Em política temos, cada vez mais, de andar de dicionário na mão. Mas neste país, governado pela direita de 1926 a 1974 e governado pela esquerda desde 1974, até nos dicionários políticos encontramos fake concepts – ora por interesse partidário, ora por incompetência dos dicionaristas,  ora, vá-se lá saber porquê.

Em 1974, depois do golpe dos capitães, o país virou à esquerda. O que não era estranho, pois há muito que a esquerda fazia a cabeça das pessoas – nas faculdades, nas páginas literárias dos vespertinos, na comunidade literária e intelectual. Salazar e os responsáveis do regime tinham abandonado qualquer preocupação de combate de ideias ou de batalha cultural. As organizações oficiais do regime eram de um profundo desinteresse e indigência nessas matérias e França – cuja cultura era, ao tempo, dominada pela esquerda sartriana – era a bíblia dos oráculos domésticos.

Nessa decadência e dependência intelectual e cultural da Direita e das direitas nos anos finais do Estado Novo começou a guerra de África. A chamada “Situação”, que no ano de 1958, com o raid eleitoral de Humberto Delgado, passara por uma situação extremamente perigosa, vai sobreviver graças à trégua – e até à renovação – que a guerra de África trouxe nos seus primeiros anos. Houve, por um tempo, uma União Sagrada – com o apoio dos velhos oposicionistas republicanos, alguns bem mais “africanos” que Salazar, para a defesa do Império; e houve também, mesmo entre os mais novos,  um sentimento identitário que repolitizou a Direita.

Havia, fora das organizações oficiais, alguns núcleos críticos “de direita”,  e de muitas direitas: salazaristas que achavam que o regime se tornara uma plutocracia autoritária, mas que absolviam disso o “Doutor Salazar”; velhos nacionais-sindicalistas, que achavam que o 28 de Maio fora uma “Revolução Traída”, alguns tentados a passar para o “Reviralho”; monárquicos de várias persuasões, desde miguelistas a liberais, certos de que Salazar os enganara; católicos tradicionalistas, zangados com o Concílio; intelectuais e jovens neofascistas. E de todos estes grupos e das suas publicações – Agora, Debate, Tempo Presente –  ia também sair dos liceus e nas Universidades uma nova geração que, em resposta à ofensiva da esquerda associativa, que juntava numa frente comum as famílias da esquerda – comunistas, católicos progressistas e  “Reviralho” tradicional – uma direita revolucionária, ou nacional revolucionária. Era mais nova (entre os quinze e os vinte anos) era “estrangeirada” e até desenraizada, nas leituras e, mais importante, no modo de combater e na formulação das causas. E tinha percebido, que, a uma ideia revolucionária e empolgante só se resistia com uma outra ideia, também revolucionária e empolgante, só que de sinal contrário.

O que uniu estas direitas – além do anti-comunismo, que era uma causa negativa partilhada com muita gente que não era de direita – foi a questão de África e da guerra de África, que também congregava  gente que não era de direita.

As esquerdas no poder, entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro de 1975, neutralizaram pela prisão, pelo exílio e pela proibição dos partidos a resistência da direita que lhes podia fazer frente, que levou roda de “fascista”, deixando só a direita domesticada. Esta direita fez causa comum com o PS para neutralizar a deriva da esquerda revolucionária em 25 de Novembro, perante a neutralidade colaborante do PCP e das suas “Forças Armadas”. E assim nasceu o regime cultural assente no arco de governação PS-PSD-CDS, com uma ideologia “antifascista”, que evoluiu para a correcção política, e uma partilha do poder político e político-económico no Estado e na Economia, tendo no centro os dois partidos do Bloco Central que às vezes se aliaram também à esquerda, como o PS no caso da Geringonça se aliou com o BE e o PCP. A Academia, sobretudo nas Humanidades, foi ficando uma coutada exclusiva da extrema esquerda e o jornalismo e a “cultura” foram sendo enfeudados pelas várias esquerdas.

O PSD e CDS-PP (com as excepções das temporadas Manuel Monteiro-Portas, e do recente movimento intelectual protagonizado por Miguel Morgado, 5.7) nunca quiseram  sequer ouvir falar de batalha cultural e a esquerda continuou sozinha no campo das ideias, passando tranquilamente do marxismo-leninismo do PCP para as causas gramscianas da “Nova Esquerda” americana. Por isso, 46 anos depois de ter tomado o poder do Estado, manteve e mantém um inabalável monopólio nas ideias e na informação, um monopólio que se reafirma todos os dias, nas páginas dos periódicos e nos noticiários de televisão.

O aparecimento do Chega de André Ventura teve a novidade e o mérito de, pela primeira vez, pôr em questão este quadro, com uma direita, que, num regime de esquerda,  resistia à domesticação e não pedia licença para entrar no sistema político, mesmo intitulando-se anti-sistema.

Trazia com certeza as marcas do que se está a passar nas Américas e na Europa, onde novas figuras e novos partidos quebravam o tradicional modelo do centro governante.

Estes partidos traziam também novos valores: eram claramente nacionalistas, e mais eutocépticos e eurocríticos  que anti-europeus, querendo uma Europa das Nações.

A sua diversidade reflectia-se numa política crítica da imigração e sobretudo da imigração extraeuropeia e islâmica. Mais ainda, de uma imigração que não se integrava porque não se queria integrar. Insistia também numa ajuda securitária, com o agravamento de penas para pedófilos, violadores e predadores sexuais em geral.

Num ensaio muito oportuno, Riccardo Marchi, um investigador italiano que tem vindo a estudar, desde há quinze anos, o fenómeno das direitas e da Direita em Portugal, classifica o Chega como um partido de nova direita radical e populista, que se integra na corrente que, com as suas especificidades nacionais, vem surgindo em toda a Europa: chamam-lhes partidos identitários ou de “nova direita” porque não se assemelham ideologicamente nem à “velha direita” nacional conservadora e socialmente elitista, nem à extrema-direita nacional-revolucionária e fascistizante.

Ou seja, não querem nem a restauração da monarquia, nem o nacional-catolicismo; mas também não alinham numa versão neo-fascista de alternativa ideológica à democracia e de solidarismo social na economia. São ambíguos quanto ao liberalismo económico, embora não sejam liberais, ou institucionalmente liberais, nem na política nem nos costumes.

Curiosamente, embora o Estado Novo e o salazarismo estejam há meio século afastados do poder, a trilogia retórica que o auto-definia – Deus, Pátria, Família – está hoje muito inculcada em regimes de direita, como por exemplo na Hungria, na Polónia e até na Áustria. E resto, o salazarismo, aliás, foi no tempo e no modo da Europa Ocidental dos anos trinta, uma espécie de terceira via ou solução de equilíbrio entre o conservadorismo católico-corporativo das direitas moderadas e o nacionalismo autoritário e anti-democrático dos fascismos mediterrânicos e populistas.

O Chega é, por enquanto, um partido pequeno que sai dos cânones da “velha direita” religiosa e monárquica sem que assuma a radicalidade anti-regime da direita nacional-revolucionária, que nunca deixou de criticar o 25 de Abril e de o culpar pelo fim do Império pela decadência nacional.

Como todos os partidos novos, o Chega vai ter agora de enfrentar o tempo mais perigoso da sua existência. Já assusta o sistema, que o considera um inimigo a exterminar, e que, depois de uma tática de isolamento pelo silêncio, converge nos ataques. Assenta na vocação inata do seu líder para o combate político e na sua capacidade de pegar numa série de temas tabu que os partidos da “direita” do sistema – PSD e PP – não se atreveram a levantar a tempo.

Mas vai ter de encontrar uma forma de se apresentar pela positiva, pelos valores defendidos, e não apenas pela desmontagem do sistema no poder ou pelas qualidades políticas do seu líder.

Para isso vai precisar de um back-up ideológico e estratégico – e de um esteio político-doutrinário actualizado dos valores a defender, a contrapor e a propor. Até porque, num combate político-cultural, o campo de batalha são as cabeças dos “influenciadores” e dos eleitores; e, para vencer, é preciso, primeiro, convencer.