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Deportações, uma crise humanitária e um quebra-cabeças económico. Quinta paragem: El Paso, o epicentro do problema da imigração

15 out. 2024, 20:35
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Até à Casa Branca

terça, 15 out. 2024
Fotografia de Cátia Bruno
Cátia Bruno
Editora de Internacional
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Deportações, uma crise humanitária e um quebra-cabeças económico. Quinta paragem: El Paso, o epicentro do problema da imigração

A Estátua da Liberdade é um dos símbolos mais icónicos dos Estados Unidos da América, para sempre ligado à chegada de imigrantes ao país. Desde 1982, a Ilha Ellis foi o lugar de chegada de mais de 12 milhões de estrangeiros que procuravam “o sonho americano”. Mas é um engano achar que sempre foi fácil emigrar para os EUA. Como nota a revista Time, no ano em que houve mais chegadas a Nova Iorque, 1907, um em cada dez dos imigrantes que ali chegaram passaram dias, semanas ou até meses no centro de detenção. A PBS diz que, ao longo da História, 20% de todos os que ali chegaram estiveram temporariamente detidos: metade por razões de saúde (eram muitas vezes sujeitos a quarentena por suspeita de várias doenças), a outra metade por questões legais.

Um século depois, há outro movimento de migração em massa em direção aos EUA. Mas, desta vez, não tem como destino a Ilha Ellis, mas sim a fronteira sul do país. A maioria são latino-americanos — uns fogem da fome, outros procuram proteção de situações de violência de gangues, muitos sonham com o tal “sonho americano”. Mas, perante o elevado número de chegadas ao longo dos últimos anos, a política norte-americana tem-se transformado para barrar a entrada em massa de imigrantes. Até porque, como assinala o Pew Research Center, 60% dos norte-americanos veem na imigração uma suas principais preocupações. Para os eleitores de Donald Trump, é mesmo o segundo tema mais relevante, apenas batido pela economia.

Por ser um tema incontornável nesta eleição, a quinta paragem da viagem do Observador pela Route 66 é a cidade de El Paso, no Texas, um dos principais pontos de entrada de muitos migrantes no país. Em 2023, o presidente da Câmara da cidade, Oscar Leeser, deixou um apelo desesperado: “A cidade de El Paso tem recursos limitados e chegámos a um ponto de rutura”, disse, numa altura em que, em média, duas mil pessoas faziam pedidos de asilo por dia em El Paso.

Leeser — um imigrante que nasceu no México e chegou aos EUA em criança, sem saber uma palavra de inglês — é democrata e tem-se desdobrado em apelos aos vários governos para que haja uma reforma na questão da imigração. “Pedimos ajuda há muitos anos”, lamentou-se em junho deste ano.

O autarca alerta para o problema de escassez de recursos em El Paso para lidar com um fluxo de gente tão grande, mas não concorda com as medidas restritivas que o estado do Texas tem tentado impor para lidar com a situação. Para Leeser, a situação terá de se resolver com uma reforma nacional que incluía ajuda das Nações Unidas e de outros países.

Outros, como o governador republicano Greg Abbott, defendem medidas diferentes. O congresso do Texas, por exemplo, aprovou a lei conhecida como SB4, que prevê que o estado possa assumir competências federais, nomeadamente a de criminalizar a travessia ilegal da fronteira. A proposta tem andado na Justiça, de recurso em recurso; em março, o Supremo Tribunal deu-lhe luz verde, mas pouco depois outro tribunal suspendeu-a, pedindo mais detalhes às autoridades.

El Paso e o estado do Texas são o símbolo de um debate nacional do tema, que tem dominado a campanha presidencial. De um lado, Donald Trump fala num situação de catástrofe, culpa Kamala Harris (apelidando-a de “czar da fronteira”, uma responsabilidade que oficialmente nunca teve) e quer resolver a situação com deportações em massa. Do outro, a adversária democrata defende a proposta de lei bipartidária que foi chumbada no Congresso pelos republicanos mais próximos de Trump. É uma proposta muito mais securitária do que o Partido Democrata tem defendido nos últimos anos, aumentando o número de agentes na fronteira e dando autorização para fechar a fronteira caso o número de entradas diárias chegue às quatro mil numa semana.

É uma clara mudança de política dos democratas perante as preocupações dos eleitores — e que não começou com Harris. Em junho, o Presidente Joe Biden assinou uma ordem executiva que suspende automaticamente todos pedidos de asilo no país quando o número de entradas diárias ultrapassa os 2.500.

Trump — para quem a imigração é uma das principais bandeiras da sua campanha — considera que não é suficiente. Em vez disso, para além do programa de deportação, já anunciou que defende um sistema semelhante ao que o estado do Texas pretende com a SB4, criminalizando efetivamente a imigração ilegal (ou seja, os imigrantes apanhados não seriam apenas deportados, como acontece agora, mas poderiam ser condenados e obrigados a cumprir pena nos EUA).

Não é claro se estas propostas resolverão o problema e podem ter até consequências imprevisíveis. Afinal, a imigração (mesmo a ilegal) é um dos grandes motores da economia norte-americana, em particular nos estados do sul como o Texas. A mão-de-obra barata que os imigrantes representam é altamente procurada por empresas de construção civil, por exemplo, como nota um artigo da Texas Monthly que aponta como 74% das empresas desta área naquele estado têm dificuldade em preencher todas as suas vagas de emprego. Foi graças a muitos imigrantes ilegais, nota a revista, que foi possível construir infraestruturas petrolíferas, casas e “reconstruir Houston depois do Furacão Harvey”. Mas muitos eleitores, sobretudo noutros estados do país onde a economia não está em tão bom estado como o Texas, sentem que estão a competir por salários baixos e rendas elevadas com imigrantes ilegais.

Há ainda a questão humanitária. Para além dos pedidos de asilo estarem consagrados no Direito Internacional Humanitário que os EUA subscrevem, são muitos os migrantes que morrem a tentar atravessar a fronteira, numa zona de deserto onde as temperaturas estão muitas vezes acima dos 30 graus. Segundo os dados da polícia fronteiriça, só no setor da fronteira de El Paso, o número de pessoas resgatadas de situações de risco subiu de 17 em 2018 para 597 em 2023; mas o número de mortes, destaca o El Paso Times, também disparou de seis para 149, nas mesmas datas.

Independentemente destas variáveis, o problema veio para ficar e os políticos norte-americanos têm de o enfrentar. É certo que o número de travessias tem estado a descer ao longo deste ano — em parte porque o México tem reforçado a sua política de impedir a passagem de migrantes, em parte pela política de Biden de limitação dos pedidos de asilo. De acordo com a WOLA, uma organização de defesa dos direitos humanos no continente americano, o número de chegadas registadas pela polícia fronteiriça norte-americano desceu 52% entre maio e julho deste ano.

Mas as estatísticas mostram que a tendência de aumento dos que procuram o “sonho americano” através do sul da fronteira é real. Entre 2007 e 2019, o número de imigrantes ilegais nos Estados Unidos reduziu-se, mas, ao longo dos últimos anos, voltou a aumentar consistentemente. Como exemplo, o Pew Research explica que em 2021 existiam 10,5 milhões de imigrantes ilegais no país; no ano seguinte já seriam 11 milhões.

Perante uma América do Sul e Central onde a instabilidade, violência e falta de oportunidades económicas continuam a crescer, o mais certo é que milhares continuem a fazer o caminho para norte, como outros tantos fizeram em tempos para a Ilha Ellis. “A redução atual é um fenómeno de curto-prazo”, avisa a WOLA. “O mais provável é que se inverta nos próximos meses, já que as condições e as causas de raiz para a migração mantêm-se as mesmas.”

O que aconteceu esta semana?

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O antigo Presidente Barack Obama participou num comício democrata no estado-chave da Pensilvânia e aproveitou para atacar Donald Trump. A retórica foi a de retratar o adversário como tendo uma vida distante da dos americanos comuns: “Acham que alguma vez Donald Trump mudou uma fralda?”, perguntou à audiência.

Obama também ridicularizou os comícios do republicano, comparando-o a Fidel Castro pelos longos discursos e descrevendo-o como um vendedor de “sapatilhas douradas, relógios de 100 mil dólares e, mais recentemente, uma Bíblia”. “Ninguém conseguia inventar isso”, rematou.

  • Homem detido nos arredores de comício de Trump

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As autoridades locais detiveram-no por suspeitas de que poderia estar a preparar mais um atentado ao candidato republicano, sustentado pelo facto de que Miller pertenceria a uma organização radical anti-governo de direita. O homem nega todas as acusações, afirmando-se como um apoiante de Trump que ia participar normalmente no evento. Diz que as credenciais são verdadeiras e que as armas estão legalizadas. Saiu em liberdade depois de pagar fiança.

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o que se escreve lá fora

The parties' coalitions are changing right before Election Day
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Swing states scramble to keep elections on track in hurricanes’ wake
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Behind the Curtain — Election scenario 2: Harris sweep
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The Trump Voters Who Don’t Believe Trump
The New York Times
In a Michigan city, Harris has failed to catch fire with Black men
The Washington Post
How Trump allies stoked election chaos in Detroit in 2020 — and now
NBC News
Kamala Harris’s Hundred-Day Campaign
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The Rise of the MAGA VC
The Atlantic
The Social-Media Influencers Reshaping How Young Americans Get Political News
The Wall Street Journal

agenda para a semana

15 de outubro

Donald Trump em evento em Atlanta, Georgia
Evento de Trump com senadores Markwayne Mullin e Tulsi Gabbard em Carson City, Nevada
Harris em evento com eleitores com radialista Charlamagne Tha God
Evento de campanha de Kamala Harris em Detroit, Michigan

16 de outubro

Entrevista de Kamala Harris à Fox News
Trump em encontros com eleitores organizados pela Fox News e pela Univision
Comícios com JD Vance em Williamsport, Pensilvânia e Wilmington, Carolina do Norte

17 de outubro

Kamala Harris visita várias cidades no Wisconsin: Milwaukee, La Crosse e Green Bay
Evento com Trump e o governador Jim Justice (mais a sua cadela Babydog) em Waynesburg, Pensilvânia
Evento com JD Vance em Pittsburgh, Pensilvânia

18 de outubro

Comício de Trump em Detroit, Michigan
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19 de outubro

Comício com Donald Trump em Latrobe, Pensilvânia
Kamala Harris em comício em Detroit, Michigan
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