Não deixa de ser fascinante. Vivemos durante séculos numa cultura construída sobre um livro escrito, traduzido e compilado, nalgumas partes, trezentos anos depois dos acontecimentos que narra; mas hoje, temos dificuldade em confiar no relato do que acontece ao momento. Imagine-se o trabalho dos juízes naqueles julgamentos em que, por mais forte convicção que tenham formado, faltem as provas. Hoje, temos provas de tudo, tudo é filmado de todos os ângulos e relatado por todos os lados, e, no fim, o que temos são provas para todos os gostos. Uma por cada par de olhos. Provas que provam a culpa e provas que provam a inocência. Que um lado tem razão – e que o outro também não.
De acordo com o que vamos assistindo em directo, nas televisões e nos telemóveis, o instante histórico que vivemos em Portugal pode aparentemente resumir-se em poucas palavras: de um lado, estão os vândalos; do outro, a ditadura. E antes que culpe os jornalistas ou os políticos, vá ver a cobertura imparcial dos “cidadãos”.
Daqui por muitos anos, não sei como explicar aos meus netos de que forma heróica sobrevivi a tamanhas trevas. Conto-lhes que a ditadura era, na verdade, um governo democraticamente eleito um ano antes e que poderia ser derrubado quando e como o parlamento quisesse? Que a polícia estava só a cumprir a lei? Que a larga maioria dos manifestantes era composta de pessoas normalíssimas, a protestar pelos seus direitos? E que tudo estava a funcionar – tribunais, parlamento, comunicação social, sociedade em geral? Que os manifestantes contra o capitalismo se mantinham na praça indo jantar ao McDonald’s? Registando e partilhando com o mundo a revolução através dos seus telemóveis americanos e/ou feitos por mãos chinesas, com os minerais raros extraídos à força de paupérrimas terras africanas? Através das redes sociais dos zilionários? Que a violenta polícia da ditadura avisava vezes sem conta, antes, depois e durante, que, se a lei não fosse cumprida, teria de avançar? Ou que os vândalos dormiam em conchinha? E atacavam com cravos e frases escritas em cartazes?
Melhor não. Que respeito teriam ao avô? Era a ditadura, era, meninos! Nem queiram saber… O que lutei para que não tivessem de passar pelo mesmo! No fim, iam todos para a televisão e para os telemóveis atacar-se uns aos outros e agitar soluções mágicas… A ditadura da demagogia. De tão cegos, não viam que eram todos iguais: os cidadãos que atacavam os políticos, que atacavam os jornalistas, que atacavam os políticos, que atacavam os cidadãos, que atacavam os jornalistas.
E a razão, afinal, onde estava, perguntarão os petizes? Bom, responderei – enfiando no bucho mais alguns comprimidos para a espondilose, acomodados com uma qualquer refeição do futuro em forma de pomada para não irem de estômago vazio-, nunca ninguém soube… Durante algum tempo, ainda aparecia aqui e ali, naqueles que tentavam explicar o problema da habitação, nos que reconheciam críticas à sua actuação ou um ponto de vista ao outro lado. Num mundo de grande crescimento populacional, movimentos migratórios, turismo e digitalização. Num país que aumentou largamente a população e reduziu drasticamente a construção. Sem receio de dizer que qualquer solução demoraria a implementar e nunca traria resultados no dia ou sequer no ano seguinte. Que a maioria das casas era das pessoas e não de fundos e que, mesmo esses fundos, eram muitas vezes fundos de pensões. Ou que as próprias pessoas investem em casas como forma de complemento ao rendimento, assegurar o futuro dos filhos ou a reforma. Que é a economia, estúpido. Que nenhum chavão num cartaz resolve, mas também nenhum silêncio altivo sossega. Que alguém algures parecia ter esquecido que o problema das democracias era também a sua maravilha: é preciso convencer o outro.
Mas a razão desapareceu algures durante o silêncio de um governo que a chegou a ter, mas não soube defender. Ou, simplesmente, porque desistiu de se tentar fazer ouvir debaixo da gritaria. Há quem diga que ficou nas praças, debaixo dos pés de pacifistas e vândalos, polícias bons e maus, direi por fim, antes de lhes aconchegar o cobertor e me voltar para o meu lado da cápsula.
Enquanto as casas, requalificadas por Ruy Belo “mudas testemunhas da vida”, nos olhavam pelas janelas.