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Depois das cortinas fecharem, todo o elenco de "A Ratoeira" fez questão de cumprimentar o ator
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▲Depois das cortinas fecharem, todo o elenco de "A Ratoeira" fez questão de cumprimentar o ator

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

▲Depois das cortinas fecharem, todo o elenco de "A Ratoeira" fez questão de cumprimentar o ator

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“Vivam a pensar na vida e nunca na morte”: nos bastidores do regresso de Ruy de Carvalho ao palco

Após um internamento no final de 2025 e uma pausa de quatro meses, o ator de 99 anos voltou à representação. Estivemos antes, durante e depois da apresentação de "A Ratoeira", no Coliseu do Porto.

Paula Carvalho costuma dizer que o pai tem sete vidas, como os gatos. Até agora, e pelas contas que faz, gastou quatro: duas quando venceu dois cancros, em momentos diferentes, há mais de 20 anos; a terceira quando caiu ao descer um vão de escadas em Portalegre; e a quarta quando, no passado dia 26 de dezembro, sofreu um AVC que obrigou à sua hospitalização e consequente afastamento dos palcos. Ruy de Carvalho, que completou 99 anos em março, fez fisioterapia, recuperou a mobilidade e regressou ao teatro na noite de quarta-feira, 22 de abril, no Coliseu do Porto, integrado no elenco da peça A Ratoeira.

A ânsia de rever aquele que é considerado o ator mais velho do mundo em atividade notava-se já à tarde, nos bastidores. A filha Paula Carvalho, que fez questão de o acompanhar, assumia o nervosismo — não em relação ao ator, mas em relação ao pai. Até porque é enorme o seu profissionalismo, o conhecimento que transparece, a memória está intacta, aquela é a sua paixão (sem superstições, antes de entrar em cena). Ruy já andara pelo cenário – que reproduz uma sala de estar com a atmosfera de uma pousada, durante um nevão – a verificar se estava cada objeto no seu lugar, tal o grau de exigência. Respeita muito o público, que apelida de “Ministério da Cultura” – até porque, garante, é ele que manda, é ele que apoia, é ele que justifica uma carreira tão longa.

“Por esse lado, não tenho qualquer problema. Eu sei que, quando eles entram em cena, mudam, perdem as doenças todas. Lembro-me de ver a Eunice [Munõz] a fazer O Comboio da Madrugada: ela, fora de cena, era uma velhinha, e, na altura, era bem mais nova que o meu pai; e n’ O Comboio da Madrugada parecia uma rapariga nova”, conta a filha de Ruy de Carvalho, que foi jornalista de rádio e bailarina. Cresceu numa família de artistas, sendo o pai o quarto ator. “Todos os atores mudam, todos os atores perdem dores de dentes, perdem tudo. O palco é, realmente, uma coisa espetacular. É de tal maneira importante que, na área do envelhecimento ativo, o teatro é muito usado, o faz-de-conta é muito importante. Para os atores, não sei se é o faz-de-conta, mas que é importante, é. Isto é uma paixão, para eles.”

Quando o Observador chegou ao Coliseu do Porto, Ruy de Carvalho estava no camarim a repousar.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
A caixa devidamente identificada continha os adereços da personagem que Ruy de Carvalho interpreta.
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O ator João Baptista, que trata carinhosamente Ruy de Carvalho por "avô", tira uma selfie com o ator.
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Cerca de uma hora antes do início do espetáculo Ruy de Carvalho começa a preparar-se.
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Conta com a ajuda da filha Paula, do ator Luís Pacheco e da responsável pelo guarda-fato.
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O casaco é a última peça que o ator veste.
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Toda a roupa e adereços são colocados cuidadosamente para não afetar a colocação do microfone.
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O cachecol cinzento é o último adereço que é colocado em Ruy de Carvalho.
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No final da preparação a atriz Sofia de Portugal também entrou no camarim.
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Por fim, Ruy de Carvalho pega na bengala que o seu personagem usa.
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Antes de sair do camarim o ator pede que todo o elenco entre.
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Com o grupo todo reunido Ruy de Carvalho é curto nas palavras: "Muita genica porque vocês vão andar muito em cima do palco". Todos riem com as palavras do ator.
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O camarim fica em silêncio e Ruy de Carvalho volta tomar as rédeas: "Um, dois, três. Merda, merda, merda!". As últimas três palavras que fazem parte da tradição do teatro são ditas em unísono.
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Os atores aplaudem todos e ouve-se no camarim "Grande Ruy de Carvalho!", "O mestre!".
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“Agora chamamos-lhe Iron Man”

A conselho da fisioterapeuta, Ruy de Carvalho caminha agora apoiado numa bengala, o que até calha bem, porque o adereço faz parte da personagem que interpreta n’A Ratoeira, inspirada numa obra de Agatha Christie: o Major Metcalf. De resto, o que mudou foi o acompanhamento que o ator tem: ele, que é bastante independente, passou a ter em casa cuidadoras, noite e dia, não porque queira, mas porque os filhos o exigiram. Afinal, quando sofreu o mais recente susto com a saúde estava lá, sozinho, a preparar-se para ir para o teatro, e viu-se incapaz de abrir a porta, que costumava fechar à chave. Os colegas estranharam a ausência e o resto é a história de mais uma recuperação.

“Agora chamamos-lhe Iron Man [Homem de Ferro]”, partilha Paula Carvalho, entre risos. “Porque ele é realmente espetacular. Os médicos estão espantados: como é que recuperou?” Pouco antes, Paula tinha levado aos bastidores uma jovem desejosa de conhecer o pai. Era uma rapariga que tinha estado presente numa homenagem ao ator, em Gaia, e manifestado esse sonho. Entrara no camarim a chorar de emoção, e seria essa a nota dominante, na noite do regresso ao teatro de Ruy de Carvalho, ainda mais numa cidade que lhe diz muito.

Com raízes em Vila Real, o ator frequentou a Invicta desde miúdo, viveu na cidade, foi diretor do Teatro Experimental do Porto. Nesta visita, aproveitou para matar saudades de um bom prato de tripas. Dos bolinhos de bacalhau também. Comeu um, que lhe ofereceram pouco antes do espetáculo, embora não tenha por hábito jantar enquanto o trabalho não estiver cumprido. Depois sim, pode vir a sopa.

▲ Quando Ruy de Carvalho, que interpreta a personagem do Major Metcalf, entrou em cena pela primeira vez houve um grande e longo aplauso do público.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Apresentação número 329: “check”

O encenador d’A Ratoeira, Paulo Sousa Costa, lembra-se bem daquele 26 de dezembro em que as respirações de todos ficaram em suspenso, ao saber do que acontecera ao “mestre”. Primeiro, ficaram preocupados quando o motorista que o ia buscar a casa disse que não aparecia nem atendia o telefone, logo ele, que é tão pontual. Quando se confirmaram as más notícias, as apresentações do espetáculo ficaram sem efeito, “o que foi o menos importante”, e só foram retomadas nesta noite de 22 de abril, a pedido de Ruy de Carvalho, que formulara esse desejo logo em março. O regresso chegou a ser pensado para 1 de abril, Dia das Mentiras, sob o mote “parece mentira, mas é verdade: Ruy de Carvalho volta ao palco”, mas achou-se por bem esperar mais algum tempo.

Paulo Sousa Costa garante que “é muito fácil trabalhar com o Ruy”: “Ouve bastante e depois aplica o que sabe fazer na interpretação”. A Ratoeira, que anda na estrada desde 2020, tem passado por vários sobressaltos — da pandemia, que obrigou a adiar a estreia, à necessidade de substituir Ruy de Carvalho por Virgílio Castelo, enquanto o primeiro recuperava de uma operação à coluna. Na noite desta quarta-feira, no Porto, foi levada a cena pela sétima vez naquela cidade, e pela 329.ª ocasião nas contas gerais. “É o espírito de Agatha Christie que nos protege”, brinca Paulo Sousa Costa.

Nos bastidores, as atrizes Elsa Galvão, Sara Cecília e Sofia Portugal tratam dos próprios penteados e maquilhagem. Esta última, de batom vermelho e rolos nos cabelos escuros, olhos vivos e sorriso largo, assegura: “O Ruy é um mestre. É uma grande honra trabalhar com ele. Pode parecer cliché, mas, no caso do Ruy, é real”. O veterano ator relembra-lhes a cada momento por que vale a pena viver da arte, apesar das dificuldades. “A vida de um artista é muito dura e, se não tivéssemos estes momentos de vivência do sublime… Com o Ruy, o sublime come-se.”

▲ Uma hora antes da abertura de portas os atores que formam o elenco começaram a preparar-se e os últimos pormenores do cenário foram ultimados.

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“Este é só o início dos próximos 99 anos”

Pouco depois, estão todos em cena. Duas horas de atuação, com um intervalo de dez minutos. Para trás ficaram as palavras de ordem gritadas, em coro, ainda antes de subirem as cortinas: “Merda, merda, merda!”. Quando Ruy de Carvalho surge pela primeira vez diante do público, as falas das personagens são interrompidas por um longo aplauso, à mistura com gritos de entusiasmo. No fim, ovação de pé, com o ator a receber um ramo de flores e a agradecer de mãos sobre o peito. “Minhas senhoras e meus senhores, foi um grande prazer ter a vossa companhia e representar A Ratoeira. Como calculam, a partir de agora, são nossos cúmplices. Não digam a ninguém quem matou quem”, afirmou então, com humor.

De seguida, o elenco tirou uma fotografia de costas para a plateia, para incluir os espetadores, com Ruy sentado. “Uma poltrona para o nosso rei”, pediu o ator Luís Pacheco. “Este é só o início dos próximos 99 anos, como já perceberam”, gracejou ainda o encenador.

Termina a peça, nos bastidores, perante um grupo de jornalistas e figuras conhecidas da rádio e da televisão, como José Carlos Malato e José Figueiras, Ruy de Carvalho limitou-se a afirmar, com convicção: “Viva o Porto! Viva o Coliseu do Porto! Viva! Viva! Viva! Vivam todos. Continuem a viver e não pensem na morte, que não vale a pena. Vivam a pensar na vida e nunca na morte”. Fim de espetáculo. Por agora.

No final do espetáculo Ruy de Carvalho foi aplaudido, de pé, por toda a plateia.
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Ruy de Carvalho agradece a todo o público presente.
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Pede também ao público que não desvende o fim da peça que acabou de encenar.
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Já sentado, o autor agradece mais uma vez todo o carinho que estava a receber do público.
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O momento do abraço emotivo entre Ruy de Carvalho e a filha.
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Aqui é acarinhado pelo encenador Paulo Sousa Costa.
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Aqui, ainda em cima do palco, acompanhado por Paulo Sousa Costa e Carla Matadinho, CEO da companhia Yellow Star Company.
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Ainda brindou o público com um excerto de “Monólogo do Vaqueiro”, de Gil Vicente. Esta que foi a primeira peça exibida na televisão portuguesa, em 1957, com Ruy de Carvalho no papel principal.
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Paula de Carvalho acompanhou sempre o pai de perto.
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Antes das cortinas fecharem o elenco ainda tirou uma fotografia com o público.
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Um abraço entre o encenador e Ruy de Carvalho.
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O ator João Baptista deixa a cabeça de Ruy de Carvalho num momento de cumplicidade.
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Aqui Ruy de Carvalho beija a testa da atriz Sofia de Portugal e diz "É tão bonito haver esta amizade entre todos".
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Antes de abandonar o palco o ator estava visivelmente feliz.
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A noite acaba no camarim e com Ruy de Carvalho a dizer "Continuem a viver e não pensem na morte, que não vale a pena".
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