As publicações são bastante descritivas — e há várias a circular sobre o tema, todas com o mesmo texto. Antes de o touro entrar na arena, os olhos “são esfregados com vaselina para desfocar a vista”, é colocado “algodão nas narinas” para lhe dificultar a respiração e é “colocada uma agulha no meio dos genitais” para espicaçar o animal antes da lide. E não termina aqui. As pernas do bovino também são esfregadas com “uma substância corrosiva” para que “perca o equilíbrio” e, durante “alguns dias”, o touro é mantido num “espaço apertado e escuro” para ficar desorientado no momento em que entra na arena. “O médico veterinário que acompanha a corrida nunca permitiria uma situação dessas”, garante ao Observador o bastonário da Ordem dos Médicos Veterinários, Jorge Cid.

Um dos posts que o Observador identificou, e em que são feitas estas alegações, somava perto 40 mil visualizações e cerca de mil partilhas, só nos últimos dois dias. Numa passagem pelos comentários à publicação — com a imagem de um touro rodeado de pessoas, a acompanhar o texto –, fica claro o crédito dado, por grande parte dos leitores, ao que ali é descrito. “Nunca gostei de touradas, mas, ao ler este texto que me dá muito tristes novidades, ainda passei a gostar menos”, lê-se num deles. “Como ler uma coisa destas e não sentir nada? Como conseguir ser realmente feliz quando sabemos que esta maldade existe no meio de nós? E pior, quando é o próprio ser humano a fazê-la, estou sem palavras para o que li”, desabafa outra utilizadora.

Há, porém, quem encare o post com um olhar mais cético. “Eu também não sou a favor de se espetar o animal… mas daí a acreditar nestas barbaridades todas que estão aqui escritas, nem tanto ao mar nem tanto à terra”, refere ou comentário.

Joaquim Grave também é médico veterinário. Além disso, é proprietário de uma herdade no Alentejo onde faz criação de touros que, a partir dos quatro anos, são encaminhados para a arena e acompanhou e realizou dezenas de inspeções médicas aos animais ao longo das últimas décadas. Ao Observador, resume a reação em cinco palavras: as práticas descritas nesta publicação “não fazem o menor sentido”.

Desde logo porque seriam “contraproducentes” e colocariam em risco a vida dos próprios toureiros e forcados com que o touro se defronta. “Se tiver algum tipo de lesão que o impeça de se comportar normalmente, isso só vai dificultar que tome um comportamento que é estudado pelo toureiro”, diz o veterinário. “Qualquer lesão que o touro tenha, mesmo no campo, vai levar a que se isole, que não tenha o comportamento esperado”, descreve o também criador de gado bovino.

Grave garante que em nenhuma das corridas que acompanhou ao longo carreira se deparou com uma situação como aquela que é descrita na publicação identificada pelo Observador e que começou a ser partilhada há poucos dias e que se difundiu por mais de duas centenas de partilhas e que soma quase 40 mil visualizações.

“Nunca ouvi tal coisa”, garante o bastonário dos médicos veterinários, quando confrontado com a descrição das publicações que circulam no Facebook, acrescentando que não chegaram à Ordem relatos nem denúncias de casos semelhantes (apenas queixas sobre as condições de transporte dos animais). “É obrigatório”, recorda Jorge Cid, “estar presente em todas as corridas um médico veterinário, que é o responsável técnico pela corrida, e que manda interrompê-la quando deteta alguma anomalia no touro”. Questionado sobre a possibilidade de ser o próprio médico veterinário – em muitos casos, também eles aficionados – a promover ou, pelo menos, a não impedir aquele tipo de intervenções no animal, o bastonário é perentório: “O médico veterinário responde perante um código ético e deontológico e, por mais aficionado que possa ser, tem a obrigação de garantir a salvaguarda do bem-estar animal e nunca permitiria uma situação dessas.” Sem proximidade às corridas, mas baseando-se no seu conhecimento clínico, Cid admite que as ações descritas como servindo para potenciar a agressividade do animal dentro da arena poderiam até surtir o “efeito contrário”.

“Um disparate, não faz o menor sentido”, atira Joaquim Grave sobre os atos descritos na publicação do Facebook. Além de médico veterinário que acompanhou dezenas de corridas durante mais de 40 anos, é também criador de touros e conhece bem o comportamento destes animais, dentro e fora da arena. Ao Observador, garante que “qualquer interveniente na corrida, seja ganadeiro ou toureiro, quer ver o animal na sua plenitude”, algo que não seria possível se tivesse a visão turva ou a respiração dificultada.

Um touro adulterado, concretiza, “funcionaria ao contrário” e, das duas, uma: ou se “refugia” e se “isola” na arena ou investe de forma imprevisível e põe em risco a segurança física dos toureiros. “Não há agente taurino que tenha interesse em que seja assim, o touro tem de estar intacto para que tenha um comportamento o mais previsível e de acordo com padrões da raça”, diz. “Existe uma narrativa daquilo que é uma corrida, feita pelos animalistas, que não corresponde à realidade”, reafirma o médico veterinário e criador de touros de corrida.

Na verdade, a maior parte das queixas das associações de defesa dos direitos dos animais reportam-se aos ferimentos provocados nos animais durante o toureio. Mas os posts em causa cingem-se exclusivamente ao momento anterior à entrada do touro na arena e nada referem quanto à lide, em si.

Conclusão

A Ordem dos Médicos Veterinários não recebeu qualquer denúncia de maus tratos a touros na preparação para uma corrida. E o bastonário acrescenta que um comportamento em linha com o descrito na publicação do Facebook representaria uma violação do código ético e deontológico dos médicos veterinários. Joaquim Grave, veterinário e criador de touros, acrescenta a ideia de que os atos descritos, se fossem postos em prática, prejudicariam a prestação do animal na arena.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO
De acordo com o sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

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