1 Ao princípio achei que era uma surpresa depois percebi que talvez fosse um milagre. O olhar fito no écran, imóvel na cadeira, a pressa ausente e a curiosidade alerta, descobri-me inteiramente disponível para aquela história, que o mesmo é dizer inteiramente disponível para o milagre.

Era um filme chamado “A Herdade”. A inspiração tudo tocou no écran, as palavras e as pessoas, a paisagem, a grande casa e as outras casas, a luz, os sentimentos, a terra, os olhares, os silêncios e os seus andamentos. Como um vento forte ela soprou sobre tudo isto como sobre as notas com que se escrevem as sinfonias e as cantatas. Há tempos ouvi o pianista chinês Lang Lang a contar-nos no Mezzo, o que mais o deslumbrava na música e como tinha chegado até ela: a “inspiração” disse ele, “é sempre ela o que mais me toca, é de onde vem tudo”. (cito de memória).

Estou pouco habituada a milagres e que me ofereçam, em português, uma história portuguesa contada tal e qual ela foi, com uma prodigiosa justeza de tom, de substancia e de beleza — ainda menos.

A “Herdade”, estou certa, ficará na memória, na nossa e na do cinema. O sopro da inspiração escolheu jorrar sobre aquela grande planície.

2 Quase tudo o que, desde Abril de 1974, lera na literatura ou vira até agora no cinema português sobre as grandes propriedades, os latifúndios, os grandes patrões, foi sempre só metade da história. Parcial, não raro engagé, enviezado. Militante. Desta vez, não: Tiago Guedes contou-nos “o como era”. Neste caso deu-nos a ver algumas vidas, entre a década de cinquenta e o quase final do século passado. Marcelo Caetano, a revolução, a democracia e África, numa imensa herdade além Tejo. Pertença de um único proprietário como a sua grande casa branca, regida exclusivamente por ele. Um mundo: a família, o feitor, o padre, as criadas, as crianças, o pessoal. Os cavalos, os touros, os tractores. O médico, também “dali”. Um mundo, sim. Aquele, filmado como era e permaneceu até bem mais tarde do que o seu próprio prazo de validade.

Do lado de fora, a organização quase feudal que regia as grandes propriedades, regras estritas e fixas. Inter-muros, uma tensão cerzida de olhares que se cruzam e não deviam, sorrisos desamparados, vozes que não se soltam, gestos cortantes, ilusões vãs, palavras rarefeitas sobre a mesa das refeições, choros de crianças. Dores surdas. Ninguém ali é feliz e todos têm razão. Ao fundo, o lento crepitar da tragédia que chegará na memorável última meia hora do filme. Mas paredes dentro ou paredes fora, no campo ou em casa, apesar da rudeza dos dias e das esperanças calcinadas, há, quase físico, palpável, o veio de uma inexpugnável (inexplicável?) cumplicidade entre os dois lados desta (falsa) barricada onde uma aliança nunca escrita sempre dispensou as palavras. Existia. Era assim. Uma fidelidade. E muitas vezes durou.

Tiago Guedes poderia ter lidado com tudo isto bem ou mal, melhor ou pior, com bom astral ou pulso fraco, mas não: fê-lo com o fôlego que só pode ter vindo da inspiração. Essa coisa indefinível, meio dom, meio segredo, que faz com que todos os elementos se concertem e tudo esteja certo. Durante três horas a câmara não sai dali, capturando até ao osso, até ao âmago, cada um daqueles seres. Todos “dali”, circuito fechadíssimo. Tiago não os larga, mas “olha-os” sem os julgar. Não há preconceito nem animosidade, como se lhes desse o direito de serem “assim”. O filme raramente sai dos limites da propriedade e nós não saímos da cadeira do cinema. Não se pode dizer mais.

3 O sábio Aurélio, no seu dicionário, ensina-nos entre outras coisas que a inspiração é “qualquer estímulo ao pensamento ou à actividade criadora”. Seja. Mas nunca saberemos o que a faz decidir-se, onde quer descer ou quem quer possuir. Nem adivinharemos nunca o que a faz soprar. Os deuses sabem que louvados sejam os que a experimentaram e mais os que foram por ela postos à prova. Fiquei a saber que foi o caso, agora, com Paulo Branco e Tiago Guedes.

4 Paulo Branco produziu aqui o filme da sua vida, atrevo-me eu a dizer. Há oito anos –contou-me ele um destes dias – que “pensava nisto”. A vontade de dar vida e “anima” à sua própria memória nunca lhe saiu da cabeça. Uma geografia social e humana onde ele próprio brincara, crescera, montara a cavalo, conversara, aprendera algumas coisas. Ali mesmo, naquela mesmísssima herdade: o pai, forte amigo do proprietário, era pessoa “da casa”. E ele “passava os dias ali na Barroca…”

Um dia Paulo foi ter com Rui Cardoso Martins e Tiago Guedes a quem pediu que escrevessem a história que ele lhes queria contar e durava até hoje. “Aquilo” inspirava-o. Passou tempo mas o filme não se fazia. Arrancava sem arrancar, enrolado em sugestões, alterações, concordâncias e discordâncias. Foi preciso passar mais tempo e correr muita água sob várias pontes até chegar a luz do dia. Oito anos. Mas o dia e a luz chegaram com brilho radioso o que, como se sabe, nunca ofusca a tragédia. Ela lá está. Quase Grega, talvez antes Siciliana.

Paulo Branco continua ainda hoje a ir por aqueles caminhos, a montar aqueles cavalos, a sentar-se à mesa com os filhos e netos daquela gente. Amigos do peito é isto, atravessam-se gerações. Não que o filme as conte ou biografe. Mas colhe e recolhe o que Paulo Branco viu, ouviu, observou e reteve. Daí a verosimilhança, o tom justo, o sentido. O tratamento das personagens. E a mais despojada ausência de clichés.

4 Albano Jerónimo carrega o filme como se levasse uma mochila às costas. A sua própria mochila. Mais impressivo é difícil, um animal de cinema. A inspiração caiu sobre ele como um raio , num personagem bigger than life. Mas… e que dizer dos outros, no caso, todos os outros? Sandra Faleiro, Ana Vilela da Costa, João Pedro Mamede, Teresa Madruga, João Miguel Borges… e aqueles que conheço menos. Um leque de actores cuja inspiração lhes colou à pele densas e tensas personagens. Raro luxo. Quando saí do cinema pensei em como se pode agradecer um filme assim. No teatro bate-se palmas, na pintura podem comprar-se as telas, no futebol trocam-se as cordas vocais por golos, mas na penumbra silenciosa da sala de cinema, na matinée das 14 horas, vendo o genérico a sumir-se do écran, pensei que era um quase dever agradecer a quem nos serviu o banquete da Herdade.

PS: Político mais desinspirado que Pedro Sanchez deve ser impossível. Pouca sorte para quem terá que liderar e lidar com um enredo sem solução. Após o debate televisivo de segunda à noite, foi como se alguém tivesse escrito no tecto do estúdio que dali não sairá nada. Apesar da desenvoltura daquele quinteto, da fluidez do seu discurso, do manuseio de dossiers, alguma coisa meteu medo. Talvez o sabermos o fim, como nos maus filmes. Quem poderá inspirar a Espanha a sair deste alçapão?