Há temas que, mais do que dividir, revelam o grau de maturidade moral de uma sociedade. A burca é um deles. Por detrás de um pedaço de tecido, esconde-se uma teia de dilemas éticos, políticos e civilizacionais que vão da filosofia antiga à política moderna: o estoicismo das intenções puras, o utilitarismo dos resultados práticos e a xenofobia disfarçada de defesa cultural.
Comecemos pelo princípio: o uso da burca, tal como o conhecemos — um véu integral que cobre o rosto e o corpo — não é uma tradição milenar do Islão, mas um costume recente e regional. Nasceu nas sociedades tribais do Afeganistão e do Paquistão, consolidou-se sob o regime talibã a partir de 1996, e espalhou-se nas últimas décadas como símbolo político de submissão, mais do que de fé. O Alcorão fala de modéstia e de véu (hijab), mas nunca de ocultação total do rosto. A burca é, portanto, um produto do machismo, não da teologia.
Posto isto, discutir a sua proibição é discutir até que ponto um Estado laico deve intervir para proteger indivíduos — neste caso, mulheres — de uma prática cultural opressiva. E é aqui que a filosofia se infiltra na política.
A extrema-esquerda tende a ver o tema pela lente do estoicismo moral: só é justo o ato que nasce da virtude. Assim, uma lei que proíba a burca por motivos xenófobos seria moralmente condenável, mesmo que libertasse mulheres de um instrumento de opressão. O bem, dirão, não pode nascer do mal. É uma visão nobre, mas ingénua — e historicamente ineficaz. A História raramente se faz de mãos puras.
O centro, por outro lado, olha o mundo com pragmatismo. O seu raciocínio é utilitarista: o valor moral de uma ação mede-se pelas suas consequências. Se a proibição da burca, ainda que nascida de motivações imperfeitas, resulta na libertação de milhares de mulheres, então o bem prevalece — e merece ser consolidado. Foi assim na abolição da escravatura, onde a guerra civil americana, movida por razões políticas e económicas, acabou por abolir um mal absoluto – recordemos que também então muitos escravos subjugados lutaram ao lado dos esclavagistas com medo de não terem para onde ir. Foi assim quando Lenine se aliou aos Aliados na Segunda Guerra Mundial: uma convergência taticamente impura, mas moralmente necessária. E é assim hoje, quando a proibição da burca, mesmo entre discursos populistas, contribui objetivamente para limitar o poder de sociedades patriarcais que a impuseram à força.
Já a extrema-direita, ainda que se revista de argumentos de segurança ou identidade nacional, parte de uma matriz emocional oposta à razão: a xenofobia. Não se indigna pelo destino das mulheres afegãs; incomoda-se com a presença de estrangeiros. O impulso é de rejeição, não de libertação. O ato é o mesmo — a proibição —, mas o seu fundamento é o medo, não a justiça. E, como lembraria Sêneca, “nenhum mal é mais destrutivo do que a injustiça praticada em nome da virtude”.
A diferença entre estas três posições é subtil, mas decisiva: o estoico da esquerda quer pureza moral, mesmo que o bem não aconteça; o xenófobo da direita quer impor o mal, mascarado de ordem; o utilitarista do centro aceita a imperfeição humana e reconhece que, no caos da História, o bem comum sobrevive mais pelas consequências do que pelas intenções.
A filosofia antiga serve-nos, assim, de espelho: o estoicismo ensina integridade individual; o utilitarismo, eficácia coletiva. A política deve aspirar a ambas, mas quando o mundo exige escolhas duras, é o utilitarismo — e não o moralismo — que produz liberdade real. O progresso humano raramente veio de santos; veio de compromissos, contradições e decisões imperfeitas que, no entanto, empurraram o mundo para a frente.
A libertação das mulheres da burca, como a libertação dos escravos ou a derrota do totalitarismo, não precisa de pureza para ser justa. Precisa apenas de prevalecer.