Imagine estar rodeado por líderes globais, mentes brilhantes e inovadores que moldam os sistemas que afetam milhões de vidas. Agora imagine estar lá, não como observadora, mas como uma jovem mulher portuguesa, com uma voz ativa nas discussões mais importantes do nosso tempo. É exatamente isso que significa fazer parte das 50 Young Shaper Voices no Fórum Económico Mundial (WEF) em Davos este ano. Representando o Global Shapers Lisbon Hub e a voz da nossa comunidade no âmbito da educação como ferramenta chave para a mudança.

O tema deste ano, “Colaboração para a Era Inteligente”, é especialmente relevante. Vivemos numa era de mudança profunda, onde a inteligência artificial, os desafios da transição energética e a desigualdade nos desafiam a encontrar soluções sustentáveis. Mas estas discussões só fazem sentido se conectarem com o propósito que nos une.

Estar em Davos é mais do que representar uma geração; é uma oportunidade para construir pontes, partilhar ideias e imaginar, juntos, um futuro mais inclusivo, criativo e humano. Uma das ideias mais marcantes de Davos 2025 foi o conceito de “Otimismo Coletivo”, apresentado por Klaus Schwab, chairman executivo do WEF. Esta visão destaca o poder de unir vozes diversas num espírito colaborativo, reconhecendo que desafios como as alterações climáticas, a inteligência artificial e a desigualdade de género não podem ser resolvidos de forma isolada.

As alterações climáticas continuam um dos temas centrais, especialmente diante de declarações negacionistas como as de Donald Trump, que contrastam fortemente com os apelos de Al Gore por ações imediatas e concretas.

Na saúde da mulher,  surgiu uma oportunidade transformadora: reduzir a disparidade de saúde entre homens e mulheres não é apenas uma questão de equidade, mas também uma oportunidade de impulsionar a economia global em mais de 1 trilião de dólares até 2040. Esta conversa trouxe à mesa a importância de investir em inovação no setor da saúde, além de colocar as necessidades das mulheres no centro das soluções globais. Já no campo da inteligência artificial, o debate destacou tanto promessas quanto desafios. Enquanto o Global North lidera a inovação tecnológica, o Global South enfrenta o risco de ficar ainda mais marginalizado, agravando desigualdades que já moldam a paisagem global.

No meio deste contexto tecnológico e geopolítico, a cultura emergiu como uma ponte essencial para a coesão social. A arte, frequentemente considerada apenas como expressão criativa, foi celebrada em Davos pelo seu potencial transformador: “A arte muda pessoas, e as pessoas mudam o mundo.” Este pensamento ecoou profundamente, lembrando que a criatividade não só oferece novas perspetivas, mas também inspira mudanças sociais e culturais fundamentais.

Foi nesse espírito de transformação que tive a oportunidade única de participar como oradora na sessão “Explorando a Identidade Urbana na Era Inteligente”. Juntamente com Hans Ulrich Obrist, director da Serpentine Gallery, e Ana Cláudia Rossbach, directora da UN Habitat, mergulhámos no debate sobre a evolução das cidades no cruzamento entre tecnologia e tradição. Através da Realidade Virtual (VR), explorámos como as cidades podem equilibrar inovação e património cultural para criar futuros urbanos vibrantes. Como designer, acredito profundamente no poder do design como catalisador para transformar comunidades e reimaginar os espaços urbanos.

As discussões económicas também refletiram as tensões globais. Christine Lagarde (presidente do Banco Central Europeu) descreveu os desafios da Europa como uma “ameaça existencial”, destacando a necessidade de reagir com rapidez e unidade. Enquanto os EUA simplificam as regulamentações para atrair startups e fomentar inovação, a Europa enfrenta o dilema de competir globalmente sem comprometer os seus valores. Ursula von der Leyen (presidente da Comissão Europeia) reforçou o compromisso de criar condições para que as startups prosperem na União Europeia, destacando que competitividade e sustentabilidade devem andar de mãos dadas.

Uma das aprendizagens mais marcantes em Davos foi o privilégio de dialogar com referências de pensamento multidisciplinar como Kristalina Georgieva, Andrew Ng, Muhammad Yunus, Riken Yamamoto, Fabiola Gianotti, Misty Copeland e Edith Heard, cujas visões reforçaram a importância de abordagens interdisciplinares para enfrentar os desafios globais.

Estar em Davos foi um lembrete poderoso de que o futuro depende das nossas ações coletivas. Uma oportunidade para amplificar a voz da juventude como motor de transformação social e celebrar o potencial da colaboração global. O “Otimismo Coletivo” é mais do que uma ideia; é um apelo à ação. Como Klaus Schwab sabiamente disse, o futuro será definido não pelo que sabemos, mas pelo que estamos dispostos a construir juntos. Que este seja o início de um caminho onde a imaginação e a coragem nos guiem para um mundo mais justo e sustentável.

O Observadorassocia-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.