Não há dúvidas de que é um dos maiores fenómenos populares do hip hop e da música urbana em Portugal dos últimos anos. Sebastião Caldeira, que assina como Van Zee, tem apenas 22 anos, mas desde 2023 que é um dos mais ouvidos em todo o país.
Vieram as dezenas de concertos por ano, as colaborações com músicos de renome, os milhões de reproduções nas plataformas de música. Agora, pouco mais de um ano desde o álbum que consagrou a sua ascensão meteórica — do.mar — editado em dezembro de 2023, chega o seu mais recente disco.
Alta Costura é um trabalho tecido a meias com um dos seus mais próximos amigos e colaboradores, o guitarrista e compositor FrankieOnTheGuitar, que também é um dos seus managers. O álbum de uma dezena de faixas foi disponibilizado esta sexta-feira, 10 de janeiro, e aposta num conceito muito particular.
Van Zee e FrankieOnTheGuitar decidiram homenagear uma série de canções emblemáticas da música portuguesa, adaptando-lhes o universo sonoro através do sampling — a técnica que faz uso de excertos de outros temas para dar origem a novas canções, que se tornou ao longo dos últimos 50 anos no grande método criativo do hip hop, além de se ter disseminado pela eletrónica e por tantos outros géneros musicais.
O título do álbum reflete um processo de qualidade de alfaiataria (e a apetência de Van Zee pela moda), mas também o trabalho de corte e costura que o sampling implica, quando se constrói um instrumental a partir de uma manta de retalhos retirados de uma canção original.
A música urbana portuguesa a gostar de si própria: o “sampling” como homenagem
A composição do disco é bastante recente, tendo começado a ser pensado de forma muito orgânica a meio de outubro. “Este ano estivemos muito juntos e a fazer música”, explica FrankieOnTheGuitar, que acompanhou Van Zee na estrada, ao longo das dezenas de concertos que o artista deu em 2024. “Fizemos um tema, dois, três… ‘Bora fazer um EP. E de repente tínhamos um álbum.”
Tudo começou com O Amor é Assim, canção dos HMB com Carminho. “Tínhamos ido para um concerto em Braga”, recorda Van Zee. “Estávamos no hotel a fazer umas ideias, o Frankie estava a fazer um beat, eu comecei a cantarolar a O Amor é Assim dos HMB, começámos a juntar coisas e quando demos por nós estávamos a trabalhar na Quem És Tu? e passámos para outros samples.”
Alta Costura evoca José Afonso e José Pinhal, Expensive Soul e Os Azeitonas, Deau e Bezegol, Virtus, Tiago Bettencourt, Max e B Fachada, além dos já referidos HMB. “São canções nacionais que tiveram algum impacto na nossa vida a certa altura. Acho que todos os sons do álbum têm um valor sentimental que nos fez escolher as músicas”, justifica Van Zee, sublinhando a ligação que mantém a Os Bravos, de José Afonso; mas também a Diz-me Só, de Bezegol e Deau, que para si sempre fora “uma música de relações”; e a Porto Santo, de Max, que descreve como o hino não oficial da ilha do arquipélago a que chama casa, a Madeira.
Cada canção teve a sua própria história e resultado final. Se em Ainda Prendes o Cabelo conseguimos escutar a voz de José Pinhal ressoando ao fundo, em Atitude torna-se mais difícil identificar o discreto sample de Sinónimos, um dos temas mais emblemáticos do rapper e produtor Virtus.
Ambos destacam a “portugalidade” do álbum, que não poderia ter sido feito noutro país. “Isto é prestar homenagem aos artistas que samplámos, porque são mesmo músicas que nos inspiraram. Não só durante a vida, mas também a fazer um projeto e a dar o nosso próprio twist às ideias deles. Para mim, um sample é uma das melhores formas de fazer um tributo. E se estamos a samplar coisas de fora, porque não samplar do nosso país? E assumindo tudo, esse é que é o conceito e a premissa do álbum, pegarmos em música portuguesa e darmos-lhe um twist”, explica Van Zee.
[o vídeo de “Como Seria/Amor Sóbrio”:]
Para FrankieOnTheGuitar, o sampling exclusivo de músicas portuguesas acabou por resultar num “álbum mais coeso”. “Depois, na produção, explorámos diferentes sonoridades, consoante o que fomos ouvindo durante o ano, desde bossa nova a sexy drill. Queríamos experimentar e trazer coisas diferentes.”
Van Zee acredita que a “familiaridade” dos ouvintes para com as músicas originais pode resultar num “bom contraste” em relação à “inovação” que os próprios criaram em cada tema. “O facto de as pessoas reconhecerem o sample pode ser nostálgico, mas ao mesmo tempo elas não conhecem estas músicas nem estas sonoridades. Há um equilíbrio fixe entre reconhecer o sample mas não o som.”
O músico de 22 anos navega na linha ténue entre rapper e cantor, entre o rap e a música pop, entre o português e o inglês, muitas vezes com uma escrita introspetiva e emocional. “Este álbum também veio muito de ter feito o trabalho de casa, de ter estado constantemente durante o ano passado a fazer música, e algumas coisas que o Frankie fazia já me lembravam de algum refrão… Porque às vezes escreves os melhores refrões numa terça-feira à tarde no café com os amigos. Então mais vale ter isso anotado e essas ambiências ou algumas barras específicas já davam para desenvolver as músicas… Essencialmente, estava com muita fome. Foi das vezes em que me via a escrever mais, no que para mim é uma evolução da minha escrita, a forma como não estou preso a certos truques ou manhas que antes eram garantidas. Este álbum ajudou-me nisso, foi libertador, porque foi uma chance para inovar. E sinto que é isso que me motiva, a constante inovação.”
Van Zee argumenta que a escrita de Alta Costura é também um reflexo da evolução rápida que teve enquanto artista e pessoa no último par de anos. “Tenho percebido que tenho essa relação com a música. Não sou o tipo de artista que cria especialmente quando está mal. Faço quando estou bem e quando resolvo as minhas coisas. É quase uma relação saudável de ir resolvendo a minha cabeça e depois consigo fazer música de que gosto. Também sinto que esta foi uma altura em que organizei imensa coisa na minha cabeça, sinto que o Frankie também teve um crescimento pessoal, e isso influencia a arte… Não é só arte, não é só fazer música. Temos um ano inteiro de histórias para contar e é um momento que está captado no Alta Costura. Sinto que isto foi tirar uma fotografia destes últimos três ou quatro meses e pôr num álbum. Retrata muito bem as nossas cabeças nos últimos tempos.”
Concluídas as músicas, foi necessário obter autorização dos autores originais para licenciar cada faixa — um processo que, em Portugal, ainda está muito longe de estar normalizado como acontece em mercados como o norte-americano. Muitas vezes, até por existir uma grande distância artística para o sample original, o processo criativo é feito de maneira clandestina. Mas acabou por ser fácil para a dupla conseguir autorizações para a maior parte dos temas.
▲ Van Zee e FrankieOnTheGuitar decidiram homenagear uma série de canções emblemáticas da música portuguesa, adaptando-lhes o universo sonoro através do sampling
“Foi mais positivo do que estávamos à espera”, explica FrankieOnTheGuitar. “Quando nos caiu a ficha de que tínhamos um álbum, o único problema na nossa cabeça era conseguir licenciar os samples todos. Mas depois acabou por ser mais fácil do que estávamos à espera.”
Há poucos dias publicaram também um conjunto de sketches repletos de momentos humorísticos como forma de promover o lançamento do álbum. Evocaram a figura do lendário produtor norte-americano Rick Rubin construindo a personagem Henrique Ruben, convocaram o cantor Toy ou o jovem criador de conteúdos Armando Djigiridjhonson para uma série de peripécias que compõem uma compilação de 20 minutos. Pelo meio também frisam a importância da moda no conceito que lapidaram para este projeto. “Acho que ainda é preciso frisar o quão o streetwear faz parte da cultura e é giro conseguir incorporar isso”, aponta Van Zee.
Um fenómeno chamado Van Zee
Até março de 2023, Sebastião Caldeira era apenas um aluno universitário. Estudava gestão na área hoteleira em Amesterdão, nos Países Baixos. Já fazia música há alguns anos, desde a adolescência, e tinha começado a atrair um público considerável, tendo lançado em 2021 um primeiro disco, Aporia. Mas estava longe de ser profissional, nem tampouco tinha concertos. Dois anos depois, ao mesmo tempo que assinava a primeira colaboração com FrankieOnTheGuitar, e logo numa canção com Diogo Piçarra intitulada Underwater, começava também a trabalhar com o agente Simão Santos, por trás de nomes como Ivandro ou Bispo, além de trabalhar com Chico da Tina, Sippinpurpp ou Mishlawi.
“Eu não estava mesmo à espera disto, de todo”, olha agora para trás. “Estava em Amesterdão, na minha vidinha, via que os números estavam a aumentar, mas são números, não têm aquele sentimento… Do nada marcam-me o meu primeiro concerto, em Aveiro, estou lá atrás e oiço as pessoas a cantar… Foi aí que percebi que era a sério.”
Uma estadia mais prolongada do que o esperado na Madeira acabou por ditar o seu rumo. “No tempo extra que estive lá com a minha mãe, abri-me e disse-lhe: ‘mãe, tenho algo a aparecer na minha vida e acho que quero investir nisto a 100%’. Ela ficou logo preocupada, não a desacreditar, mas preocupada. E esse tempinho extra na Madeira foi decisivo para já ir direto para Lisboa a pensar: ‘tenho de fazer de tudo para não voltar para Amesterdão’. Se voltar, é só para ir buscar as coisas. E foi o que aconteceu.”
[o vídeo de “Quem És Tu”?]
A agenda ficou cada vez mais preenchida, as colaborações sucederam-se umas às outras, de Carolina Deslandes a Ivandro, passando por Julinho KSD. Chegou o álbum do.mar, cujo título reflete a sua ligação íntima ao oceano, tendo crescido numa ilha no Atlântico. Aliás, o nome “Van Zee” é literalmente a tradução em neerlandês para “do mar”. No ano passado, lançou um projeto conjunto com uma das suas principais referências, o cantor Richie Campbell, It Will Hurt Both Ways.
“Sinto que, em 2023, passei imenso tempo em piloto automático. Estava tão preocupado com o meu próximo passo que se calhar não estava a aproveitar aquele que estava a dar naquele momento. Estava constantemente à espera do próximo. E no ano passado prometi a mim mesmo que o caos ia parar. Não sei como, mas ia parar. E acho que consegui, de certa forma, apreciar melhor os momentos. Apesar de as circunstâncias externas da minha vida terem mudado muito, sinto que o que mudou mais foi reconhecer isso e conseguir aproveitar. A maior mudança foi conseguir reconhecer a bênção que é estar aqui e a gratidão que tenho por isto tudo. O resto? Claro que os concertos mudaram a minha vida, nunca tinha feito e agora tenho 40 datas por ano, mas mesmo assim parece que não teve um impacto assim tão grande até eu o reconhecer: há um ano estava na faculdade, mas agora a vida é isto.”
Procurando ser cada vez mais “transparente” na sua música, diz que nada do que tem conquistado equivale ao processo de criação. “Começar uma ideia, sair do estúdio e ir de carro para casa a ouvir… Há poucas coisas neste mundo que me tragam essas emoções. Não há dinheiro, não há números, até concertos sinto que é difícil chegarem à emoção que uma nova música tem. Porque é sempre diferente e o meu cérebro procura isso, coisas diferentes, não o que já conheço.”
Repentinamente, Van Zee tornou-se também um dos principais representantes culturais do arquipélago da Madeira, onde nos últimos anos tem sido cada vez mais acarinhado. Tal como noutros territórios descentralizados, o artista diz não existirem “tantos apoios” como em Lisboa ou no Porto, nem “tantos exemplos, especialmente no que toca à cultura”. “Nem há tanto o hábito, por exemplo, de uma pessoa na escola, na turma fazer música, começa logo por aí.”
“Ao mesmo tempo, também é uma bênção o facto de teres uma perspetiva completamente diferente de todos. Não estás a representar uma zona… Sinto que as pessoas da Madeira relacionam-se com as minhas letras não porque digo que sou da Madeira, mas as minhas letras refletem a experiência de uma pessoa que cresceu na Madeira. E as pessoas de lá identificaram-se com isso. Durante muito tempo isso não aconteceu, estava a lançar, mas a música se calhar não estava assim tão boa. Agora sinto que as pessoas de lá reconhecem. Lançar a minha primeira música espoletou uma das maiores mudanças de sempre na minha vida. Estou aqui no café com os amigos e tenho medo de cuspir umas barras porque a mesa do lado pode começar a julgar-me. Foi um bocado como cresci. Agora, espero servir de inspiração para outras pessoas que queiram fazer o que para elas é genuíno e autêntico — nem tem que ser música — e os outros podem gozar ou dizer o que quiserem, mas já há um exemplo que por acaso deu certo.”
▲ “Estávamos no hotel a fazer umas ideias, o Frankie estava a fazer um beat, eu comecei a cantarolar a O Amor é Assim dos HMB, começámos a juntar coisas"
Van Zee prepara-se agora para fazer os dois concertos mais importantes do seu ainda jovem percurso. Vai apresentar-se em nome próprio no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a 7 de fevereiro; e no Coliseu do Porto a 15 de fevereiro.
O produtor prodígio que prepara o álbum de estreia
Depois deste Alta Costura com Van Zee, FrankieOnTheGuitar admite fazer outros discos colaborativos com rappers ou cantores. Desde que o músico portuense apareceu em cena em 2017, quando ainda era Frankie Baptista e fazia versões de hip hop tuga na sua guitarra em vídeos que ia partilhando online, que se tornou num peso pesado da produção deste universo musical em Portugal.
Lá fora também, uma vez que não demorou muito a ser convidado a integrar o coletivo de produção Internet Money Records, sediado em Los Angeles, nos EUA, e a ter créditos em temas de artistas norte-americanos como Trippie Redd, Ne-Yo, Juice WRLD, Lil Tecca ou Smokepurpp.
O seu muito aguardado álbum de estreia — que deverá incluir singles já divulgados com participações de Slow J, T-Rex, Lon3r Johny, Ivandro, Van Zee, Bispo e Diogo Piçarra — terá como título There’s No Place Like Home. Ainda sem data prevista, está prometido um disco de produção elaborada a juntar alguns dos melhores (e mais populares) rappers e cantores do país.
“Sinto que o Alta Costura é mesmo o meu pico até agora — não só de qualidade de produção, mas de eu estar feliz e a sentir-me realizado com a sonoridade que estou a fazer. Por isso, acho que vai ser uma boa influência para o meu álbum.”