Há um momento decisivo em Rocky Balboa (Rocky 6) em que o treinador diz ao lutador, já retirado, mas desafiado de novo, aquilo que ele já sabe, mas não quer ouvir: já não és rápido, já não surpreendes, já não tens a agilidade de antes. O mundo mudou. Mas ainda tens algo que conta — consegues aguentar pancada e, quando for preciso, responder com força. Não com estilo, não com elegância, mas com impacto.
É exatamente aí que a Europa se encontra.
Perante as recentes ameaças de Donald Trump de impor novas tarifas aos países europeus caso não cedam na questão da Gronelândia, a resposta europeia voltou a ser previsível: preocupação, apelos ao diálogo, linguagem diplomática cuidadosamente vazia. Como se ainda estivéssemos num mundo regido por regras claras e aliados previsíveis. Como se a política internacional não tivesse regressado à lógica crua da força.
Os Estados Unidos deixaram de se comportar há muito como um aliado estável. Com Trump — mas não apenas com Trump — a relação transatlântica passou a ser tratada como um negócio de curto prazo: segurança em troca de alinhamento político, tarifas como arma de pressão, a NATO como instrumento de chantagem. Não é uma aliança entre iguais, mas uma relação assimétrica em que a Europa paga e obedece.
E a Europa aceita.
Tal como Rocky, a Europa já não é jovem. Não é rápida a decidir, não é ágil institucionalmente, não fala a uma só voz. Mas continua a ser uma potência económica global, um mercado indispensável, um espaço estratégico, tecnológico e militar relevante. O problema não é falta de força — é a insistência em fingir que a força não é necessária.
A Europa continua a lutar como peso leve num ringue de pesos-pesados.
Quando os Estados Unidos ameaçam com tarifas para forçar decisões políticas soberanas, isso deixa de ser comércio e passa a ser coerção. E coerção exige resposta. Não mais comunicados mornos, mas uma linha vermelha clara: qualquer nova guerra comercial terá consequências diretas na presença militar americana em território europeu.
Não por hostilidade aos Estados Unidos. Mas por dignidade estratégica.
Não faz sentido garantir bases militares, acesso privilegiado ao espaço aéreo, águas territoriais e infraestruturas críticas a um país que trata a Europa como um adversário económico sempre que lhe convém. Não faz sentido sustentar uma arquitetura de segurança comum quando essa arquitetura é usada como instrumento de pressão política.
Se for necessário dizer que a continuidade da NATO depende do respeito mútuo, que se diga. Se for necessário afirmar que novas tarifas implicam a retirada progressiva das bases militares norte-americanas da Europa, que se assuma. Se for necessário limitar o uso do espaço aéreo e marítimo europeu, que isso seja entendido como consequência, não como provocação.
No boxe, como na política internacional, o respeito não nasce da boa vontade. Nasce do equilíbrio de forças.
A NATO só faz sentido enquanto aliança entre soberanos. No momento em que se transforma num mecanismo de tutela, deixa de ser defesa coletiva e passa a ser submissão organizada. E nenhuma democracia madura pode aceitar isso como normal.
A Europa tem medo de “escalar”. Mas a verdade é que há anos que leva golpes sucessivos — tarifas, sanções extraterritoriais, espionagem económica, pressão energética — e continua a agir como se bastasse resistir mais um pouco para que tudo volte ao normal.
O treinador do Rocky não lhe pede beleza nem rapidez. Pede-lhe que aguente, avance e bata quando for preciso.
A Europa não precisa ser agressiva. Precisa de ser firme. Precisa de mostrar que há limites que não se cruzam, que soberania não se negocia sob ameaça, que alianças não sobrevivem à chantagem.
Porque quem nunca levanta os punhos acaba sempre no chão…. e a Europa já passou tempo suficiente encostada às cordas.