No universo simbólico português, poucas figuras são tão reconhecíveis — e tão mal compreendidas — quanto o Zé Povinho. Criado por Rafael Bordalo Pinheiro em 1875, o Zé é simultaneamente sátira, espelho e denúncia. Popularizado como um caricatural representante do povo português, é, acima de tudo, uma figura de resistência à hipocrisia do poder. O seu gesto de manguito — obsceno mas politicamente carregado — é dirigido contra o abuso, a farsa e a arrogância, sejam elas clericais, políticas ou burguesas.
Para compreender o Zé, é necessário entender o seu criador. Rafael Bordalo Pinheiro não era um revolucionário marxista nem um monárquico devoto. Era um liberal republicano, fortemente anticlerical e crítico feroz do status quo da monarquia constitucional portuguesa. Nas suas obras, não poupava a realeza, os padres nem os deputados — e muito menos a passividade cúmplice do povo.
Seria, hoje, facilmente situado à esquerda, mas não à esquerda identitária contemporânea. Bordalo era mais próximo do que hoje chamamos de esquerda crítica ou liberal-progressista. Defendia a modernização, a educação popular e o combate à corrupção, mas nunca caiu na idealização ingénua das massas. O Zé Povinho é o povo — mas é também a crítica do povo que se submete, que se resigna, que se conforma. O manguito não é apenas resistência: é também impotência.
Curiosamente, o Zé Povinho tem sido cooptado por figuras nos antípodas do espectro político. A extrema-esquerda, vê nele um símbolo da luta contra a exploração capitalista, um eco visual da revolta do proletariado. Os bloquistas, por exemplo, celebram a crítica feroz ao clero e à elite económica como uma antecipação das suas próprias bandeiras. Francisco Louçã, por exemplo, referiu-se a ele em pleno Parlamento como o “verdadeiro rosto do povo português, farto de ser enganado”, usando-o como escudo simbólico contra os cortes da troïka e os governos de austeridade. Era a versão bloquista do Zé: o pobre enganado, o pequeno herói popular que começa a levantar-se. Mas essa visão omite o lado mais incómodo da personagem — o seu conformismo, a sua resignação, o seu papel como cúmplice silencioso do poder que critica.
Do outro lado, a extrema-direita, com André Ventura à cabeça, também tenta vestir a pele do Zé. Para o Chega, o Zé Povinho é o português “de bem” que está farto das elites políticas, das “minorias barulhentas” e da burocracia europeia. O manguito vira-se agora contra os “tachos”, os subsídios e a corrupção — temas que, não por acaso, estavam também presentes nas críticas de Bordalo. Ventura apresenta-se, como o Zé, como “um de nós contra eles”. E isso resulta.
Ambos os extremos vêem o Zé como seu, porque ambos querem ser percebidos como insurgentes contra o sistema. Ignoram, claro, que o Zé Povinho nunca se deixou instrumentalizar. Se fosse vivo, talvez fizesse um manguito a ambos.
Já o centro político, onde a moderação se confunde com timidez, o Zé Povinho é um incómodo. Os partidos centristas — PS e PSD — sempre tiveram uma relação ambígua com o símbolo. A crítica implícita no Zé — à corrupção, à inércia, à promiscuidade entre poder político e económico — assenta-lhes como uma luva desconfortável. O centro não reivindica o Zé: tolera-o, mas preferia que ele fosse apenas um ícone turístico, uma peça de faiança calada numa prateleira de loja na baixa.
Num país cada vez mais polarizado, o Zé Povinho tornou-se campo de batalha simbólico. O que era uma crítica mordaz tornou-se, em muitos casos, um emoji da revolta vaga — apropriável por qualquer indignação do dia. O risco está em banalizá-lo, em transformá-lo em mascote de todos e, portanto, de ninguém.
Mas talvez isso diga mais sobre nós do que sobre o Zé. O povo português, como ele, ainda oscila entre a resignação e a raiva, entre o conformismo e a revolta. O Zé Povinho continua a fazer o seu manguito — mas o país parece cada vez mais surdo a esse gesto. Talvez, como Bordalo sabia, a sátira mais eficaz seja aquela que dói… precisamente porque ainda é verdadeira.