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Sakamoto: música entre a vida e a morte

30 mai. 2023, 17:47
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A Música na Minha Cabeça

A Música na Minha Cabeça

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Fotografia de Martim Sousa Tavares
Martim Sousa Tavares
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Banda sonora de despedida

Funeral é um conjunto de músicas com mais de duas horas e meia de duração, que ilustra a viagem entre a vida e a morte de Ryuichi Sakamoto. Uma compilação de uma lucidez, originalidade e significado tocantes que merece ser ouvida e conhecida.

No dia 15 de Maio, a equipa do compositor japonês publicou nas redes sociais a existência desta lista, assim como uma breve descrição do seu contexto: trata-se do conjunto de músicas escolhidas a dedo pelo próprio, na fase terminal da doença, para serem tocadas no seu funeral.

Pela informação disponível em todos os meios à data em que escrevo, não me é possível apurar se de facto estas músicas foram mesmo tocadas (o que faria da cerimónia bastante longa) ou se terá sido dada a ouvir em contexto privado, para aqueles que eram íntimos do compositor. Ou, também é possível, se calhar esta é a playlist de um funeral imaginário.

De resto, todo o processo da sua doença e fim de vida foi abordado com enorme recato, havendo apenas aqui e ali algumas indicações de que o compositor era doente oncológico e tendo a sua morte sido comunicada ao mundo apenas alguns dias após ter decorrido. Nada de mediatismo, sensacionalismo ou sequer partilhas diárias dos pequenos reveses e conquistas do quotidiano, como hoje estamos habituados a ver na janela voyeurista das redes sociais.

A primeira surpresa ao descobrir esta playlist é que, como diz a sua equipa, Sakamoto esteve envolto em música até ao fim. Já não podendo ele próprio criar ou interpretar, dedicou-se à escuta da música dos outros. No fundo, a música da sua vida. E a segunda surpresa, para quem quer que abra a playlist e a passe na diagonal, é que não há aqui nenhum tema seu.

Será isto um exemplo de humildade? A procura de algo que nunca conseguiu obter na sua música, buscando-o na dos outros? Ou simplesmente um ouvido atento à música do mundo, ao contrário de muitos artistas que optam por cortar laços e não se deixar contaminar com a criatividade alheia? Não sabemos, nunca saberemos. Mas a música em si pode dar algumas respostas e é uma viagem que recomendo muito que façam.

Haloid Xerrox Copy 3 (Paris). É este o título invulgar da música que abre a playlist. O autor é o alemão Alva Noto, já colaborador com Sakamoto em diversas ocasiões e a música é a entrada perfeita para esta viagem. Trata-se de uma faixa com mais de 11 minutos, construída a partir de um bordão de sintetizador etéreo, distante e frio, que muito lentamente se vai fazendo vivo. O título não nos ajuda em nada e remete para aqueles solilóquios que por vezes os artistas têm consigo mesmos, quase fazendo gala de propor títulos intransponíveis. Haloid era o nome da companhia que hoje conhecemos como Xerox (a mudança ocorreu em 1958), o que não nos dá qualquer pista sobre a música em si. O melhor é mesmo fechar os olhos e aceitar a viagem tal como ela é. Os sentidos sugerem-me uma viagem lenta através de um espaço escuro, como seria por exemplo uma deslocação interestelar. No fundo, a transição entre a vida e a morte, para quem, como eu, não faz a mais pequena ideia sobre o que seja o lado de lá.

É música que não conhecia mas que já ouvi várias vezes, sempre com a mesma sensação de espanto. E, só por isto, já estou agradecido a Sakamoto.

A partir daqui, a playlist torna-se um pouco mais convencional, com grande peso na música clássica e enfoque no aspecto mais minimalista dos compositores franceses Gabriel Fauré, Claude Debussy, Maurice Ravel e Erik Satie, e com um centro gravitacional em torno de Johann Sebastian Bach, o que não é surpresa: Sakamoto sempre foi devoto de Bach e tem mesmo alguns trabalhos publicados em disco que não são mais do que construções livres sobre a música de Bach. Destaco o disco de homenagem a Glenn Gould, em colaboração com Alva Noto, o pianista luxemburguês Francesco Tristano e Christian Fennesz.

Também há alguma música de filmes (vintage, é claro), com Georges Delerue, Ennio Morricone e Nino Rota.

O principal é música instrumental, acústica ou sintetizada, quase sempre evitando a voz cantada. As excepções são praticamente todas em língua francesa e a que mais desponta é a canção A Paris chaque faubourg, uma velha chanson dos anos 1930, com letra de René Clair, que a escreveu para o seu próprio filme 14 de Julho, de 1933, e que certamente terá uma história pessoal para Sakamoto, uma vez que é claramente a ovelha negra dentro da playlist. Não faço ideia o que poderá querer dizer, mas desconfio que remeta Sakamoto para uma ideia de juventude, como de resto esta canção de amor nos faz sentir.

Foi cantada por nomes como Yves Montand, Patachou, Georges Brassens e muitos outros, mas Sakamoto optou pela versão original, com a patine dos seus noventa anos de história, na voz de Lys Gauty.

Menos surpreendente será o encontro com a voz de David Sylvian em Orpheus, ele que dá voz àquela que foi a música principal de todo o repertório de Sakamoto: Forbidden Colours, o tema de 1983 que conhecemos do filme Merry Christmas, Mr. Lawrence de Nagisa Oshima.

Não deixa de ser curioso que a escolha, de entre todo o repertório de David Sylvian, tenha recaído sobre o mito de Orfeu, aquele que, com o poder da sua lira, desce ao Hades e acalma as fúrias que guardam o reino da morte, onde resgata a sua perdida Euridice, trazendo-a de volta ao mundo dos vivos.

No que diz respeito à música clássica, campo onde me sinto mais à vontade, não posso dizer que tenha sido surpreendido pela novidade ou pelo inesperado. O que senti, isso sim, foi a validação do dedo de mestre de Sakamoto. Há aqui muito pouca música “óbvia”. Talvez a sempiterna primeira Gymnopédie de Erik Satie (na versão orquestrada por Debussy), ou a Sarabanda de Handel, tornada famosa pelo filme Barry Lyndon, embora Sakamoto tenha optado por uma interpretação com muito menos pathos do que a que Stanley Kubrick escolheu.

Esta música, através do cinema, passou à história associada a uma marcha fúnebre: música de enorme verticalidade, que transpira uma sensação de fatum ao qual não podemos escapar. Tal como a morte inexorável e invencível.

São várias as leituras possíveis da morte através desta playlist. Por um lado, ao escolher a canção de Gabriel Fauré O mort, poussière d’étoiles [“Ó morte, pó das estrelas”], sobre um poema de Charles van Leberghe, podemos ler um Sakamoto ansioso por finalmente realizar a derradeira viagem, com uma vontade mística ou quase pagã, ou não abrisse o poema com os seguintes versos:

Ó morte, pó das estrelas
Levanta-te sob os meus passos!
Vem, doce onda brilhante,
Pela escuridão;
Leva-me para o teu nada!
Vem, brisa suave em que vacilo,
Como uma chama ébria de vento!
Em ti quero esticar-me,
Esticar-me e dissolver-me,
Morte, aspiração da minha alma!

Por outro lado, na escolha do coral O Haupt voll Blut und wunden [“Ó cabeça sagrada, agora ferida”], da Paixão segundo São Mateus de Bach, poderíamos ler um Sakamoto devoto, procurando na beleza da piedade e da fé um salvo-conduto para uma morte tranquila e em paz.

No entanto, o caminho do pensamento não estaria completo se não houvesse espaço para ler também uma celebração da vida e da vida dos sons. O único exemplo de música japonesa na playlist é uma composição de Toru Takemitsu. Honestamente, esperaria encontrar aqui o seu intenso e extraordinário Requiem para orquestra de cordas, mas a escolha de Sakamoto vai para uma partitura decididamente menos lírica. Trata-se do momento mais espartano de toda a playlist e que vem com maior dureza para o ouvido. A obra é The Dorian Horizon e, para mim, só faz sentido se for ouvida com o espanto e sentido de deslumbramento que pode ter alguém que está bem vivo e atento ao mundo à sua volta. Só assim é que estes sons, aparentemente estranhos e em conflito entre si mesmos, podem fazer sentido a conviver com tanta música onde reinam outros factores de beleza.

Não pretendo com este texto analisar as músicas uma a uma, nem sequer fazer uma exegese definitiva da playlist. Queria apenas chamar a atenção para a sua existência, pois suspeito que os meus leitores encontrarão nela muita beleza que podiam conhecer ou desconhecer. A playlist é tocante, original e especial. E conclui-se, de certa forma fechando o círculo, com uma peça intitulada Breath, da norte-americana Laurel Halo, cuja linguagem estética é bastante parecida com a música que abre a lista. Vamos de novo rumo ao nada, ao minimalismo total, da música lenta e vazia. O som é sintetizado, o que anula toda e qualquer réstia de impressão digital humana, e de novo aqui estamos, a fazer esta estranha viagem rumo a paragens incertas. É como se estivéssemos imóveis, afinal de contas, tendo toda esta música que ouvimos entretanto sido não mais que um sonho.

A escolha de abrir e fechar a playlist com estas duas músicas não pode ser um acaso. Há claramente uma ideia de viagem. Quais os seus significados, isso cabe a cada qual decidir.

Martim Sousa Tavares desenvolve uma atividade múltipla em prol da música clássica e da cultura. Dirige orquestras, é autor de programas na televisão, na rádio e em podcast, escreve música e sobre a música e realiza conferências [ver o perfil completo].

 

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