela idade.

Michael Jordan tinha 35 anos quando abandonou, após a sua last dance. Voltou em 2001, aos Washington Wizzards, mas já não era o mesmo. Talvez pudesse ter evitado esse regresso – mas o certo é que ainda conseguiria jogar mais um par de anos ao mais alto nível.

O que fica claro em “The Last Dance” é que os jogadores sabem disso, sentem essa pressão e, apesar disso e de terem de pensar na sua família e no seu futuro, apesar das lesões e dos contratos, no caso dos melhores, dos gigantes, dos campeões, eles dão tudo por essa coisa que é linda, e que se chama vitória.

Michael Jordan tinha 35 anos quando abandonou, após a sua last dance. Voltou em 2001, aos Washington Wizzards, mas já não era o mesmo. Talvez pudesse ter evitado esse regresso – mas o certo é que ainda conseguiria jogar mais um par de anos ao mais alto nível. Pippen tinha 33 anos, em 1998. Podia jogar mais um par de épocas ao mais alto nível (e acabou a jogar seis épocas em equipas inferiores).

Talvez a last dance pudesse ter sido a penúltima dance. Mas o mundo não pára e as máquinas que criam deuses têm de criar deuses e como o espaço para os deuses é limitado os velhos deuses têm de dar lugar aos novos. “The Last Dance” talvez não contenha muitas novidades, do ponto de vista do fanático da NBA que vê os jogos todos e lê os artigos e os livros todos e vê os documentários todos – mas é talvez o mais completo documentário e o que melhor contextualiza um tema eterno: a luta de um campeão para se manter no pódio quando já começa a ver o crepúsculo avançar.

No caso, o crepúsculo do melhor atleta de qualquer desporto de todos os tempos.

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