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Zoë Saldaña: a melhor (e mais "principal") das Atrizes Secundárias

Lembrou que é a primeira americana de origem dominicana a ganhar um Óscar e que não será a última. Era a mais esperada para a vitória como Atriz Secundária e concretizou, por "Emilia Pérez".

O ano era 2022 e Zoë Saldaña tinha acabado de filmar Guardiões da Galáxia: Volume 3, que chegaria aos cinemas no ano seguinte. O agente disse-lhe que o realizador Jacques Audiard queria falar com ela numa videochamada. A atriz sabia perfeitamente quem ele era, já que era fã dos seus filmes anteriores, Um Profeta (2009) ou Ferrugem e Osso (2012). O que estava em cima da mesa era o papel de Rita em Emilia Pérez.

Mesmo tendo sido o realizador a pedir a reunião, Saldaña estava convencida de que não tinha hipóteses para interpretar uma mulher de 20 e poucos anos (ela tem 46) que, ainda por cima, tem de cantar. Quis desistir da chamada, mas o marido, Marco Perego-Saldaña, não deixou. “Perguntou-me: ‘Não queres trabalhar com o Jacques Audiard?’ Eu disse que seria um sonho. Ele respondeu: ‘Então sonha’”, contou em entrevista ao The New York Times.

Porém, tal como lhe tinha acontecido em dezenas de audições, começou a ter um ataque de pânico a meio da reunião. Uma voz na cabeça dela repetia: “Eles não gostam de mim”. O certo é que a chamada durou hora e meia e Saldaña até arranjou coragem para cantar.

Audiard adorou-a e quis reescrever o papel para se adaptar à atriz, mas as filmagens teriam de começar em setembro de 2022. Na cabeça de Saldaña, o sonho acabou logo aí, antes de começar. O seu calendário previa o início das gravações da série Lioness exatamente nessa altura, além de uma digressão mundial para promover Avatar: O Caminho da Água. “Pensei: ‘Não vou ter isto, mas pelo menos cheguei até aqui. Ele [Jacques Audiard] sabe quem eu sou e um dia, se estiver em Paris, convido-o para um café. Ele vai dizer que não, mas está tudo bem.”

[o trailer de “Emilia Pérez”:]

O pessimismo dela foi derrotado pela certeza do realizador de que ela era a pessoa certa para o papel. Audiard adiou tudo durante um ano para esperar por Zoë Saldaña. A aposta foi ganha. Saldaña venceu o Bafta, o Globo de Ouro e, por fim, o Óscar de Melhor Atriz pela interpretação de Rita em Emilia Pérez.

Ao receber o prémio, Zoe Saldaña agradeceu pelo reconhecimento “do heroísmo silencioso”. “O que me deram [sobre as restantes nomeadas] vou agradecer para sempre”, disse. “Obrigado a Jacques Audiard por querer contar esta história”, acrescentou. A atriz partilha o prémio com os colegas, com a produção, com os managers. Agradece aos pais, à avó — se estivesse aqui ficava tão feliz — ao marido e ao cabelo do marido. “A minha avó veio para este país em 1961, sou orgulhosa filha de pais imigrantes, de mãos que trabalharam. E sou a primeira americana de origem dominicana a receber um Óscar e sei que não vou ser a última.”

É a terceira mulher latina a ganhar um Óscar e a única sem o fazer com o papel de Anita em West Side Story — Rita Moreno e Ariana DeBose foram reconhecidas pela Academia em duas versões dessa mesma história.

“Atriz? Quem é que haveria de querer ver alguém como tu a fazer algo assim?”

Zoë Yadira Saldaña Nazario nasceu a 19 de junho de 1978 em Nova Jérsia e cresceu em Queens (EUA). O pai, Aridio Saldaña, era dominicano. A mãe, Asalia Nazario, é dominicana mas com origens porto-riquenhas. Com as irmãs, Cisely e Mariel, foi educada de forma bilíngue, em inglês e espanhol. Em casa falavam sempre espanhol.

Desde essa altura é fã dos Mets e costumava ir aos jogos de baseball com os avós. “Faziam cachorros-quentes em casa porque se recusavam a gastar dinheiro no estádio. Levavamos arroz, feijão e sandes da mercearia. O meu avô bebia o seu uísque e a minha avó cobria-me de protetor solar até eu parecer o Casper”, recordou à Variety. Quando Zoë tinha nove anos, o pai morreu num acidente de carro. “Não há um dia em que não pense nele. Ainda me lembro do riso dele”, revelou ao programa Here Comes the Sun, da CBS News.

As três irmãs foram então viver com a família paterna na República Dominicana, enquanto a mãe continuou em Nova Iorque a trabalhar para conseguir pagar a escola privada das filhas. Sofreu de bullying por ser “demasiado pobre, demasiado desajeitada e ter a pele demasiado escura” em relação aos outros. Refugiou-se no ballet, que começou a praticar numa academia, mas a auto-estima era constantemente posta à prova. Uma chamada telefónica com colegas da escola, aos 13 anos, acabaria por ditar o seu futuro. Na conversa, cada uma disse o que queria ser quando crescesse. Quando Saldaña respondeu “atriz”, as restantes ficaram perplexas. “Atriz? Quem é que haveria de querer ver alguém como tu a fazer algo assim?”

Zoë Saldaña não sabe o que é a insegurança financeira da vida de um ator. Porém, ao desdobrar-se nestes lucrativos filmes e sequelas sem fim, sente que pode ter ficado estagnada. “Quando fazemos parte de projetos que são tão grandiosos e que se tornam tão bem sucedidos, sim, aproveitamos os benefícios e ficamos gratos. Mas há uma parte de mim, enquanto artista, que simplesmente deixou de crescer e aceitar desafios”.

A chamada terminou, Zoë Saldaña respirou fundo e decidiu: “Vou ser a cabra mais bonita, mais magra, mais brilhante e mais ágil desta cidade. E isso vai acontecer a qualquer custo. Não importa se saltar uma refeição, dançar seis horas extra ou ensaiar uma última vez. Eu ia ser relevante”, recordou ao The New York Times.

Quando a mãe voltou a casar, com Dagoberto Galán — o padrasto que é descrito como pai, tanto por Zoë, como pelas irmãs —, Saldaña regressou a Queens para completar o ensino secundário devido à incerteza política na República Dominicana. Começou a representar no New York Youth Theater e a participação na peça Joseph and the Amazing Technicolor Dreamcoat despertou o interesse de uma agência de talentos, que a recrutou.

Estreou-se em 1999 com uma participação especial em dois episódios da série Lei e Ordem. O primeiro papel no cinema foi em No Centro do Palco (2000), como uma bailarina.

Participou em Destinos (2002), Piratas das Caraíbas — A Maldição do Pérola Negra (2003), Terminal de Aeroporto (2004) e Star Trek (2009). Depois, entrou em quatro dos seis filmes mais rentáveis de sempre, incluindo os que ocupam o pódio: Avatar (2009), Avatar: O Caminho da Água (2022) e Vingadores: Endgame (2019). Os projetos em que esteve envolvida renderam mais de 14 mil milhões e Saldaña é, segundo os dados mais recentes (de 2014), a segunda atriz principal mais lucrativa e, no ranking que junta homens e mulheres, ocupa a quarta posição a nível mundial.

Para o primeiro Avatar mudou-se para Los Angeles, mas os primeiros tempos foram penosos. “No início tinha muitas saudades de casa. Los Angeles fazia-me lembrar a vida na República Dominicana, quando era adolescente, onde toda a gente come nos mesmos restaurantes e conhece toda a gente. […] Sabia que ia demorar a adaptar-me”, explicou numa entrevista de 2013 à Los Angeles Magazine.

▲ Em "Emilia Pérez", ou umas da prestações de atriz secundária mais "principais" da história recente do cinema

Nessa altura, ainda não sabia conduzir, o que a tornava dependente e vulnerável. “Quando finalmente tirei a carta, L.A. começou a transmitir uma sensação diferente. Comprei um Audi S6 e comecei a fazer as minhas coisas sozinha, tudo o que me apetecia.” Para o filme preparou-se intensamente durante seis meses. Aprendeu artes marciais, equitação e tiro ao arco. Com algumas paragens pelo meio, as filmagens duraram dois anos.

Sobre o igualmente exigente papel de Gamora no universo da Marvel, diz começar a sentir que é fisicamente muito desgastante. “Tenho 46 anos. O que é que vou fazer?”, questionou num podcast do Awards Circuit, da revista Variety.

Ninguém ia conseguir dizer o nome dela

Zoë Saldaña não sabe o que é a insegurança financeira da vida de um ator. Porém, ao desdobrar-se nestes lucrativos filmes e sequelas sem fim, sente que pode ter ficado estagnada. “Quando fazemos parte de projetos que são tão grandiosos e que se tornam tão bem sucedidos, sim, aproveitamos os benefícios e ficamos gratos. Mas há uma parte de mim, enquanto artista, que simplesmente deixou de crescer e aceitar desafios”, confidenciou ao The New York Times.

Em 2016 protagonizou Nina, sobre a cantora de jazz Nina Simone, um projeto de que se arrepende profundamente após ter sido inundada com críticas por ter usado uma prótese no nariz e maquilhagem para escurecer a pele. “Nunca devia ter dito que sim ao papel. Sou negra, nunca ninguém me vai dizer como ser negra, mas enquanto pessoa com heranças afro-americana e latina, tenho de entender quão complexa esta discussão tem de ser para mostrar uma representação correta de uma mulher de cor”, explicou à CBS News.

Apesar de todo o sucesso conquistado até aqui, a própria tem noção de que muitas vezes se prejudicou. Por ser disléxica e o inglês não ser a sua língua mãe, sempre ficou ansiosa ao ter muito texto para decorar. Quando Taylor Sheridan, criador de Yellowstone, a contactou para a série Lioness, ela começou por dizer que não. Finalmente, ganhou coragem e pediu-lhe tempo extra para memorizar os extensos diálogos. “[Tinha medo de falar] simplesmente por achar que não era boa o suficiente. […] Sempre me senti preterida, mas no sentido de: ‘Bom, se sou preterida, é porque mereço”, explicou em entrevista ao The New York Times.

Só em 2021 (em Maya e os Três Guerreiros) é que começou a escrever e pronunciar corretamente o seu apelido, Saldaña. Até aí usava Saldana, uma sugestão que o agente que tinha no início da carreira lhe tinha feito por considerar que ninguém ia conseguir dizer o nome dela.

Por tudo o que está a manchar o percurso do filme, Zoë Saldaña já se descreveu várias vezes como “triste”. “Também estou desiludida. Não posso falar pelas ações das outras pessoas. Tudo o que posso atestar é a minha experiência e nunca, num milhão de anos, achei que estaríamos aqui”, lamentou à revista Variety. Num evento em Londres, acrescentou: “Não apoio e não tenho qualquer tolerância para retórica negativa em relação a pessoas de qualquer grupo.”

Com 13 nomeações, Emilia Pérez é o filme de língua não inglesa com mais nomeações em toda a história dos prémios. No projeto é Rita Mora Castro, uma advogada que ajuda um líder de um cartel mexicano a ter acesso a uma cirurgia para mudar de sexo e deixar a antiga vida para trás. Para se preparar para o papel, voltou à dança e teve aulas de treino vocal.

Quando o filme se estreou no Festival de Cinema de Cannes, o prémio de Melhor Atriz foi atribuído de forma partilhada às protagonistas do filme: Karla Sofía Gascón, Zoë Saldaña, Selena Gomez e Adriana Paz. Mesmo assim, Saldaña hesitou se devia ou não expor o troféu em casa. Mais uma vez, foi o marido que lhe relembrou o quanto tinha trabalhado para conseguir algo assim. “Demorei este tempo todo para admitir que, sim, quero a aprovação das pessoas”, disse ao NY Times.

Contudo, está a ser difícil separar os méritos do musical (que também é uma história de crime) e a polémica desencadeada por antigas publicações nas redes sociais de Karla Sofía Gascón com comentários ofensivos e racistas e críticas à colega Selena Gomez.

Por tudo isto estar a manchar o percurso do filme, Zoë Saldaña já se descreveu várias vezes como “triste”. “Também estou desiludida. Não posso falar pelas ações das outras pessoas. Tudo o que posso atestar é a minha experiência e nunca, num milhão de anos, achei que estaríamos aqui”, lamentou à revista Variety. Num evento em Londres, acrescentou: “Não apoio e não tenho qualquer tolerância para retórica negativa em relação a pessoas de qualquer grupo.”

Ao ganhar o Bafta, disse aos jornalistas que dedicava a distinção a um dos sobrinhos, que é trans. “Dedico todos os prémios e o filme ao meu sobrinho, Eli. Ele é a razão — eles são a razão — pela qual aceitei fazer este filme.” Apesar de a jornada de Emilia Pérez ter sido agridoce, já ninguém tira a Saldaña a certeza de que o projeto foi especial. “Fi-lo por mim. E durante muito tempo tinha deixado de fazer coisas por mim”, admitiu ao jornal The New York Times.

Os filhos, os planos e os agradecimentos

A vida familiar estabilizou há mais de uma década. Depois de namoros com os atores Keith Britton e Bradley Cooper, em 2013 conheceu o artista italiano Marco Perego num voo para Nova Iorque. Casaram três meses depois numa cerimónia secreta em Londres. “Na altura estava a trabalhar e tive de pedir o dia de folga. Disse: ‘Peço imensa desculpa, sei que isto é fora das normas mas posso pedir este dia de folga? O que se passa é que vou casar-me”, contou à revista Wired.

A atriz adotou o nome do marido, mas ele também juntou Saldaña ao dele. Dividem-se entre as casas que têm em Nova Iorque e Los Angeles. Têm três filhos, com os quais falam inglês, espanhol e italiano. Os gémeos Cy e Bowie (que nasceram em 2014) e o irmão mais novo, Zen (2016) são todos obcecados por futebol. “Acordam e falam do Manchester City, do Arsenal e do Paris Saint-Germain. […] Eu não faço ideia quem são metade dos jogadores.”

▲ Zoe Saldaña nas nas sagas de "Piratas das Caraíbas", "Avatar", "Guardiões da Galáxia" e, mais recentemente, no elenco da série "Lioness"

Alamy Stock Photo

Tanto a atriz como a mãe e as irmãs sofrem de tiroide de Hashimoto, uma doença autoimune que inflama o tecido da tiróide e, para combater os sintomas, aderiu a uma dieta sem glúten e sem lactose.

Este ano regressa à saga Avatar, com Avatar: Fire and Ash — falta ainda outro filme na saga, estimando-se que Saldaña só vá deixar o papel de Neytiri quando tive 53 ou 54 anos. “Vai ser uma montanha russa emotiva.” Além disso, quer expandir a carreira. “Quero realizar. […] Não quero todo aquele trabalho associado a orçamentos e logística, mas quero ter mais controlo sobre a forma de contar a história.” No entanto, explicou que o facto de ter dislexia e défice de atenção a têm travado. “Não posso estar sentada mais de um minuto à frente de um computador que começo: ‘Dói-me a mão, não consigo!’ E não sou capaz de escrever suficientemente rápido para que os meus pensamentos se materializem. Talvez aprenda. É o meu próximo desafio.”

Adorava também criar um programa de televisão que explorasse as tradições culinárias da América Latina. “A comida conta a história da História — colonização, escravatura, raízes indígenas — e como tudo isso se encontra num único prato. É mágico.”

Diz que Emilia Pérez lhe chegou através do poder da manifestação — desejar algo com tanta força que acaba por acontecer —, como confidenciou na conversa para o Actors on Actors com Kate Winslet. “Acredito realmente nisso e antes nunca tinha acreditado. Sempre fui um pouco cínica sobre a relação que temos com o universo. Ainda assim, o universo falou comigo diretamente sempre que procurei conselhos e direção.”

Com o filme de Jacques Audiard chegou o Óscar de Melhor Atriz Secundária e uma confiança renovada. Depois de anos a autossabotar-se, Zoë Saldaña está finalmente a aceitar que merece um lugar em Hollywood e que não é ao universo que tem de agradecer, é a ela própria.

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