Quando Laura Garrido fala em Julio e na riqueza da obra do artista, muitas vezes devolvem-lhe perguntas: “Júlio Resende? Júlio Pomar?”. Ela responde que não, só Julio. Julio sem acento. A diretora da Galeria Julio e Centro de Estudos Julio / Saúl Dias, em Vila do Conde, explica que a missão daquele equipamento cultural consiste, justamente, em divulgar o trabalho de “um artista de excelência” que permanece desconhecido do grande público. É nesse sentido que acolhe, até 25 de janeiro, a exposição Julio e o Modernismo em Portugal, composta por cerca de 150 peças desse e de outros vultos do modernismo luso, como Amadeo de Souza-Cardoso ou Santa-Rita Pintor.
Nascido Júlio Maria dos Reis Pereira, em Vila do Conde, no seio de uma família algo numerosa, Julio (1902-1983) fez-se engenheiro civil por motivos de subsistência. A paixão que alimentava era a da arte e tal transparecia na vasta produção artística que deixou, do desenho à pintura, sem esquecer a poesia, na qual se fazia representar pelo pseudónimo Saúl Dias. Só a familiares legou mais de 6000 trabalhos.
Julio tinha uma relação de grande cumplicidade com o irmão, José Maria, que ficou na história da literatura portuguesa como José Régio, e com ele trocou ampla correspondência. O próprio assume, nestas cartas (algumas das quais estão em exibição), que pintava incessantemente. Familiares contam que se fechava no ateliê a criar, ao ponto de a mulher lhe deixar à porta um tabuleiro com comida, partilha a diretora da Galeria, enquanto nos conduz pela exposição.
▲ O objetivo é “marcar o papel de Julio no modernismo em Portugal, mostrando que era um artista de excelência, e que dialoga muito bem com aqueles que também aqui estão representados”
Para Laura Garrido, Julio não deve ficar na sombra do irmão: “Temos de lhe dar a autonomia que merece. Ele não é o irmão de José Régio, ele é o Julio / Saúl Dias, grande artista e poeta, que também é irmão de José Régio”. Certo é que, até hoje, permanece incógnito, “pelo menos para a maioria das pessoas, porque nos meios culturais e intelectuais ele era reconhecido”, estando, aliás, representado nas grandes coleções nacionais. “Falta o resto.”
“Uma obra muito livre, não dependente do mercado
No entender da diretora da Galeria, a invisibilidade de Julio pode ser explicada por múltiplos fatores, a começar pela própria maneira de ser: “Era um homem muito introvertido, gostava de estar fechado no ateliê a produzir, era pouco dado a convívios sociais”. Sinal desse temperamento discreto terá sido a escolha do pseudónimo Saúl Dias, que, em carta, o irmão José Régio criticara por ser demasiado vulgar. A isso, terá Julio respondido que Saúl Dias aceitava a sua opinião, mas não concordava com ela, relata.
Outra explicação de Laura Garrido para que Julio tenha ficado algo à margem, enquanto artista, está no facto de ter vivido em Évora, ou seja, distante de Lisboa, “o centro nevrálgico cultural e artístico”. E uma terceira razão tem a ver com o seu posicionamento político: “Julio não se revia no regime vigente, de todo”. Isso excluía-o de exposições e privava-o de encomendas de trabalhos. Não duvida: “Julio é um artista que não teve o reconhecimento que lhe era devido”. Mesmo por parte da imprensa da altura, que não compreendia a sua obra. Até porque ele “não tinha a preocupação de ser decorativo; pintava o que sentia”.
O historiador Bernardo Pinto de Almeida, curador da exposição, afirma, por seu lado, que “Julio nunca fez da pintura profissão, porque era engenheiro, viveu no Alentejo, e teve a possibilidade de fazer uma obra muito livre, não dependente do mercado”. Dele diz que é um artista “muito importante e muito esquecido”, lembrando que José-Augusto França, historiador e crítico de arte, o apontou como artista menor — na sua ótica, injustamente. Pinto de Almeida assinala que, além de ter sido diretor artístico da revista Presença, Julio produziu “uma obra fortíssima”.
Ora, com Salazar no poder, “artistas como Julio não são bem-vindos”, reforça o também professor. Afinal, “ele pinta a realidade da vida portuguesa; em Portugal, a pobreza era imensa, o regime não gostava e não lhe comprava nada”. Para um artista, não ver o seu trabalho exposto é um sofrimento, e Júlio não seria exceção, a julgar pela correspondência trocada com o irmão José Régio, em que se queixava de não ser convidado para expor. Ainda assim, “aguentou estoicamente e não parou, foi um artista que não desistiu”.
O curador da exposição partilha um episódio que revela a força de caráter daquele “homem cultíssimo, que viajou muito” e em cuja obra vê “um diálogo com o expressionismo alemão e nórdico”. Algures entre 1972 e 1973, quando Marcello Caetano decidiu, por fim, condecorá-lo no 10 de junho, alcançada já alguma visibilidade, sobretudo por ação de Cruzeiro Seixas, Julio nem compareceu — “não quis nenhuma prenda do regime; era um democrata. “É uma pena que historiadores antes de mim não tenham visto a importância dele”, conclui Bernardo Pinto de Almeida, empenhado em resgatar o artista do esquecimento. Não duvida: “O grande público desconhece-o porque não foi mostrado. Ele não estava escondido, continuou a pintar, fez exposições mais marginais, não tinha a visibilidade que outros iam tendo”.
A exposição que desmente o rótulo de “pintor naïf de província”
“Durante décadas, o lugar de Julio na história da arte portuguesa foi condicionado por uma leitura injusta, marcada pela influência de José-Augusto França, que o classificou como um pintor naïf de província — uma definição que a história e o olhar contemporâneo desmentem por completo”, sustenta Bernardo Pinto de Almeida, citado em comunicado. “Julio é daqueles artistas cuja obra surpreende os historiadores estrangeiros pela sua qualidade e modernidade. Lá fora, não compreendem como é que o seu nome permanece ausente dos grandes manuais da arte moderna”.
▲ “Julio nunca fez da pintura profissão, porque era engenheiro, viveu no Alentejo, e teve a possibilidade de fazer uma obra muito livre, não dependente do mercado”
Com Julio e o Modernismo em Portugal, pretende-se, pois, fazer uma reparação histórica, no domínio da arte portuguesa. A exposição “mostra a importância de Julio no contexto dos seus contemporâneos e a importância do modernismo em Portugal, um país que estava na cauda da Europa também do ponto de vista intelectual e de circulação da informação”, contextualiza Laura Garrido. Assim se prova que aquele movimento artístico europeu se estendeu a Portugal, em particular, ao norte.
Amadeo de Souza-Cardoso, Vieira da Silva, Almada Negreiros, Aurélia de Souza, Cruzeiro Seixas, Mário Eloy, Sarah Afonso, Ofélia Marques e Nadir Afonso são alguns dos artistas representados na exposição, que reúne quase 150 obras, algumas delas inéditas, bem como documentos históricos. O objetivo é “marcar o papel de Julio no modernismo em Portugal, mostrando que era um artista de excelência, e que dialoga muito bem com aqueles que também aqui estão representados”.
Julio e o Modernismo em Portugal divide-se em quatro temas, tantos quantas as salas que ocupa. A exposição arranca logo com uma das obras mais destacadas: a primeira pintura conhecida de Julio, exposta agora pela primeira vez. Trata-se de um pequeno óleo, com data de 1918 (tinha o autor 16 anos e ainda assinava Júlio Pereira), que conversa com uma peça de Aurélia de Souza, representante do simbolismo. Especial relevo assume ainda a única obra de Santa-Rita Pintor que chegou até nós, pois fez parte de coleções privadas e, atualmente, pertence ao Estado.
Naquela primeira sala, somos confrontados também com vários desenhos feitos nas décadas de 1920 e 1930, já no tempo do Estado Novo e da Censura. “Ele, de forma muito frontal, ilustra bem os problemas da sociedade”, aqueles que o regime queria ocultar: pobreza, alcoolismo, prostituição. A figura feminina está, aliás, bastante presente na sua obra, muitas vezes como alvo de violência, ou sujeito passivo, “mulher-bibelô”, devido à maneira como era tratada; mas também como musa inspiradora, explica Laura Garrido. “Este é, para nós, o período mais forte de Julio”, comenta a diretora da Galeria, diante daquele conjunto de desenhos, muitos deles feitos a tinta da china, a sua técnica preferida, que “permitia um traço rápido e sem tempo para correções”.
Na segunda sala, dedicada ao tema das sexualidades e dos corpos, surgem vários nus. Numa parede foram alinhadas, propositadamente, três obras de 1926: uma de Eduardo Viana, outra de Julio e a terceira de Amadeo Souza-Cardoso, ao estilo parisiense. A de Julio é a mais crua: mostra o corpo feminino de modo frontal, com um traço bem definido e cores vibrantes. A homossexualidade, que era silenciada naquele tempo, também aflora em alguns trabalhos, de diferentes autores, de Julio a Ofélia Marques.
Já na terceira sala, alusiva à luta de classes e aos retratos urbanos, vem à tona o interesse de Julio em captar a realidade dos desfavorecidos, o mundo do trabalho e as suas paisagens, não esquecendo a representação da arte popular. Afinal, o engenheiro-artista conviveu de perto com mestres da olaria, tendo até juntado uma grande coleção de bonecos de Estremoz, hoje Património Imaterial da Humanidade. Muitas dessas peças foram representadas também em desenhos feitos a tinta da China. Aí se encontra outra pintura de Julio que importa referir: O Fumador, adquirido pelo cineasta Manoel de Oliveira após uma visita à casa de José Régio, de que resultou a curta-metragem As Pinturas do Meu Irmão Julio, de 1965.
▲ “Ele pinta a realidade da vida portuguesa; em Portugal, a pobreza era imensa, o regime não gostava e não lhe comprava nada”
Finalmente, na quarta sala, aborda-se a monstruosidade da guerra, o surrealismo e a abstração. Cruzeiro Seixas, Nadir Afonso ou Mário Eloy cruzam-se, mais uma vez, com Julio, “um grande precursor do surrealismo em Portugal”, com obras que remetem para esse movimento logo nos anos 1920. Quem o refere é a diretora da Galeria, frisando que, na sua produção artística, toca também no abstracionismo e no cubismo. Voltando a Cruzeiro Seixas, foi ele um dos responsáveis pela divulgação do trabalho de Julio, nos anos 1970, enquanto diretor da Galeria São Mamede, em Lisboa.
A exposição Julio e o Modernismo em Portugal enquadra-se nas comemorações dos dez anos da Galeria Julio e do Centro de Estudos Julio / Saúl Dias, membro fundador da Rede Portuguesa de Arte Contemporânea. Este equipamento cultural nasceu na sequência do legado instituído pelo filho único do artista, inserido no Centro da Memória de Vila do Conde.
As obras em causa foram cedidas por mais de dez instituições de referência nacional, entre elas, a Fundação Calouste Gulbenkian, a Fundação de Serralves, a Fundação Arpad Szenes / Vieira da Silva, o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, o Museu Nacional Soares dos Reis e o Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso. Algumas provêm ainda de coleções particulares e da coleção do Município de Vila do Conde.
Vila do Conde afirmou-se como um polo do modernismo. Basta pensar que foi lá que se fixou, em 1915, Sonia Delaunay, artista ucraniana radicada em Paris, pioneira da abstração e da cor simultânea, em fuga da Primeira Guerra Mundial, a par com o marido, o também artista Robert Delaunay. Personalidades como Amadeo Souza Cardoso e Almada Negreiros costumavam visitar a sua casa, apelidada de “La Simultanée”, na Avenida Bento de Freitas.
“Julio e o Modernismo em Portugal”, que tem um valor de entrada simbólico (2 euros), pode ser visitada, de terça a domingo, das 10 às 18 horas, sendo que ao fim de semana fecha para almoço das 13 às 14h30. Galeria Julio | Centro de Estudos Julio / Saúl Dias: Rua 5 de Outubro, 4480-649 Vila do Conde; Telefone: 252 248 468