O autocarro 3721 é uma linha de transporte público da Carris Metropolitana que liga Lisboa a Sesimbra, via A2, passando por localidades do Seixal e Almada.
Habituado a deslocar-me para Lisboa de carro, por diversas contingências, fui forçado a usar o autocarro 3721 da Carris Metropolitana. E, garanto, é uma aventura!
Os acessos às paragens são autênticos circuitos de parkour. O chão não é linear, é um mosaico de buracos, crateras e armadilhas dignas de uma prova internacional dessa modalidade. O objectivo não é andar, é saltar, equilibrar-se e evitar lesões. Considera cada buraco como um valioso obstáculo que testemunha a falta de manutenção dos acessos às paragens. Enquanto praticas parkour, tens de lidar com os carros que parecem ter sido programados para rasar o passeio com uma precisão cirúrgica e quase homicida. Se conseguires chegar à paragem sem tropeçar, ser atropelado ou ter um colapso nervoso, estás pronto para o nível seguinte: a viagem.
Primeira regra, esquece os horários oficiais. Eles são apenas material de leitura de ficção científica. Se passam a horas vêm lotados, se não vêm lotados, não passam a horas…
As máquinas de validação do passe às vezes funcionam, às vezes não funcionam. Mas, a primeira coisa com que te deparas, em quase todos os autocarros, é que as luzes do motor de quase todos eles, estão sempre acesas, como gambiarras de Natal, sim, porque o Natal, para os passageiros do 3721 é todos os dias.
A viagem faz-se como se nos estivessem a tentar cozinhar vivos, por vezes com a sensação de que estamos a ser cozinhados ao vapor, tal é o calor. Em contraponto, noutros autocarros entra chuva…
Curiosos são os olhares cúmplices entre passageiros tão diferentes, como se estivessem a dizer “Nós conseguimos, nós vamos lá chegar!” muitas vezes como resposta ao som de uns auscultadores que estão tão altos que até o mais surdo dos surdos ganha audição.
Nas paragens, descobri um ritual colectivo, o ritual da contagem dos passageiros. Quase como se fosse um jogo de adivinhação! “Vamos lá, ainda tenho 4 lugares…” e alguém lá de trás berra: “temos aqui mais um!”.
E quando estamos na fila do trânsito, fruto de um qualquer acidente ou atraso, a coisa fica interessante! Os passageiros começam, como parlamentares, com os seus apartes: “Ah, mais um dia, mais um atraso!” ou “Eu estou a aprender a meditar, é que estou aqui há horas!”, “mais umas horas e entro na reforma…”
Mas a viagem continua. Para Lisboa, a passagem pela rotunda do Centro Sul é assinalada pelo praguejar entre dentes do motorista e umas quantas buzinadelas, habitualmente em resposta aos carros que tentam utilizar, sem direito, a faixa BUS. Apesar disso, estes motoristas são verdadeiros heróis nestas viagens. São eles que, com sua simpatia e boa vontade, conseguem fazer com que os passageiros cheguem sempre ao destino.
Para que a viagem seja “abençoada” criei para mim os seguintes mandamentos que convosco partilho:
OS 10 Mandamentos do passageirlo do autocarro da Carris Metropolitana 3721
1. Não tropeçarás nas crateras do caminho.
O caminho para a paragem é um nível de parkour. Saltarás os buracos com destreza arqueológica e evitarás ser rasado pelos espelhos dos carros na tua missão.
2. Não terás outro horário além do que encontras.
Os horários afixados são lendas. Chegarás à paragem e esperarás o tempo que for necessário. A tua única certeza é que a chegada será tardia.
3. Não olharás para as luzes de check engine em vão.
As luzes de avaria são o logótipo oficial da Carris Metropolitana. Não as lamentarás, pois elas são a garantia de que o motor está a lutar para se manter vivo.
4. Santificarás a chuva no interior.
Quando chover dentro do autocarro, não te queixarás. É um serviço premium para testar a qualidade do teu impermeável e purificar a tua alma.
5. Honrarás os motoristas e os seus praguejares.
Eles são os pilotos de testes heroicos destas máquinas transportadoras. Não os culparás pelos atrasos e serás solidário com o seu praguejar na rotunda do Centro-Sul.
6. Não roubarás o espaço vital do próximo.
Quando o motorista gritar “Cabe mais um!”, encolherás os teus pulmões e a tua dignidade. Compactar é a palavra-chave para a contagem de passageiros.
7. Não ficarás indiferente ao som do próximo.
O volume nos headphones do vizinho é a tua banda sonora obrigatória. O ressonar gutural é o teu bónus de som ambiente. Participarás na sinfonia, quer queiras quer não.
8. Não levantarás falso testemunho contra a tua própria paciência.
Dirás a todos os teus colegas que adoraste a viagem, mesmo que te tenhas sentido a ser cozido e abanado durante 45 minutos.
9. Aprenderás a meditar no trânsito.
Quando o autocarro parar, não te zangarás. A Carris está a fornecer-te tempo extra para a reflexão. É a tua terapia gratuita para uma meditação que não sabias desejar.
10. Nunca desembarcarás rapidamente e de forma apressada.
O desembarque deve ser triunfal. Desce do autocarro como um astronauta a regressar à Terra depois de uma longa missão. Respira fundo o ar não-viciado.
O Carris Metropolitana 3721 não é um autocarro, é uma máquina do tempo disfarçada, que nos leva de volta a uma era onde o conforto e a pontualidade eram meros sonhos utópicos. É um ensaio de resistência física e mental. Para os entusiastas de emoções fortes, este é o veículo ideal. Para os nossos governantes, é a prova de que “o transporte público funciona.”, mas só para quem não tem outra escolha.
Nota: Este texto é uma crítica construtiva ao serviço de transporte público da Carris Metropolitana e não reflecte a opinião de todos os passageiros.