Imagine que, um dia, o filho do filho de um imigrante alemão que subiu a pulso na vida no ramo da construção civil se tornava Presidente dos Estados Unidos da América e, por inerência e por enquanto, homem mais poderoso do mundo. Imagine que ele casava com uma linda imigrante eslovena, que deixara tudo para trás em busca de uma carreira na moda. Imagine que, juntos, recebiam o príncipe herdeiro de um reino outrora distante e até culturalmente hostil, e que, em sua honra, davam um banquete para algumas das personalidades mais bem-sucedidas e influentes do mundo, incluindo um imigrante sul-africano, génio da tecnologia, que se tornou o homem mais rico do planeta, e um miúdo pobre da ilha da Madeira, que começou no Clube de Futebol Andorinha e se tornou o desportista mais bem pago do mundo, várias vezes eleito melhor futebolista do ano e personalidade mais “seguida” da Terra.
Imagine que tudo isto aconteceu mesmo, esta semana, no ano da graça de 2025 depois de Cristo. Em que momento este não era um sonho da democracia? Uma concretização plena das possibilidades das sociedades liberais? Nenhum. Ninguém tem o destino traçado à partida. Não há castas, nem sangues, nem condições económicas à nascença que possam ser limites invencíveis ao indivíduo. Não há mundos, geografias, crenças religiosas, mundividências, que não possam sentar-se à mesma mesa, à volta da mesma sopa de abóbora-mel. Atingimos, oficialmente, o zénite da História. O que acontece a seguir? Bom, a seguir, há duas hipóteses: ou saltamos lá de cima ou voltamos para trás.
Donald e Melania Trump, que negam ter-se conhecido através de Jeffrey Epstein, líder de uma rede de abuso sexual de menores condenado e morto na prisão, receberam na Casa Branca Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro e líder de facto da Arábia Saudita, para um encontro de negócios. Na conferência de imprensa que se seguiu, Trump admoestou Mary Bruce, veterana jornalista da ABC, por fazer perguntas incómodas acerca dos interesses da família Trump no reino saudita e do caso de Jamal Khashoggi, jornalista crítico do governo e da família real e colaborador do Washington Post, assassinado e desmembrado em Istambul, em 2018, por agentes sauditas, como descoberto pelos próprios serviços de informações norte-americanos. Trump acusou-a de fazer mau jornalismo e de estar a ser inconveniente para com o seu convidado – o mesmo Trump que, celebremente, não tem qualquer pudor em embaraçar ele mesmo os seus próprios convidados em plena sala oval, e que já filtrou eloquentemente os jornalistas e órgãos de comunicação social que podem ter acesso à Casa Branca. No fim, claro, ameaçou retirar a licença à ABC.
Tudo isto não apenas acontece à vista de todos; acontece já sem especial surpresa ou indignação. Tornou-se normal, natural, relativizado, assunto rapidamente descartável na agenda tribal em que hoje nos movemos entre quem está contra e a favor. E é por isso que, depois, também ninguém se espanta particularmente que, no banquete em honra do príncipe, estivesse sentado à mesa Jeff Bezos, outro dos homens mais ricos do mundo e… dono do Washington Post. A sopa ter-lhe-á caído bem? Passado sem dor na espinha dobrada?
A adornar a restante festa destes semideuses contemporâneos, cujas conversas não só não teríamos qualquer curiosidade em ouvir, como preferimos mesmo não ter ouvido, estavam ainda, entre outros, Elon Musk, autoproclamado paladino da liberdade de expressão e homem a quem, há pouco, a Tesla decidiu pagar até um bilião de dólares nos próximos anos – qualquer coisa como o Produto Interno da Suíça e, portanto, mais do que os PIBs de 90% dos países do mundo – e Cristiano Ronaldo, o nosso orgulho nacional, transformado em flor da lapela saudita, e pessoa que, há dias, dizia em entrevista que gostaria de conhecer Trump porque eram as duas maiores celebridades do mundo e ambos queriam muito a paz (além de um, confessadamente, não ver notícias e outro só as consumir através do seu canal).
Tudo perante a nossa concordância, indiferença, admiração, bajulação (o que vestiram Melania Trump e Georgina Rodriguez no banquete – eis a questão que nos apoquenta).
A Humanidade fez um caminho longo, doloroso, quantas vezes trágico, desde o tempo em que se oferecia em sacrifício aos deuses, matava por reis, escravizava, sentenciava destinos à nascença por razões de sangue ou casta (como sucede ainda nalgumas nada insignificantes partes do mundo). Foi uma história extraordinária, que permitiu que qualquer um pudesse ser rei, chegar ao trono – até os tolos. Os que fazem tábua rasa do conhecimento, da informação, dos factos, da verdade, enfim, precisamente da História, cada vez mais dobrada à propaganda, aos livros e documentários por encomenda, às imagens fabricadas por IA.
Quem diria que a História carregava no seu cumprimento a sua própria autodestruição?
Agora? Agora é começar tudo de novo.