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Amamentar o seu filho não fará dele um génio

08 out. 2022, 10:03
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Fotografia de Sónia Morais Santos
Sónia Morais Santos

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Amamentar não evita que o seu filho se torne um marginal

Não há nada que me mexa mais com os nervos do que fundamentalismos. Sejam eles quais forem. Sempre que um tema começa a ficar com um carácter demasiado “obrigatório”, sempre que um caminho principia a parecer o único que é válido, ou o único que é certo, ou o único tout-court, há uma comichãozinha que se instala no meu nariz (não me perguntem porquê, mas tudo o que me irrita comunica diretamente com as minhas fossas nasais).

Ora, nem é preciso ser mãe ou estar em vias de ser para se saber que o tema “amamentação” é vendido como o caminho da luz, o caminho do bem, o caminho das mães que vão para o céu por oposição às mães que optam pelo leite de fórmula (leite artificial) e que não passam de umas cabras egoístas, que obviamente não nasceram para a maternidade, e que se espera que morram no inferno das mães desnaturadas (e desnatadas, já agora).

Estou naturalmente a exagerar (estou?), mas para muitas mulheres a coisa é mesmo posta desta forma, e das três uma: ou percebem onde está o equilíbrio e decidem em função dos vários fatores que se lhes hão-de colocar, sem dramas; ou seguem a ordem que lhes é dada, têm sorte e corre tudo bem (e talvez venham a ser elas as próximas fundamentalistas do pedaço); ou então corre tudo mal, a culpa vai esmagá-las, e vão acabar a dar biberões lavadas em lágrimas, e a sentirem-se um lixo.

É este o perigo de tudo o que é extremado. Por muito que seja verdade que o leite materno é – em condições perfeitas – o melhor para um bebé, não é menos verdade que é preferível ter uma mãe com a cabeça equilibrada, do que uma mulher à beira de uma depressão, para quem amamentar é um suplício a que se sujeita tantas vezes por dia, só porque lhe meteram na cabeça que, de outro modo, o bebé vai ser altamente prejudicado. Menos, gente. Menos.

É claro que depois há estudos que tramam isto tudo, como este feito no Brasil, que acompanhou de perto seis mil bebés, desde o parto até terem cerca de 30 anos, e que concluiu que os que haviam sido amamentados tinham um QI mais elevado e vidas mais bem sucedidas do que os alimentados a suplemento. E recomendações da Organização Mundial de Saúde. Oh, diabo. Querem ver que tenho de mudar o título e a entrada e o texto todo? Bom, para já, mal termine de escrever este texto vou aproveitar para perguntar à minha mãe quanto tempo mamei, afinal de contas. A vida não me corre mal, mas, calhando, mais uns meses de mama e sabe-se lá onde podia estar hoje.

Brincadeiras à parte, e agora que apresentei o contraditório, continuo a crer que não há pior do que o fundamentalismo. Mesmo que possa aumentar o QI dos putos, se as mães ficarem chalupas no processo, é possível que o desfecho não seja brilhante. Talvez a inteligência e o sucesso não sejam tudo. Ou talvez esses tenham sido os casos em que correu tudo espetacularmente bem. Mas nem todos são assim.

Há uns anos fiz uma reportagem que apresentava casos gritantes. Mães que amamentaram em condições arrepiantes, com mamilos em sangue, dores excruciantes, a morderem toalhas, só porque lhes era intolerável (tal foi a lavagem cerebral) não serem a única fonte de sustento dos seus filhos. Mães com depressões severas por não terem leite (como se isso, no conjunto de tudo o que vão ter de fazer ao longo da sua vida parental, fosse sequer um tema), mães a sentirem-se em défice, em falha, com culpa, como se não fossem mais do que um produto lácteo ao dispor.  Sem rótulo, porém, rotuladas por uma sociedade implacável.

Uma dessas mães, que entrevistei, contava-me que soube desde sempre que seria incapaz de amamentar. Para ela, aquela era uma zona exclusivamente erógena, que não queria, de todo, confundir com o seu filho. Até lhe parecia obsceno, só para que se entenda como, para algumas pessoas, as coisas podem não ser tão lineares assim. Quando o bebé nasceu, pediu o comprimido para secar o leite à enfermeira, e foi olhada como uma criminosa. Antes do comprimido, veio a enfermeira-chefe, tentar meter-lhe juízo na cabeça. Ela manteve-se firme na decisão, apesar de ter escutado comentários como “Dá Deus nozes a quem não tem dentes” ou “Sabe que está a privar o seu filho de algo que é muito benéfico para ele?”, fazendo-a sentir que começava a aventura da maternidade com o pé esquerdo.

Se isto não é de doidos, então não sei. Porque, como em tudo, há casos e casos e, principalmente, não estamos a dar a escolher entre amamentar ou deixar uma criança morrer à fome (que é o caso em muitos países subdesenvolvidos). Estamos apenas a dar a possibilidade de alimentar um bebé com leite adaptado, sem dramas, a quem não consiga ou não queira amamentar, seja lá por que razão for. Claro que se pode tentar perceber as razões, tentar explicar os benefícios a quem não esteja ainda ciente deles. Mas, se ainda assim, a decisão se mantiver, era urgente que se aceitasse sem julgamentos. E sobretudo sem bocas foleiras, que só contribuem para uma culpa que não contribui seguramente para uma maternidade saudável.

Quando tive o meu primeiro filho, correu tudo ao contrário do que tinha previsto. Tinha sonhado com um parto natural (dos fáceis, claro está), e acabei de braços abertos e amarrados, barriga aberta em c de cesariana, a ver o meu bebé por breves instantes e, depois, a ficar cinco longuíssimas horas longe dele, tudo porque cometi o crime de vomitar depois da anestesia. Nesse tempo em que o bebé esteve no berçário deram-lhe biberão com leite adaptado, o que acabou a revelar-se um desastre no nosso processo de conhecimento mútuo. De cada vez que tentava amamentar, ele não fazia ideia do que fazer com aquilo, eu transpirava, vinham as enfermeiras espremer a mama, a ver se ele percebia, ele berrava a plenos pulmões, e andámos nisto durante todo o tempo em que estivemos no hospital.

Felizmente, antes de irmos para casa, aproximou-se de mim uma enfermeira enorme, chamada Capitolina, que me disse assim: “Vai chegar a casa, vai desligar o telefone, a campainha, vai despir-se, pôr-se à vontade e, quando ele tiver fome, vai tentar dar de mamar. Pega-lhe como quiser, de pernas para o ar até, que ninguém tem nada com isso. Tenta. Se ele não conseguir, dá suplemento. Na vez seguinte, tenta de novo. E faz isto umas três ou quatro vezes. Se não conseguir, desiste. Mas desiste tranquilamente. Sem qualquer culpa. Prefiro mil vezes uma mãe sã da cabeça e a dar biberões, do que uma mãe completamente descompensada, mas a amamentar. Ficou claro?” Claríssimo. Cristalino. Correu bem. O Manel mamou até aos seis meses, quando regressei ao trabalho, o Martim também (com duas mastites pelo meio). A Madalena e o Mateus mamaram até mais tarde, porque já era freelancer e pude estender a coisa até depois de um ano.

Vamos lá ver uma coisa: amamentar é difícil. Pode não ser, para algumas afortunadas, mas não são assim tantas as que veem unicórnios e arco-íris enquanto alimentam as suas crias. Há as que sofrem porque têm dores. As que acham o momento uma seca sem fim. As que se angustiam porque não sabem quanto é que o bebé mamou e se será suficiente. Há as que acham sempre que não foi suficiente, sobretudo quando vem uma sogra (pobres sogras, sempre os bodes expiatórios) ou uma vizinha dizer: “O teu leite deve ser fraco, que o bebé está muito magrinho!”. E depois há as que ganham mastites com frequência, que ficam com febre e caroços no peito, as que têm leite a mais e que não dão vazão, a menos que comecem a vender para fora.

A quantidade de dificuldades em redor deste tema é infinda. Não é por acaso que se fala tanto deste assunto. Ainda ontem, a Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade NOVA de Lisboa, em colaboração com a Faculdade de Nutrição da Universidade Fluminense do Brasil, comemorou a Semana Mundial do Aleitamento Materno 2022, com um encontro Portugal-Brasil, que contou com a participação da SOS Amamentação (Portugal) e o Grupo Mulheres Apoiando Mulheres na Amamentação (Brasil). O Objetivo do evento (que foi gravado e que podem ver aqui) foi, justamente, mobilizar ajuda voluntária entre pares, enquadrada técnica e cientificamente pela academia, por forma a assegurar que cada vez mais mães e famílias têm um apoio próximo e oportuno.

Amamentar é um ato animal, mas nós – seres humanos – estamos cada vez mais esquecidos do animal que há em nós (isto agora soou estranho). E, no que diz respeito à amamentação, se lhe juntarmos a componente “obrigatória”, fica ainda mais difícil. Também não é por acaso que existe uma Associação Portuguesa dos Consultores de Lactação. É porque isto não é pera doce. Por isso, quem desiste tem de saber que não está só e que não é nenhum drama.

Os bebés crescem na mesma, por vezes mais rijos do que bebés que são amamentados (o argumento de que os amamentados são mais saudáveis sempre me fez rir: o meu segundo filho foi internado aos dois meses com uma bronquiolite, e depois disso passou a vida no hospital com infeções respiratórias de repetição, apesar de mamar, em exclusivo e sem sequer se aproximar de suplementos, até aos seis meses). Não vão deixar de ser espertos, nem sociáveis, nem boas pessoas se beberem leite criado em laboratório.

Para quem está agora a começar a aventura da maternidade, fica o alerta: este é apenas um dos muitos temas sobre os quais há mais especialistas por metro quadrado do que baratas em Lisboa. É sorrir e acenar. Em todos os casos, mesmo que sejam pessoas que saibam muito, nunca saberão exatamente como se sente a pessoa que aconselham. Simplesmente porque não estão, nunca estiveram, nem nunca estarão nas mesmíssimas coordenadas físicas, psicológicas e emocionais do que ela.

Vale a pena…

Visitar a exposição Impressive Monet & Brilliant Klimt, no Porto

Impressive Monet é uma reinterpretação das obras de arte de um dos impulsionadores do Impressionismo – o público será imerso pelo movimento  do artista e envolto pelas linhas e cores do mundo de Monet. Brilliant Klimt traça o percurso biográfico e artístico do artista, a partir da sua pintura icónica, O Beijo.

Assistir à peça O Diário de Anne Frank, no Teatro da Trindade, em Lisboa

Imaginem-se escondidos num sótão. Imóveis. Silenciosos. Durante dois anos. Privados da vossa liberdade porque lá fora reina a morte. Anne Frank tinha apenas 13 anos quando foi lançada a este cruel desafio, juntamente com os pais, irmã, um casal amigo com um filho e um homem. Destas oito pessoas, sobreviveu apenas uma, Otto Frank, pai de Anne, que mais tarde decidiu dar a conhecer ao mundo o diário da sua filha, morta num campo de concentração com apenas 15 anos. Se tiver uma criança pequena, não será recomendável, mas um pré-adolescente mais madurinho estará em boa altura de conhecer a peça, sobretudo se já tiver lido o livro.
Teatro da Trindade INATEL
Rua Nova da Trindade, 9, Lisboa
Tel.: 213 423 200
teatro.trindade@inatel.pt

Fazer uma visita diferente ao Oceanário de Lisboa

O livro Escanifoquê?, de André Letria e Ricardo Henriques, serve de pretexto para esta visita ao Oceanário de Lisboa, que envolve ovos e bicadas, dentes de tubarão e conta com a participação especial da mascote Vasco. É necessário agendar a visita com três dias de antecedência por telefone (218917000) ou por email (reservas@oceanario.pt).

 

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Sónia Morais Santos é autora do blogue “Cocó na Fralda“. Ex-jornalista, tem quatro filhos e dois cães, já passou por vários jornais e revistas em Portugal e publicou quatro livros [ver o perfil completo].

 

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