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A exposição constante a conteúdos eleitorais provoca angústia?

Pode provocar. No entanto, não há uma relação linear entre ver ou ler constantemente conteúdos sobre eleições e picos de angústia. Em todo o caso, “os ciclos noticiosos de 24 horas, o fluxo constante de dados, frequentemente desconectados, ou os conteúdos e ‘comportamentos’ que proliferam nas redes sociais, no quadro de um clima de polarização que vivemos, poderão constituir fatores de risco”, explica o psicólogo Renato Gomes Carvalho, membro da direção nacional da Ordem dos Psicólogos Portugueses. “Sobretudo quando isso ocorre numa realidade que é incerta, exigente, e sobre a qual temos baixa perceção de controlo.”

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E a polarização política, que tem aumentado, prejudica o bem-estar?

Sim, por várias razões. Mas sobretudo porque se associa a polarização a uma degradação do clima de convivência, da coesão social e da confiança. E porque denota cansaço e falta de esperança.

O que se reflete, de forma significativa, na vida das pessoas e no seu bem-estar. “Sociedades onde não há coesão social, onde as pessoas não confiam umas nas outras nem nas instituições e onde as pessoas não têm esperança, são disfuncionais e não prosperam”, diz o psicólogo clínico e professor universitário.

Uma coisa é o confronto de ideias, as diferenças e os antagonismos que existem em qualquer disputa política. “É natural e até salutar que existam, desde que isso ocorra num contexto de civilidade e de convivência, em que há um consenso mínimo sobre a democracia e as suas regras.” Outra coisa, afirma, “é passarmos a viver num ambiente de tribalismo, numa espiral de declínio, em que o comportamento é apenas motivado para deitar o outro abaixo.”

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O confronto político, em casa e nas ruas, provoca stress?

Sim. Mas quando o stress tem a capacidade de mobilizar para a ação em prol do outro, isso não é mau. Outra coisa é quando, pela sua natureza, intensidade e duração, se ultrapassam as fronteiras da normalidade. Neste caso, o stress não é bom. “Ou seja, quando é um stress que passa a ser adaptativo.”

Segundo o psicólogo, “não é o confronto político, por si só, que é nefasto, mas a forma como o mesmo é feito e particularmente determinados mecanismos que têm sido utilizados (por exemplo de manipulação, desinformação e polarização através de redes sociais e dos media, etc).”

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Podemos então falar de “ansiedade política”?

Sim, podemos. Renato Gomes Carvalho lembra que vivemos numa “época ansiosa”. Ansiedade que se insere num quadro de permanente convivência com a incerteza, com a falta de controlo, com exigências múltiplas e crescentes, com um determinado clima social. “Isto também se reflete no plano da política, na medida em que a nossa vida e o nosso futuro dependem e são influenciados pelas decisões políticas tomadas, dos transportes à habitação, passando pela saúde ou educação.”

A lógica de “um contra o outro”, do “tudo ou nada”, não ajuda, bem como a amplitude e o volume dado a discussões polarizadas sobre determinados temas que, nestes momentos eleitorais, não saem da ordem do dia.

O presente agitado, o futuro incerto, o momento das campanhas, o “bombardeamento” noticioso que se vive, são gatilhos de ansiedade que se manifestam num maior nervosismo, noites mal dormidas e agitação constante.

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O atual contexto político desestabiliza o equilíbrio emocional?

Sim, tem essa capacidade. Vive-se um tempo de mudanças, alterações profundas, o xadrez político modificou-se bastante nos últimos anos, a sociedade digere e tenta encaixar cenários não previstos. Todo esse contexto é muito exigente do ponto de vista emocional.

“Estamos a conviver com exigências muito elevadas e simultaneamente baixa perceção de controlo. O próprio ambiente de tribalismo remete para funcionamentos extremados e inflexíveis, de falta de empatia e agressividade. Num mercado de disputa pela atenção e em que a zanga tem maior potencial viral nas redes, quase que há um reforço de funcionamentos descompensados.”

 

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O ódio é um sentimento frequente nas eleições?

Depende. É natural que se manifeste dado o contexto de disputa. “Quando há processos eleitorais, é natural que possa existir um aumento da intensidade do debate, do confronto entre partes e isso naturalmente gera alguma hostilidade.” Faz parte destes processos.

“Temos de estar habituados, e até convém que estejamos expostos a diferentes perspetivas porque isso permite-nos ter flexibilidade e abertura para olhar para os assuntos.” O problema é como é que cada um gere os antagonismos, quer antes, quer depois do período eleitoral. “As eleições são uma espécie de arena com muitos intervenientes, muitas pessoas, com as suas características.” Por isso, as circunstâncias e as posturas podem favorecer um clima de ódio.

Quando não há pressupostos que todos partilham, quando já nem os resultados eleitorais são aceites se não agradarem, quando é difícil alcançar consensos, quando as discussões inflamam e sobem de tom, abre-se todo um caminho para um ambiente de hostilidade e de extremismo.

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Então, na prática, como é que as eleições afetam a saúde mental?

De várias maneiras. Pelo stress, pelo nervosismo, pela angústia, pelo medo do futuro. E tudo o que isso implica. Segundo Renato Gomes Carvalho, mais do que as eleições em si, é necessário olhar para o clima social, em Portugal e no mundo. “Os atos eleitorais ocorrem num contexto e é esse contexto que é mais determinante para a saúde mental do que propriamente as eleições em si.”

“Se a saúde mental não é apenas um estado de ausência de doença, podemos, num primeiro nível, dizer que esse clima social em que as eleições ocorrem podem gerar uma espécie de cansaço emocional, interferir na produtividade, na esperança face ao futuro e na forma como as pessoas encaram o mundo.”

Por outro lado, há comunidades mais frágeis do que outras, em que o impacto é maior. “Por exemplo, pessoas e grupos sociodemográficos que sejam visados por determinadas propostas ou alvo de maior hostilidade, bem como pessoas que estejam em situação de vulnerabilidade anterior, por viverem com alguma perturbação psicológica ou apresentarem fatores de risco.”

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A que sintomas devemos estar atentos?

Ansiedade, agressividade, alheamento, tensão, problemas de concentração, perturbações no sono e na alimentação ou sintomas físicos.

Renato Gomes Carvalho aconselha a responder a duas perguntas:

  1. “Há alguma situação específica que está a causar sofrimento?”
  2. “Há algum caso que está a interferir com o dia a dia, com a capacidade de funcionar?”

“Mais até do que sintomas específicos — e aqui poderíamos sempre falar nos sintomas da ansiedade, que são mais comuns — julgo que, em períodos como aqueles em que vivemos no mundo, devemos ter momentos para olharmos para nós e procurarmos ter consciência do nosso funcionamento, em vez de estarmos numa espécie de piloto automático.”

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Nesses casos, o que fazer?

Higiene mental, aconselha o psicólogo. Atividades que dão prazer. Não desmazelar o autocuidado. Cuidar da autoestima. Ter espírito crítico e não esquecer que uma coisa é estar informado, outra é estar exposto a dados descontextualizados, à desinformação e à manipulação, essencialmente nas redes sociais. Consumir informação com moderação e com critério.

“Entre um desligamento ou alienação total, por um lado, e uma imersão num ambiente de tribos em guerrilha, certamente há um equilíbrio que temos de procurar.” E não esquecer que, além das necessidades fisiológicas, há também as necessidades psicológicas. Por isso, nunca descurar a importância das relações interpessoais com qualidade.

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E depois das eleições, como lidar com emoções como tristeza, raiva ou medo?

Antes de mais, é preciso aceitar que essas emoções existem e fazem parte da existência. É natural senti-las, portanto. O desafio é saber lidar com essas e outras emoções e ter capacidade de autorregulação, o que envolve o autocuidado e a atenção às necessidades psicológicas.

“No plano político, se a tristeza decorrer da frustração de determinadas expetativas ou o medo vier da ameaça de propostas que foram aprovadas, há também a questão da participação cívica construtiva. No tempo em que vivemos, bem precisamos dela”, conclui Renato Gomes Carvalho.

E, em caso de persistência de sintomas e mal estar, é sempre conveniente procurar ajuda profissional.