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Ritzau Scanpix/AFP via Getty Ima

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"Traição", Guerra Fria e um ponto da disputa pelo Ártico. A história de Pituffik, a base militar na Gronelândia visitada por JD Vance

Vance aterrou esta sexta na base militar americana mais a norte do mundo, onde temperaturas negativas são uma constante e há um passado de segredos. Seis coisas sobre Thule, agora chamada Pituffik.

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Primeiro era suposto ser uma visita da mulher do vice-presidente norte-americano, JD Vance. Usha Vance ia participar na tradicional corrida de cães Avannaata Qimussersua — a Grande Corrida do Norte. Depois veio a notícia de que o marido iria juntar-se à viagem, bem como outras figuras da administração Trump como Mike Waltz, conselheiro de Segurança Nacional.

Até que veio a mudança de 180 graus: perante a hostilidade da população da Gronelândia — que não tem visto com bons olhos as declarações de Trump sobre anexar a região e prometeu protestar audivelmente nas ruas —, o casal Vance decidiu afinal visitar apenas a base militar de Pituffik (antiga base de Thule), que é tecnicamente território norte-americano.

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▲ JD Vance na área da base militar de Pituffik

POOL/AFP via Getty Images

O Força Aérea 2 aterrou na base por volta da hora do almoço desta sexta-feira. A temperatura era de três graus negativos. A coronel Susan Myers e a sargento Holly Vaught receberam o casal Vance na pista e, rapidamente, levaram-nos para dentro. Pouco depois, ambos estavam na messe a partilhar o almoço com os militares.

A visita espetacular inicialmente pensada pela administração norte-americana foi rapidamente substituída por um programa dentro de portas, em território familiar, onde não há o risco de protestos de gronelandeses a interromperem o plano das festas.

Mas, afinal, que base militar é esta onde os Vance se refugiaram? E que histórias conta o seu passado?

Um local inóspito onde só se chega de avião e onde as temperaturas são sempre negativas

À entrada da base de Pituffik, há um sinal de boas-vindas para os que chegam “ao topo do mundo”.

Localizada no paralelo 76, a antiga base de Thule é uma das instalações militares mais a norte em todo o mundo — e uma das mais inóspitas. Rodeada de gelo durante nove meses, ao longo do ano é praticamente impossível lá chegar sem ser por via área. A vila mais próxima, Qaanaaq, fica a mais de 100 quilómetros e é uma pequeno local com cerca de 650 residentes.

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▲ As temperaturas no inverno em média oscilam entre os 13 e os 20 graus negativos

Ritzau Scanpix/AFP via Getty Ima

Em Pituffik, As temperaturas são assustadoramente baixas: no inverno, oscilam entre os 13 e os 20 graus negativos.

E, é claro, metade do ano é passado na escuridão. A luz solar só volta àquela zona do Ártico em maio e, depois, não dá tréguas até agosto, altura em que volta lentamente a esmorecer até à primavera seguinte.

A decisão de um embaixador acusado de “alta traição” e a secreta “Operação Blue Jay” para construir uma base militar na Gronelândia

Este local só passou a ser de domínio norte-americano na década de 1940 — e foi através de um engodo.

Em 1940, quando a Gronelândia ainda era formalmente uma colónia da Dinamarca (e não a a região autónoma que é hoje), o arquipélago ficou isolado durante a ocupação nazi da Dinamarca. Foi então que os norte-americanos decidiram aproveitar a oportunidade: o governo de Franklin Roosevelt fez um acordo com Henrik Kauffmann, embaixador dinamarquês nos EUA, para construir uma base aérea na Gronelândia. O problema? O acordo não contou com a aprovação do governo pró-nazi de Copenhaga — o que valeu mais tarde a Kauffmann a acusação de “alta traição”, revogada apenas após o fim da II Guerra Mundial.

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Ao longo da década, foram postos em marcha os planos de construção, sob o nome de código “Operação Blue Jay”. Em Thule, montou-se uma mega operação com a marinha norte-americana a transportar toneladas de equipamento da Virginia para Thule, a fim de construir as instalações na Gronelândia.

Com o fim da Guerra Mundial e a adesão da Dinamarca à NATO, a cooperação dos dinamarqueses com os norte-americanos reforçou-se. Em 1951, os dois países assinaram o Acordo de Defesa da Gronelândia, que dava autorização aos EUA para controlarem a base. Desde então, estabeleceu-se que ali devem ser hasteadas as bandeiras dos dois países.

Um passado complicado com os residente gronelandeses e um nome local em homenagem

Enquanto os governos dos EUA e da Dinamarca se foram entendendo para gerir a base militar, os gronelandeses foram sendo sacrificados como peões. Para construir Thule, muitos residentes tiveram de ser retirados à força. Ao longo dos anos e à medida que as instalações militares de estendiam em termos de área, mais e mais habitantes eram expulsos das suas casas.

Em 2003, o Supremo Tribunal dinamarquês considerou que essas ações foram ilegais, por representarem expulsões à força, sem qualquer tipo de compensação. Foi ordenado o pagamento de 15 a 25 mil coroas a cada pessoa expulsa e ainda meio milhão de coroas à tribo de Thule.

Conscientes deste passado complicado com os locais, os norte-americanos tentam hoje remediar algumas feridas do passado: daí a decisão, em 2023, de renomear a base de Thule e passar a chamar-lhe Pituffik, uma expressão local que significa “o lugar aonde se prendem os cães”. O objetivo, explicaram os militares norte-americanos, era o de “reconhecer o legado cultural gronelandês e refletir melhor a sua influência na Força Espacial dos EUA”.

A cidade subterrânea de Camp Century e a “ambição selvagem” da Guerra Fria

Em 1959, numa festa em Copenhaga, foi colocado em marcha um plano bizarro que envolvia a base de Thule. O embaixador norte-americano na Dinamarca, Val Peterson, conversou com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Jens Otto Krag, e explicou-lhe como os EUA planeavam estabelecer naquela base militar um reator nuclear, por baixo da camada de gelo superficial.

O plano acabaria por avançar. Chamaram-lhe “Camp Century” e, inicialmente, parecia ser um projeto megalómano de construção de uma espécie de cidade subterrânea por baixo do gelo. O conjunto de túneis subterrâneos espalhava-se por três mil quilómetros, preenchidos por vários edifícios pré-fabricados que incluíam quartos, cozinhas, casas-de-banho e até um teatro, uma biblioteca e um hospital. O famoso jornalista Walter Cronkite chegou a visitá-lo para o seu programa na CBS e descreveu as condições como “algo confortáveis”, com exceção de um momento em que sofreu de “um ataque de claustrofobia”.

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▲ Um dos túneis de Camp Century, a cidade subterrânea construída em Thule

Getty Images

Mas o Camp Century era na verdade um elaborado disfarce para um projeto mais complexo, o “Project Iceworm”. Em plena Guerra Fria, os Estados Unidos pretendiam entender se conseguiam alojar por baixo desta “mini-cidade” mísseis nucleares e se conseguiam ter a capacidade de os disparar a partir dali, de acomodações subterrâneas — o alvo seria, naturalmente, a União Soviética. “Era a ambição da Guerra Fria no seu estado mais selvagem”, resume ao New York Times o analista de Defesa dinamarquês Peter Ernstved Rasmussen. “Construiram uma base nuclear num dos ambientes mais hostis em toda o mundo só para perceber se conseguiam fazê-lo.”

Três anos mais tarde, contudo, o projeto foi abandonado, quando os cientistas perceberam que a camada de gelo se estava a deslocar de forma muito mais rápida do que o antecipado. O risco de destruição de todo o projeto era elevado e, por isso, em 1966 os Estados Unidos retiraram o gerador nuclear, evacuaram os túneis e encerraram de vez o Camp Century.

Um acidente nuclear e a relação dos EUA com um “vassalo”

A presença militar norte-americana em Pituffik continuou a ter efeitos profundos naquela zona do Ártico. Em 1968, a queda de um bombardeiro B-52 no local provocou o pânico: “Os residentes da Gronelândia que trabalhavam na base de Thule imediatamente se atiraram para o gelo com equipas com cães até ao avião caído, com os americanos desesperados para lá chegarem primeiro”, recordava em 2007 um eurodeputado britânico à BBC.

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▲ Operação de limpeza dos destroços do bombardeiro B-52 que se despenhou em Thule

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O desespero prendia-se com o facto de a aeronave transportar consigo armamento nuclear. Não houve qualquer explosão, mas o material radiativo ficou espalhado e demorou meses a ser recolhido. O Pentágono garantiu à altura que as bombas em causa foram “destruídas” e que tudo estava bem, mas as suspeitas de contaminação do solo e gelo mantiveram-se — e subsistem ainda hoje.

Na década de 1980, a investigação de um jornalista dinamarquês revelou que o acidente não tinha sido apenas o azar de um avião que por ali passava: afinal, havia um acordo secreto de 1957 entre as autoridades norte-americanas e dinamarquesas para armazenar em Thule armamento nuclear, apesar de isso ser proibido pelo acordo inicial entre os dois países. “O poder dos Estados Unidos era assustador e fascinante”, descreveria o jornalista. “Era como observar a relação entre a Roma antiga e um vassalo.”

Presença militar e armamento, o fator de dissuasão de China e Rússia

Atualmente, a base militar de Pituffik é essencial para os Estados Unidos. Ali estão permanentemente mais de 100 militares e armamento sofisticado, como um radar capaz de detetar mísseis balísticos na fase mais inicial do seu disparo.

Mas a principal razão pela qual Pituffik é fulcral prende-se com a sua localização: está no coração do Ártico, o que permite aos Estados Unidos ter um pé numa região onde a China e a Rússia têm reforçado paulatinamente a sua presença ao longo dos anos.

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▲ Pituffik continua a ser um elemento central da dissuasão norte-americana no Ártico face a chineses e russos

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Segundo o jornal dinamarquês Jyllands-Posten, os serviços secretos do país têm alertado repetidamente para o interesse de Moscovo na região. “Do ponto de vista da Rússia, quaisquer ataques, tendo em conta os mísseis defensivos dos EUA, sensores, a base de Thule e os navios de guerra no Atlântico Norte, têm o potencial de ameaçar seriamente a capacidade do país retaliar estrategicamente”, declarou a Agência de Informações de Defesa da Dinamarca num dos seus últimos relatórios.

O que, traduzindo em miúdos, significa que a presença militar norte-americana em Pituffik pode funcionar como fator de dissuasão para os russos. Não significa, porém, que os gronelandeses desejem que JD Vance e os seus compatriotas ocupem a região para lá dos limites da área da base militar.

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