Para tanta dor não há lugar no léxico nem hipérboles suficientes na gramática para toda a brutalidade. Contemos esta história pelas palavras de dele. Ele que traz no corpo aos 20 e bem poucos anos um mostruário completo de todas as forma de violência inventadas. O que faz de um homem um homem? O reconhecimento da sua história, da sua existência e Rom quer que ela seja contada.
“Só rezava para que acabasse. Todos os dias, a cada golpe, todas as noites, dizia a mim mesmo: terminei mais um dia no inferno. Amanhã de manhã vou acordar para mais inferno, e mais inferno, e mais inferno. Isso não acaba.”
Durante dois anos não falou. O adolescente de 19 anos de sorriso rasgado morreu a 7 de Outubro, o homem que sobreviveu quer “que as pessoas saibam o que passei — que compreendam o que é realmente o sofrimento. Voltei de um encontro com o diabo. O mundo inteiro deve compreender e saber, mesmo que seja um pouquinho, o que significa um pesadelo”.
Rom, libertado em Outubro com 19 outros reféns, ainda não deixou o hospital. “Mentalmente, não consigo sair do hospital. Preciso desta bolha. Todos me protegem, perguntam por mim, preocupam-se comigo… Tenho esta cama, sinto-me confortável aqui. Tenho medo de sair para o mundo — medo de enlouquecer, de desmoRomar. É difícil para mim tomar banho, ficar de pé, andar. Sinto-me quebrado”. Depois de quebrar nunca mais voltamos a ser como antes.
Rom Braslavski foi mantido em cativeiro pelo grupo terrorista Jihad Islâmica Palestina em Gaza durante 738 dias. Numa entrevista de 50 minutos ao programa “Hazinor” do Canal 13 israelita, transmitida na quinta-feira à noite, Rom falou desses dois anos começando pelo momento do seu sequestro no festival de música Nova, em 7 de outubro de 2023, onde trabalhava como segurança. “Foi a primeira vez que vi um cadáver”, disse, contando como se deparou com os corpos ensanguentados de duas jovens mulheres, enquanto tentava escapar dos terroristas invasores, sem sucesso. “Disse a mim mesmo: “ouve, estás num filme”. Se estou num filme, com câmaras, o que é que o tipo nos filmes faria? Comecei a atacá-lo com os punhos, com toda a minha força, e empurrei-o com toda a minha força. Apanhei-o desprevenido”. Aproveitou a oportunidade para fugir do seu captor, correndo descontroladamente, apenas para perceber que estava a correr em direção à Fronteira de Gaza, e não para longe dela, e que estava cercado por todos os lados.
Quando o terrorista o alcançou, partiu-lhe o nariz e levou-o. Rom passou os seus primeiros 10 dias em cativeiro amarrado a um guarda-roupa no quarto de alguém, antes de decidir tomar o assunto nas suas próprias mãos.
Tendo aprendido com um amigo como se libertar de amarras, Rom engendrou um plano: tentaria libertar-se sempre que seus captores não estivessem por perto e procuraria na casa qualquer coisa que pudesse ajudá-lo. Isso continuou por 11 dias, até que ele decidiu embarcar numa “missão suicida”. “Disse a mim mesmo: ‘Vou fazer massa’”.
Mas sem gás para o fogão, não havia maneira fácil de cozinhar a massa, levando Rom a recorrer a vários livros e uma pilha de roupas pertencentes aos filhos do seu captor e a atear-lhes fogo. O fumo que saía da casa enquanto ele cozinhava numa fogueira improvisada atraiu a atenção dos locais, que rapidamente perceberam que a fonte era um refém israelita sem vigilância a cozinhar o seu jantar. “Começaram a bater na porta. Depois começaram a bater nas janelas. As janelas eram de plástico. Olhei à minha volta e pensei: “Merda, apanharam-me’”.
Escondeu-se debaixo da cama, cobrindo-se com um cobertor. “Eles entraram. Puxaram-me de debaixo da cama e espancaram-me”. Antes que a multidão enfurecida pudesse matá-lo, o seu torcionário voltou e expulsou-os, apenas para amarrar Braslavski mais uma vez e sair da casa novamente.
“Nasci judeu, morrerei judeu”
O então jovem de 19 anos passou a maior parte do cativeiro da Jihad quase totalmente sozinho, exceto por um breve período de 48 horas que passou com o refém Sasha Troufanov em Rafah, no sul de Gaza, em maio de 2024. “Esse foi o maior presente que eu poderia ter recebido. Sentei-me com Sasha, no início tínhamos medo de falar, mas conversámos baixinho.” “Conversámos por horas, sem parar. Da manhã até a noite… Senti quase feliz”.
A 6 de maio de 2024, as IDF entraram em Rafah e eles foram separados. Rom não veria outro refém até a noite anterior à sua libertação, 17 meses depois.
O tempo de Rom nas mãos da Jihad Islâmica teve dois momentos distintos. Em março de 2025, após o colapso do segundo acordo de cessar-fogo, as suas condições, já difíceis, pioraram quando ele recusou converter-se ao islamismo. “Nasci judeu e morrerei judeu”.
O guarda não aceitou bem a recusa e, dias depois, apareceu com uma nota escrita alegando ter sido entregue pelos seus comandantes superiores, que, segundo ele, o instruíram a vendá-lo. “Ele disse-me com um sorriso que a tirariam em dois ou três dias.” A venda não foi removida, e o seu captor começou a impor-lhe cada vez mais limitações, restringindo o uso da casa de banho a três vezes por dia, reduzindo a sua ração de água de um litro por dia para meio litro; reduzindo a sua já escassa ração de comida, e acrescentando outra venda sobre a primeira quando Rom admitiu que ainda conseguia ver alguma luz através do tecido.
Um dia, o seu captor aproximou-se dele : “Olha o que eu trouxe para ti”. Eram pedras que foram enfiadas nos ouvidos com um prego e permaneceram lá durante semanas, deixando-o efetivamente surdo. “Grito e ele não se importa, apenas continua a enfiar as pedras cada vez mais fundo. Isso esgota-te mentalmente. Eu já estava cansado, com fome. Nem sequer tinha um pão pita por dia. Segurava a urina, não conseguia ver e agora também não conseguia ouvir bem”.
Após três semanas com os olhos vendados um homem dirige-se a ele e diz: “‘Abu Salem (nome que os seus captores lhe deram), aqui está outra nota’.”
Quando questionado sobre o que dizia a nota, respondeu: “Amarre Abu Salem e torture-o.”
A tortura
Naquela noite, tudo começou. “Era espancado talvez sete vezes por dia, cada vez por cerca de vinte minutos.” Descreveu como tentava perder a consciência e desmaiar, “mas eles também não deixavam — agarravam-me. Depois dos socos, passaram a usar aquele chicote [o que usavam para os burros], cada golpe parecia uma queimadura. Fiquei com cicatrizes — ainda hoje tenho essas cicatrizes. Elas não desapareceram do meu corpo.”
Mesmo durante o sono, não havia descanso. Ao amanhecer, os espancamentos recomeçavam com um ritual cruel. “Às seis da manhã — lanternas. ‘Yalla, yalla, yalla, yalla!’ Entravam com dois rádios, ligavam música árabe alta e gritavam: “Allahu Akbar! Allahu Akbar! Que dia maravilhoso! Que dia feliz!”. Por vezes os seus captores exigiam que ele dançasse para entretê-los. “Dance com as mãos. Dance e ria”, diziam eles. Começa a duvidar se vai sobreviver, se algum dia vai sair vivo.
“Eles espancaram-me com tudo o que tinham. Esmagaram um rádio na minha cabeça. Partiram um bastão em mim. O chicote dobrou-se completamente — era de metal. Dobraram o metal com a força com que me batiam. Lembro-me que doía muito. Quando eles disseram “Deita-te”, um sentou-se nos meus joelhos, outro pegou no chicote e chicoteou as solas dos meus pés — chicotada após chicotada, talvez quarenta seguidas. E ele diz-me: “Em pé. Fica de pé.» É como ser queimado vivo. Sentes fogo.”
Rom recorda-se como os sequestradores comiam à sua frente e diziam ter comida suficiente para abrir um restaurante.
Em agosto de 2025, a Jihad Islâmica Palestiniana filmou e divulgou um vídeo de Rom Braslavski a chorar de dor. A sua família não autorizou a publicação do vídeo na imprensa israelita, aprovando apenas imagens estáticas, nas quais ele podia ser visto deitado no chão. “Eu sei que o Rom está a ser torturado, porque o Rom não chora. Se ele chora, é porque estão a abusar dele. Olhem para ele. Magro, sem forças, a chorar. Todos os seus ossos estão à mostra”, disse a sua mãe, Tami, na época. “Eu não chorava de fome. Chorava de dor física”, disse ele, acrescentando que não conseguia assistir ao vídeo que seus captores o forçaram a gravar. “Disse-lhes: ‘Essa bola de falafel que vocês me dão todos os dias, tirem-na. Deixem-me morrer de fome, deixem-me em paz. Apenas parem de me espancar”. Após a gravação do vídeo, a situação piorou ainda mais, e Rom sofreu abuso sexual, com os seus captores a despirem-no e amarrarem-no para espancamentos adicionais.
“Foi violência sexual — e o seu principal objetivo era humilhar-me. O objetivo era destruir a minha dignidade. E foi exatamente isso que [eles] fizeram. É difícil para mim falar sobre essa parte especificamente. Não gosto de falar sobre isso. É difícil. Foi a coisa mais horrível”.
O testemunho de Rom Braslavski parece torná-lo o primeiro ex-refém do sexo masculino a relatar ter sido abusado sexualmente durante o cativeiro, depois de várias reféns do sexo feminino o terem feito.
“Mentalmente, não estou preparado para sair do hospital. Tenho medo de enlouquecer, de perder o controlo. Mesmo quando saio e faço o mínimo necessário, faço-o sem qualquer vontade. Sem qualquer força ou energia. O meu cérebro está desligado, a minha alma está desligada, o meu corpo está desligado.» Mas está determinado a recuperar, mesmo sabendo que o caminho será longo e difícil.
“Quando vejo os outros reféns em concertos, a gritar e fortes, não tenho inveja deles por estarem felizes e satisfeitos, porque esse momento também chegará para mim, quando conseguir levantar-me e recuperar. Também serei feliz”.
Que Rom possa dançar outra vez. Rearranjando os pedaços de si.
Numa época em que escolhemos as cenas que veremos e com as quais o nosso coração se decide comover, fica o testemunho de dois anos roubados. Dois anos em Gaza que podiam ter sido em Auschwitz e o mundo olhou para o lado.