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Depois de um recorde de temperatura que só durou um dia, que impacto tem o calor no nosso corpo?

14 ago. 2024, 20:55
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quarta, 14 ago. 2024
Fotografia de João Francisco Gomes
João Francisco Gomes
Jornalista
Foto da Newsletter

Foi um máximo histórico, mas só durou 24 horas.

O dia 21 de julho deste ano, domingo, foi classificado como o dia mais quente alguma vez registado na história humana. Com uma temperatura média a nível global de 17,09ºC, aquele domingo superou por uma ligeira margem os máximos históricos, que tinham sido registados no início de julho de 2023.

Um dia depois, o recorde já tinha caído. Afinal, a segunda-feira seguinte, 22 de julho, é que foi o dia mais quente alguma vez registado na história humana: a temperatura média do planeta nas 24 horas daquele dia foi de 17,15ºC.

O mês de julho foi apenas o mais recente numa sequência ininterrupta de recordes que se arrasta há 13 meses consecutivos: desde junho de 2023 que todos os meses têm sido, sem exceção, os mais quentes alguma vez registados.

Feitas as contas, os quatro dias mais quentes registados na história foram todos naquela quarta semana de julho — uma semana de picos de temperaturas elevadíssimas que coroou várias semanas em que a temperatura da Terra esteve sempre pelo menos 1.5ºC acima dos níveis pré-industriais. Ou seja, durante algumas semanas foi possível testemunhar aquilo que, no futuro, poderão ser as condições permanentes no planeta. Por tudo isto, 2024 está a encaminhar-se para ser o ano mais quente de que há registos.

O impacto desta onda de calor foi visível em vários pontos do planeta, especialmente devido aos incêndios florestais. Em Portugal, vários incêndios deflagraram em diferentes locais do país nas últimas semanas — e um fogo em Alcabideche, concelho de Cascais, chegou mesmo a deixar 14 pessoas feridas. A situação mais grave nos últimos dias tem-se registado em Atenas, na Grécia, onde dois grandes incêndios já fizeram pelo menos um morto e já obrigaram à evacuação de dezenas de localidades. Na Califórnia, outro local problemático a nível mundial no que toca aos incêndios, um enorme incêndio que no início de agosto já tinha consumido mais de 160 mil hectares é já considerado o quarto maior incêndio da história do estado.

Além dos incêndios, as temperaturas em crescendo estão a ter um impacto direto na vida humana: um estudo recente mostra que, só em 2023, mais de 47 mil pessoas morreram na Europa como consequência das altas temperaturas. Em Portugal, 1432 pessoas perderam a vida devido ao calor no ano passado. A Organização Meteorológica Mundial, por seu turno, já veio garantir que o calor extremo de julho provocou “impactos devastadores” em centenas de milhões de pessoas.

A propósito deste estudo, a jornalista Adriana Alves foi ouvir especialistas para tentar perceber como é que as altas temperaturas impactam realmente o corpo humano, uma máquina surpreendentemente sensível ao calor, capaz de detetar pequenas variações de temperatura — e programada para regular a sua própria temperatura. Apesar disso, e apesar das medidas eficazes que têm sido adotadas nas últimos anos, a ciência deixa um aviso sério: o corpo humano tem limites e o calor impacta fortemente os sistemas cardíaco e respiratório.

Após incêndios, terrenos ardidos continuam a emitir CO2 durante anos

Os incêndios cada vez mais frequentes são uma das mais trágicas consequências do aumento das temperaturas do planeta — mas o impacto dos fogos florestais ultrapassa largamente o curto prazo, de acordo com um estudo recente sobre as emissões de dióxido de carbono com origem nas áreas queimadas.

A conclusão? Depois de um incêndio, uma região queimada pode continuar a emitir dióxido de carbono para a atmosfera durante anos, largando nesse processo mais CO2 do que o emitido durante a propagação das chamas.

As florestas são dos mais importantes reservatórios de carbono do planeta. Capazes de absorver dióxido de carbono e libertar oxigénio, as árvores desempenham um papel crucial na regulação do planeta — e as florestas, especialmente aquelas existentes nas latitudes mais elevadas, têm toneladas de CO2 armazenadas há décadas. A Taiga (ou Floresta Boreal), a grande faixa florestal subártica entre a América do Norte e a Sibéria, é uma das mais relevantes: ao longo de milhares de anos, retirou da atmosfera cerca de um bilião de toneladas de dióxido de carbono, que se encontram armazenadas nos solos e nas árvores.

Um incêndio numa floresta tem um impacto climático evidente: a libertação do dióxido de carbono que estava armazenado nas árvores ardidas. O estudo conduzido por climatologistas da Universidade de Lund conclui, porém, que o impacto climático não ocorre apenas durante o incêndio: após a extinção das chamas, durante vários anos, os terrenos ardidos continuam a libertar dióxido de carbono para a atmosfera.

As investigadoras olharam especialmente para regiões florestais na Suécia, onde os incêndios têm ocorrido com frequência cada vez maior nos últimos anos, e concluíram que um terreno ardido em 2018 continuou a emitir uma média de 650 gramas de dióxido de carbono para a atmosfera por cada metro quadrado, durante os primeiros quatro anos após o incêndio — mais do dobro das emissões de dióxido de carbono durante o fogo.

Através de modelos que simulam o crescimento florestal, as investigadoras concluíram ainda que seriam precisos mais de 40 anos para que todo o dióxido de carbono emitido como consequência daquele incêndio de 2018 fosse novamente capturado por novas florestas. Por isso, recomendam ainda as autoras do estudo, qualquer cálculo do impacto ambiental e climático de um incêndio tem sempre de ter em conta as emissões de longo prazo que resultam do fogo.

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