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Começa agora o novo episódio do "América Dividida", sempre com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis, a partir dos Estados Unidos. Bem-vindo, Bruno. Bom dia aqui, boa noite aí.

Olá, bom dia, sim, e boa noite aqui.

Começamos pela democrata Kamala Harris. Bruno, será boa ideia ter aceitado ser entrevistada pela Fox News?

Eu acho que é boa ideia. Ou seja, acho que é muito importante para ela continuar com esta narrativa, que não tem receio de entrevistas, não tem receio de responder a perguntas mais difíceis. Sabemos que a Fox News é um canal de notícias mais à direita, mais conservador, se quisermos, mas tem bons jornalistas. Aqui temos já, no fundo, alternativas bastante mais radicais e politizadas do que a Fox News e, portanto, acho que desse ponto de vista é uma boa aposta. Ela tem alguns problemas de mobilização de eleitorado, quer conquistar alguns republicanos moderados, quer melhorar os seus números, por exemplo, entre os homens e, portanto, tudo isso são alguns dos ouvintes, digamos, da audiência habitual da Fox News. E tem essa vantagem também de permitir mais ataques a Donald Trump, que se tem recusado a fazer entrevistas fora dessa zona de conforto. À Fox News fala, mas até significativamente criticou a Fox News por se atrever a fazer uma entrevista à Kamala Harris. Também diz muito sobre que há alguns princípios básicos de neutralidade, aos quais claramente o Donald Trump não é nada sensível. Nomeadamente respeitar a independência da imprensa e dar a possibilidade aos opositores também de serem ouvidos e de exporem as suas ideias.

Ainda sobre a Fox News, o que dizes sobre as declarações lá States de Trump, de que o problema maior não são os imigrantes, mas "the enemy from within", os radicais que diz que devem ser alvo da guarda nacional ou até mesmo dos militares?

Eu acho que é muito difícil, tendo em conta as declarações praticamente diárias de Donald Trump, negar este facto, que é: Donald Trump realmente não tem a mínima cultura democrática. A questão aqui não é de ser de direita ou ser de esquerda. Há muita gente de direita altamente respeitável nos Estados Unidos e com profundos princípios democráticos. Muitos deles, aliás, opõem-se abertamente ao Donald Trump, mesmo que não votem em Kamala Harris, dizem que não votarão nele, ou alguns até já apelaram ao voto em Kamala Harris, e falámos de alguns desses casos. Mas realmente, como é que é possível dizer algo desse género? Quer dizer que a forma de lidar com a esquerda, mesmo que seja radical, quer dizer, se há uma divergência ideológica ou de ideias, resolve-se pelo debate. Claro que é desnecessário dizer que se alguém fizer atividades ilegais, que não têm a ver com isso, então aí haverá outro tipo de resposta. Mas além do mais, e para mim, que trabalho muito essas questões das relações civis-militares, do papel dos militares, enfim, quer em guerra, quer em paz e no contexto também de um regime democrático, inclusive da consolidação da nossa democracia em Portugal, foi fundamental o fim de uma semi-tutela militar que se manteve para além do período revolucionário. Ora, esta ideia de que se vai chamar a tropa, chamar os militares para lidar com o problema de segurança interna, mesmo que haja desordem, violência interna, etc., à partida será a polícia, seja a federal, seja a estadual, que lida com essas questões. Não se chama o exército, muito menos assim como a primeira opção, ou mesmo, no fundo, a guarda nacional, que no fundo são forças de segunda linha dos militares, que estão dependentes dos governos estaduais, mas que são forças militares. Portanto, tudo isso realmente mostra que o Donald Trump não sabe, nem quer saber dessas regras básicas que se respeitariam na democracia. E já agora, e só para terminar, um dos exemplos que ele dá desses terríveis radicais de esquerda, e há realmente gente muito radicalizada aqui à esquerda, que assume posições completamente inaceitáveis e que inclusive, nalguns casos, deu a entender que apoiava o uso da violência, etc. Mas é o congressista Adam Schiff, que é um moderado, é um centrista no contexto do Partido Democrático. Obviamente está à esquerda do Partido Republicano, mas se isso é o exemplo da esquerda radical, então está tudo dito sobre o grau de tolerância de Donald Trump em relação a posições divergentes. E volto a dizer, alguém que ainda por cima era um parlamentar, portanto, mais uma vez, em qualquer regime democrático, tem até uma especial imunidade para poder defender as posições que entender.

Voltando à Kamala Harris, Bruno, parece haver controvérsia em torno do discurso em 2021 sobre o feriado desta segunda-feira nos Estados Unidos, o Columbus Day. O que se passa?

Sim, Fox News pegou nesse aspecto, com toda a legitimidade, foi buscar declarações antigas da candidata, mas não são assim tão antigas, não são de há 30 anos, são de há três ou quatro anos. E realmente, a Kamala Harris está em linha com este discurso, às vezes muito esquerdista, e também com uma visão da história, que é um regresso ao passado, que é uma visão completamente anacrônica de bons e maus, portanto há os bons. Em tempos, o Colombo era o bom, era um herói, e portanto escondia-se tudo o que ele tinha feito de censurável, mesmo na época, muita gente criticou Colombo por escravizar os nativos americanos que ele encontrou nas ilhas das Caraíbas. Criticou Colombo por ser um mau navegador, aliás, a começar pelos portugueses, que sabiam que aqueles cálculos que ele tinha feito para supostamente chegar à Índia estavam muito longe da realidade, ou seja, ele subestimou enormemente a distância por via marítima, navegando para ocidente entre a Europa e a Índia. Mas agora passa-se para o outro extremo e basicamente a única coisa que há a dizer sobre os europeus, sobre os navegadores, é realmente os crimes que cometeram e é muito esse o discurso de Kamala Harris, acusando inclusive os europeus de espalharem doenças. Atualmente nós não podemos falar da China como tendo alguma culpa na Covid-19, porque isso é racismo, mas aparentemente os europeus espalharem vírus que nem sequer conheciam, porque obviamente a ciência médica na altura era completamente incipiente Isso já é um crime. É realmente um discurso muito previsível, muito à esquerda, se quisermos, nesta visão de uma história muito maniqueísta. Mas isto também é um exemplo da extrema polarização, de como mesmo feriados que foram criados, este Columbus Day foi muito criado até para integrar a comunidade, sobretudo italo-americana. A primeira celebração deste Dia de Colombo foi na sequência de um linchamento, que também existiram em relação a católicos, irlandeses, italianos, um linchamento de vários italianos em 1892, foram mortos por serem italianos. Começou a ser celebrado a partir dessa altura, depois no período do New Deal com o Roosevelt, que é um presidente até de esquerda, diga-se, é estabelecido como feriado federal, mais uma vez nessa linha de integração das diferentes comunidades. E depois actualmente em muitos estados e, por exemplo, aqui na capital, passou a ser celebrado como o Dia dos Povos Indígenas. Eu diria, bem, pode celebrar tudo isso. O contributo dos europeus, o contributo dos indígenas, sem cair numa visão completamente maniqueísta da história e também sem cair numa visão que não tenha em conta os crimes, as violências, os conflitos que existiam antes da chegada dos europeus, que existiram com a chegada dos europeus e que infelizmente alguns continuam até hoje.

Entretanto, Trump respondeu às críticas sobre a promessa de tarifas de 200%, dizendo que até podem ser de 500%, e tudo para proteger os carros americanos. Bruno, isto é exequível?

Há muitos economistas que acham que não, e mais uma vez não são propriamente marxistas ou comunistas. Muitos economistas mainstream, o próprio jornal da direita, de referência e muito voltado também para as questões económicas, o Wall Street Journal, têm publicado artigos, alguns a tentar defender essas ideias, mas muitos a atacar isso, a dizer que essa estratégia de tarifas levaria a um desastre económico, criaria uma inflação completamente descontrolada no curto prazo, levaria obviamente à retaliação por parte dos países atingidos, a começar por aliados dos Estados Unidos, como a própria Europa, que não iam simplesmente aceitar que os seus produtos passassem a pagar 200% sem fazer nada. E realmente, em termos dos economistas, isto é uma visão, aliás, muito estatista, que tem muito pouco a ver com as tradições de mercado livre, defesa do mercado livre dos republicanos. Não quer dizer que algumas questões em torno das tarifas não se coloquem, por exemplo, que têm a ver com as práticas da China, muito questionáveis, de limitar, na prática, o acesso ao seu mercado e depois utilizar às vezes dumping, portanto, os preços tradicionalmente baixos para conquistar mercado fora, com subsídios estatais também ocultos ou visíveis, etc. Mas a generalidade dos economistas têm grandes reservas em relação a isto. Agora, a minha questão é: para o eleitorado, isto se calhar funciona.

Pois, exatamente.

E é isso que interessa ao Donald Trump. As fábricas estão a fechar, em muitos casos tem a ver com tornarem-se obsoletas por processo até de modernização, ou seja, de introdução de nova maquinaria, robótica, etc., que dispensa muitos trabalhadores para tornar precisamente as fábricas viáveis economicamente. Mas isso é muito fácil, é muito mais fácil culpar o estrangeiro e a globalização, que alguma culpa terá neste processo. As empresas procurarem mercados onde o trabalho é muito mais barato, e às vezes com más condições, mas a verdade é que também para Trump isto funciona realmente como base da sua narrativa populista. Trump, para problemas muito complicados e de solução muitas vezes difícil, a solução dele é muito simples. Nós não conseguimos vender automóveis americanos, está a haver desemprego na indústria americana, vamos simplesmente fechar as fronteiras e obrigar os americanos a comprar americano. E para muita gente, sobretudo em situação mais desesperada, isso se calhar parece bastante eficaz, mesmo que, de acordo com a maior parte dos especialistas, possa ter efeitos contraproducentes terríveis, até para essas próprias pessoas, inclusive para a própria indústria americana, que também é altamente exportadora e mais uma vez não deixará de haver retaliação em relação a carros americanos que também são exportados para outros destinos, por exemplo. Mas realmente, a base de Trump é muito esta ideia, uma narrativa populista e dar soluções muito simples para problemas complexos.

Bruno, a puxar a nossa curiosidade, por que há já largos anos que os republicanos são representados por elefantes e os democratas por burros? Qual é a história por trás disso?

É realmente uma história antiga em relação aos democratas, que são o partido mais antigo, e ao burro. Essa associação começa com o fundador do Partido Democrático, que é um populista, aliás, começa por ser um populista, o general Andrew Jackson, que perde as eleições no colégio eleitoral, ganhando-as no voto popular em 1824 e depois vai ganhar as eleições de 1828, e que era muitas vezes acusado, numa propaganda também muito violenta, de jackass, ou seja, de ser um burro, alguém que era um rapaz do interior do Oeste, das zonas mais rurais, portanto não tinha a sofisticação intelectual das elites do Oeste. Essas polarizações e esses conflitos já existiam nessa altura e ele, de forma muito inteligente, no fundo inverteu isso e adotou precisamente esse apelido e esse símbolo. Obviamente tentando valorizar os aspetos inteligentes e as virtudes dos burros. Mas é um bom exemplo de como, com habilidade, se pode inverter algo que é um ataque, depois num mecanismo de contra-ataque, se quisermos. Os burros já vêm dessa altura, os elefantes começam a ser associados ao Partido Republicano durante a Guerra Civil. O Partido Republicano só surge em 1854 e o seu primeiro presidente é Abraham Lincoln, portanto é muito associado à Guerra Civil, ao Norte na Guerra Civil, e enfrentar um elefante era uma expressão que os soldados utilizavam para dizer entrar em combate, e isso começa a ser usado pelo partido, no fundo, que defendia essa guerra, que defendia essa dimensão de defesa pelas armas da União. Mas o que é curioso é que basicamente os dois símbolos começam a ser sobretudo popularizados pelos cartoons e pelos cartunistas políticos na imprensa. É sobretudo Thomas Nast, nos anos 70, 80 do século XIX. Ele é também creditado com criar a imagem atual do Pai Natal, antes ainda da Coca-Cola depois pegar nela e lhe dar um grande impacto global, mas era realmente um cartunista extremamente talentoso, num período também de formação dessa expressão artística e política, vamos dizer assim, na imprensa americana, e vai ser ele que vai usar muitas vezes esses símbolos para representar o Partido Republicano ou o Partido Democrático, e desde aí que isso ficou consagrado e é aceite pelos partidos como símbolo oficioso, quer de um, quer de outro.

Bruno Carlos Reis, é sempre um gosto ouvir-te. Muito obrigada pela análise. Um bom descanso. Até amanhã, Bruno.

Até amanhã.

Muito obrigada. Até amanhã.