Desde o princípio da nossa história que a arte sempre veio agarrada à religião. As representações eram formas de exorcizar medos ou de manifestar suplicas. O tempo fez evoluir a arte, como o ser humano evoluiu. Das grutas aos templos distam uns milénios, mas assumiram-se construções por todo o mundo que hoje são motivo de admiração. As construções foram-se tornando mais complexas e mais “adornadas”. A arte esteve sempre presente, até nos templos muçulmanos, aqui sem representação humana ou animal. O zénite da arte foi assumido pela Igreja católica. As pinturas e esculturas de Miguel Angelo, de Leonardo, de Rafael, de Ticiano, mas também de Nuno Gonçalves, de Grão Vasco, de Diogo Teixeira, de Josefa de Óbidos e mesmo de Almada nos vitrais da igreja de Nossa Senhora de Fátima. Os vitais de Chagal na Catedral de Metz, ou de St. Stephan e em muitos outras igrejas são do século XX., de ontem, portanto.
Desde sempre que se chamavam os crentes por dois meios, em alternativa ou em simultâneo, seja pela beleza da(s) obra(s) de arte seja pelas relíquias. Quanto mais arte ou mais rara a relíquia, mais visitantes entravam no templo.
Há uns anos, a Igreja permitiu que o IPAR (com as várias designações que foi tendo) assumisse o controle das suas igrejas, da casa de Deus. Deixou-se assim na mão de técnicos, sem cultura, sem técnica (já lá vou) e possivelmente sem crença, as decisões sobre o que se pode ou não fazer dentro dos templos (!!)
Na Europa, vemos exemplos bem contrários ao que se tem feito por cá. As igrejas (plural) vão sendo intervencionadas ao longo dos tempos e “evoluindo” nesses tempos. Na catedral “nova” de Salamanca, no pórtico, durante o restauro foi-lhe adicionado um astronauta, como forma de datação e até de debate. Noutras catedrais são visíveis vitais de vários tempos, os mais recentes de arte nova.
Entendo, assim, que a Igreja deve retomar o controle dos seus templos e dotá-los de arte contemporânea. Seja pintura, seja escultura, na representação que o artista proponha e seja, naturalmente, aceite.
A catedral anglicana de São Paulo, em Londres, tem uma escultura de Henry Moore de Nossa Senhora com o Menino que certamente chocaria as virgens do IPAR, ou um tríptico representando o sofrimento, com imagens móveis de vídeo.
Noutras, muitas, há exposições temporárias que motivam a ida. A rede atirada para o outro lado (o direito segundo João)
Finalmente outras foram “desactivadas ao culto” e foram readaptadas a museus ou no limite feiras.
Em 1305 Giotto pintou os frescos da Capela de Scrovegni para que o padre, perante uma plateia analfabeta, pudesse enfatizar as suas homilias com as ilustrações. Hoje há outros meios, de arte, contemporâneos para o mesmo efeito.
Cada igreja, descontando os altares (muitos sem qualquer pintura alusiva ao santo) haverá sempre 14 estações da via sacra para “ilustrar”, além naturalmente do Santo dedicado.
Acresce que não haverá um único artista plástico que não queira deixar a sua marca ou mensagem num templo católico, onde muitos gigantes antes dele se tornaram conhecidos.
Aceitam-se novas igrejas com projectos arrojados, como sejam o da igreja do Marco de Canaveses projectada por Siza Vieira, mas e as existentes? Centenas ou milhares que precisam de intervenções? Não teremos de fazer um aggiornamento? Não devemos deixar a marca do nosso tempo?
Enquanto a Igreja tem na sua origem 10 mandamentos, o primeiro código civil, o IPAR tem muito mais, mas ao contrário dos originais que visam um mundo melhor, estes põem em perigo o futuro das igrejas (não da Igreja) e dos crentes que as visitem, sempre que ignoram os necessários reforços das paredes e declamam sagrada a cal.
Defendo, também, que quando as entradas nos templos não sejam para o culto devem ser pagas. A manutenção tem de ser paga por todos, creio que é esse o conceito de “património” que queremos ter e manter.