A maioria dos leitores conhece Sofia, o robot humanoide apresentado ao público em 2016, capaz de ver, ouvir, falar e de produzir expressões faciais, capacidades que o cunharam como popular exemplo de Inteligência Artificial (IA).

Tão imensamente popular nos anos mais recentes, vale a pena recordar que, na essência, a IA é um ramo da ciência da computação focado na criação e simulação de comportamento inteligente em computadores, ou seja, um ramo dos vários do estudo da vida artificial, focado na criação de agentes capazes de simular capacidades mentais humanas. A crescente popularidade respalda-se em larga escala no (velho) fascínio de artificializar a inteligência humana em algo que não o seja (dispositivos, software, máquinas, …); no fascínio de, por o cérebro humano fazer computação, ser natural a computação reproduzir o intelecto humano; no fascínio de criar mentes que possam até ser mais inteligentes que o próprio humano. E, afinal, o que é a inteligência?

Definições de dicionário incluem “faculdades de memória, criatividade,  julgamento, raciocínio e abstração”, “capacidade de compreender, raciocinar, aprender e decidir”  ou “utilização qualificada da razão e do conhecimento” que, tal como a origem do termo, se refere a “quem sabe escolher”:  ser inteligente é ser capaz de operar, com sucesso, num ambiente através de escolhas adequadas para cada situação.

Voltemos à Sofia; a sua “inteligência artificial” implicará então ser capaz de adquirir e processar informação, criar e usar conhecimento para atingir, com sucesso, determinados objetivos.  E, percebemos, que não é possível dissociar dois conceitos; inteligência e conhecimento (cognição) e que, sem capacidade de cognição não será possível mostrar inteligência.

A Ciência Cognitiva defende que estudar o conhecimento, a sua representação e manipulação exige uma compreensão da mente humana que, para ser completa, implica analisar os distintos níveis em que ocorrem os processos mentais. Estudar a mente humana é estudar os processos cognitivos e as atividades mentais como percepção, julgamento, raciocínio, memória, linguagem – e atender que os mesmos ocorrerem diferentemente em cada indivíduo.

A mente não é o software e o cérebro não é o hardware; não, não é assim tão simples!

O estudar a cognição é estudar, de forma interdisciplinar, o comportamento, a mente e o cérebro combinando a Psicologia (que aborda a experiência humana interna e externa, ao nível individual e em grupos), a Filosofia (exploração crítica da existência, da realidade e do conhecimento, dos processos de pensamento, de aprendizagem e de comportamento),  a Linguística (que explora como a linguagem define o pensamento e a compreensão humana), a Neurociência (a biologia do pensamento e da cognição, a compreensão profunda dos neurônios, dos circuitos neurais e de como o cérebro e as suas distintas partes suportam os processos mentais),  a Antropologia (a lente cultural e evolutiva, a construção do conhecimento partilhado, a interpretação do ambiente e como o humano se relaciona e age no Mundo) e claro, também e de forma central, a Inteligência Artificial.

O poder da computação tem moldado os avanços da IA e hoje, o mesmo termo é usado para tantas coisas que até há pouco eram apelidadas de forma diferente.  O aumento do interesse é quase sempre positivo e estimulante; contudo, é importante recordar o que de facto estamos a falar quando falamos de IA. Considerar não apenas as aplicações (por mais valor que demonstrem ou extravagantes que sejam) mas também (e sempre) as questões fundamentais da cognição, do pensamento e da mente humana.  Uma mente que extrapola os limites do cérebro, que emerge e se forma da dinâmica com o corpo e com o ambiente físico e social.

Perante isto – ou pelo menos no estado de arte em que nos encontramos– a inteligência artificial e a inteligência humana ainda não competem. A Sofia não é uma ameaça e a IA valiosa para humanidade é aquela que atua como parceira, integrando e facilitando os estilos de vida e as capacidades humanas.

*Adelaide Leitão, licenciada em Gestão, pós-graduada em Data Science e Mestre em Ciência Cognitiva, é manager na Accenture Applied Intelligence. Com experiências profissionais desde startups a grandes multinacionais, em Portugal e no estrangeiro, no mundo das tecnologias gosta de ajudar a simplificar conceitos complexos. A sua verdadeira paixão são as pessoas e o desenvolvimento humano.

  • O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.