A pandemia de COVID-19, a guerra na Ucrânia, a crescente tensão entre os EUA e a China e a instabilidade económica global não são meras disrupções temporárias, representando antes as rachas numa ordem mundial que, por décadas, se apresentou como inevitável e imutável.
O Regresso dos Blocos Económicos?
Com o avanço da desglobalização muitos países estão a repensar a forma como se inserem na economia global. Já não basta competir pelo preço mais baixo ou pela e ciência na produção. Hoje, a segurança das cadeias de abastecimento e a resiliência económica tornaram-se tão importantes quanto a competitividade. Esta mudança não é apenas estratégica, é também geopolítica. Países como os Estados Unidos e a União Europeia estão a tentar reduzir a sua dependência de mercados adversários, como a China e a Rússia, enquanto procuram novos parceiros e redesenham as suas cadeias de produção para proteger as suas economias e, em última instância, a sua segurança nacional.
Na prática, isto signi ca um regresso a blocos económicos regionais, onde a proximidade geográ ca e a estabilidade política são fatores decisivos. Já estamos a assistir à reconfiguração das cadeias produtivas na Europa, que tenta reduzir a sua dependência energética e tecnológica em relação à Rússia e à China. E, nos Estados Unidos, a Lei CHIPS e a inflação estão a forçar um regresso à produção interna de semicondutores e tecnologia avançada.
Portugal: Oportunidades e Riscos num Mundo em Fragmentação
Para Portugal, a desglobalização representa tanto riscos como oportunidades. Se, por um lado, a nossa economia depende fortemente de exportações, turismo e integração europeia, por outro lado, temos vantagens estratégicas que podem ser reforçadas neste novo contexto. A posição geográ fica privilegiada, com acesso direto ao Atlântico, pode transformar Portugal num hub para o comércio transatlântico e uma plataforma logística crucial para o comércio entre a Europa e as Américas.
No entanto, para não repetir os erros do passado é essencial evitar a tendência histórica para decisões políticas de curto prazo e para a dependência excessiva de setores vulneráveis. Em vez de apostar em estratégias de baixo custo e baixo valor acrescentado, Portugal deve focar-se em cadeias de valor mais sofisticadas, como a produção de tecnologia verde, automação industrial e inteligência artificial, que podem servir de base para uma economia mais resiliente e diversificada.
Para além disso, a dependência excessiva de mercados externos, que historicamente nos colocou em posições de fragilidade económica, precisa ser reduzida. Isto implica não apenas a diversificação dos parceiros comerciais, mas também o fortalecimento da capacidade produtiva nacional, especialmente em setores estratégicos como energia, tecnologia e alimentos. Esta é uma oportunidade para corrigir décadas de dependência externa e construir uma economia mais equilibrada e robusta.
O Desafio da Tecnologia e da Automação
Outro fator crítico neste cenário é a tecnologia. À medida que a economia global se fragmenta, a capacidade de inovar e digitalizar processos produtivos tornar-se-á um diferencial competitivo essencial. Portugal, com uma “simpática” rede de startups tecnológicas e o crescente investimento em inteligência artificial, pode posicionar-se como um centro de inovação digital. Contudo, isso exigirá investimentos em qualificação profissional, infraestrutura digital e políticas públicas que fomentem e mantenham a inovação.
Reflexão Final: Preparar-se para o Desconhecido
A desglobalização não é apenas um retrocesso ou uma quebra nas cadeias de valor. É uma transformação estrutural que redefine as regras do jogo económico e político global. Para Portugal isto pode ser uma oportunidade para reavaliar as suas prioridades económicas, fortalecer a sua resiliência e redesenhar o seu papel no mundo. Mas para que isso aconteça será necessário coragem política, visão estratégica e um compromisso firme com a inovação e a sustentabilidade.
Historicamente Portugal cometeu erros que limitaram o seu desenvolvimento, como a dependência excessiva de setores tradicionais, a falta de investimento em educação e formação técnica, e a subestimação da importância da inovação industrial. Para corrigir esses erros, será necessário:
- Diversificar a Base Económica – Reduzir a dependência do turismo e da exportação de produtos de baixo valor acrescentado, apostando em setores como tecnologia, biotecnologia, energias renováveis e indústrias criativas.
- Investir em Capital Humano – Reforçar a educação técnica e superior, promovendo uma cultura de inovação e empreendedorismo, e criando incentivos para a retenção de talento nacional.
- Reindustrializar com Foco em Sustentabilidade – Desenvolver capacidades produtivas em setores estratégicos, como tecnologia verde e automação, reduzindo a dependência de importações críticas.
- Apostar na Digitalização e Automação – Criar um ambiente propício para a continua criação e manutenção de startups tecnológicas e promover a transformação digital em setores tradicionais, aumentando a e ciência e competitividade.
- Fortalecer as Cadeias de Valor Internas – Criar políticas que incentivem a produção local e a integração nas cadeias de valor globais, reduzindo vulnerabilidades a choques externos.
Mas para que estas mudanças sejam possíveis, será essencial um consenso alargado e uma visão de longo prazo que ultrapasse ciclos eleitorais e interesses partidários. E, se dos atores políticos mais extremistas não se espera grande compromisso com esta visão (ou com qualquer uma de relativo progresso económico), aqueles partidos com um legado histórico mais profundo e humanista têm a responsabilidade de demonstrar sentido de Estado e liderança estratégica, dado o seu papel na manutenção da democracia portuguesa.
Sem esta união de esforços, corremos o risco de repetir os erros do passado e ficar novamente para trás num mundo em rápida transformação.
Como em qualquer período de mudança profunda, a incerteza é inevitável. Mas, como dizia Fernando Pessoa, “navegar é preciso”. E, talvez, seja precisamente este o momento de ajustarmos as nossas velas, definir um novo rumo e, finalmente, aprender a usar os ventos da mudança a nosso favor.