Um colega meu começou a apelidar de especialistas em ciências ocultas os economistas. Eu tendo a concordar – as previsões que nunca coincidem, as ideias muitas vezes abstrusas, a falta de controlo à posteriori do que foi “previsto”. Há, contudo, algumas evidências que mesmo nas ciências ocultas são aceites. Uma básica é a lei do mercado, da oferta e da procura, dos factores que influem na demanda. Outra não menos importante e que influencia as outras é a composição dos preços. Eu sei que houve quem tentou converter tudo em unidades de trabalho, mas creio que o seu primo Grouxo desmontou a teoria.

Dito isto há sempre traduções poéticas, como a quase metáfora das borboletas que, aplicada à meteorologia tem falhas, mas que na economia é mais visível. Um imposto lançado pode acabar com um negócio (lembro a alteração da tributação dos 4×4 em 2000 que acabou com as vendas). Também é assumido que a redução dos impostos, dos custos fixos, pode alterar o preço e consequentemente a procura.

A crise da habitação pegou de estaca e não tem solução fácil ou rápida. Cada treinador propõe um esquema de jogo, a redução do IVA, a pré-fabricação, entre outras. Eu proponho a descompressão do solo urbano, “abrir” os PDM com maior oferta de área urbanizável, promover habitação pública através das autarquias no modelo EPUL (rendas para a classe média), criar uma base de dados nacional para determinar a procura, favorecer acordos com fundos de investimento definindo os objectivos e limites de custo e rendas, mas garantindo a rentabilidade dos capitais investidos. Estes acordos teriam naturalmente benefícios fiscais. E naturalmente revendo as regras, as áreas e as “obrigações”, tem de haver casas para ricos, remediados e pobres, como em tudo na vida.

Os dois modelos de comércio em vigor, o novo e o remodelado, são taxados. O “remodelado” nas mais valias, o “novo” em todo o processo e no final em IRC. Quanto mais caro, mais pagam, quer de taxas às autarquias quer de impostos ao Estado. O IMT e o IMI são proporcionais ao preço pago, pelo que o comprador não só paga um elevado IMT (sucessor da sisa, o tal imposto “estúpido”) como pagará, o resto da vida, um IMI elevado. ~

Nunca as Câmaras receberam tanto dinheiro por fogo.

É perante este cenário que o senhor director do Expresso, pessoa experiente em ciências ocultas, vem dizer que “Está na altura de tributar o património”. Considera que o Estado vai perder receita de IRS pelo que tem de ser substituída pelo IMI. A ideia de tentarmos reduzir o custo do Estado não lhe assiste. O contribuinte tem de pagar. A ideia de o contribuinte ficar com mais dinheiro no bolso é um disparate, é preciso ir buscá-lo e todo.

Uma família compra, com empréstimo uma casa, vai pagar IMI, caro por via do valor, uma prestação que tende sempre a crescer, o que propõe o senhor director? Fazê-la pagar ainda mais.

Naturalmente que se este absurdo fosse tido em conta, a produção de casas seria mesmo só para os muito ricos, tipo 0,002% da população.

Diria o nosso diácono, oh balhamedeus.