Confesso: fico sempre irritada quando alguém me diz que já se inventou tudo. Que é impossível ser original. Desculpe dizer, mas se acredita nisso, é porque a sua curiosidade foi drenada — e precisa urgentemente de combustível. A imaginação não desapareceu; o que desapareceu foi a vontade do espanto.

Porque, se tudo já tivesse sido feito, como explicaríamos algas que se transformam em garrafas para beber água? Ou brincos com câmaras camufladas que conseguem fotografar agressores e alertam a polícia quando estamos em perigo? A cada momento, alguém do outro lado do planeta olha para o óbvio e decide torcê-lo até que se revele insólito. O que nos parece banal esconde segredos para quem insiste em perguntar “e se…?”.

A história prova isso mesmo. A roda não surgiu uma única vez; foi reinventada inúmeras vezes, em vários materiais e novos contextos. A lâmpada não morreu com Edison, nem a música clássica com Mozart. Tudo pode renascer quando a curiosidade se atreve a desafiar o manual. O verdadeiro inimigo não é a repetição, é a desistência.

E aqui chegamos ao coração do problema: a educação. As nossas escolas, muitas vezes desenhadas para uniformizar, não para libertar, são máquinas de domesticação do inesperado. Desde cedo, o aluno aprende que há apenas uma resposta certa, uma nota justa, um caminho aprovado. Mas como podemos esperar mentes criativas se lhes cortamos as asas desde tenra idade?

A Curiosidade é mais do que um nice to have; é o motor que nos distingue de algoritmos. Sem ela, tornamo-nos fotocópias em série, repetindo padrões com eficiência mas sem alma. É por isso que o desenho da escola de hoje é mais crucial do que nunca. Precisamos de estufas de imaginação, não de fábricas de conformismo.

Felizmente, existem contraexemplos inspiradores. No Japão e na Suécia, muitos professores tratam a brincadeira como a verdadeira “obra da criança”. Uma cadeira pode ser um barco, uma sombra pode ser um monstro — e isso não é visto como perda de tempo, mas como treino para a criatividade futura. No Japão, por exemplo, o sistema yōchien (jardins de infância) incorpora atividades de livre exploração e já existem escolas primárias que destinam até 13% do tempo lectivo à aprendizagem lúdica, ligando-a a competências científicas e tecnológicas. Na Suécia, o modelo educativo de Estocolmo e Malmö integra programas como o Lekfull Lärande (“aprender a brincar”), com impacto direto em resultados: alunos suecos em escolas que adotam esta abordagem mostram 10 a 15 pontos acima da média da OCDE em indicadores de criatividade e resolução de problemas (PISA 2022).

Em Portugal, apesar de uma tradição escolar mais centrada na memorização, começam a surgir experiências semelhantes. O caso mais emblemático é o TUMO Portugal, com centros já abertos em Lisboa, Coimbra e mais recentemente no Porto. Trata-se de um modelo importado da Arménia, focado em artes criativas e tecnologia, onde adolescentes entre os 12 e os 18 anos aprendem programação, design, música digital ou cinema de forma 100% extracurricular e gratuita. Em apenas dois anos, o TUMO Portugal já conta com mais de 2.000 jovens inscritos, muitos deles oriundos de contextos menos favorecidos, mostrando como a criatividade pode ser democratizada quando é pensada como política pública e não apenas como luxo pedagógico.

Claro que há um paradoxo. Queremos ordem, queremos exames, queremos métricas. Mas também queremos alunos que olhem para o exterior e que vão contra a norma. A imaginação vive nesse lugar desconfortável entre protocolo e insubordinação.

Por isso, não: a imaginação não morreu. Está apenas a dormir, à espera de professores que a provoquem, de escolas que a reguem como sementes raras. O futuro não precisa de uma geração que “passa” em uníssono; precisa de múltiplos futuros, nascidos de mentes que recusam a ideia de que já não há nada de novo. Porque, no fundo, só existe morte da imaginação para quem desistiu desse fascínio.

O Observador associa-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.