Em 2025, Davos foi intenso, plural, por vezes contraditório. Falou-se de inteligência artificial, de clima, de confiança, de um mundo fragmentado à procura de novas formas de cooperação. Havia urgência, sim, mas também algo mais raro: uma abertura genuína à escuta. Nos corredores, longe dos discursos formais, sentia-se que muitas certezas estavam finalmente a ser questionadas.
Saí com a sensação de que já não estamos na fase da ingenuidade. E isso é uma boa notícia.
Ao olhar para o Annual Meeting de 2026, os temas não me surpreendem. Reconstruir a confiança, alinhar tecnologia com valores humanos, repensar sistemas económicos e sociais num mundo multipolar não são tendências anuais; são desafios a longo prazo. O que espero não é ruptura, mas aprofundamento. Menos velocidade, com mais intenção.
Este ano, acompanho Davos com um sentimento especial de continuidade. É um orgulho ver a comunidade portuguesa dos Global Shapers novamente representada entre as Youth Voices — desta vez pela Maria Loureiro, membro do Hub do Porto. Em 2025, foi um privilégio enorme poder representar esta comunidade em Davos, levando comigo histórias, inquietações e ambições que não são apenas minhas, mas coletivas. Em 2026, passo o testemunho com confiança e entusiasmo, certa de que a Maria continuará a ampliar essa voz com rigor, sensibilidade e impacto.
Hoje, sabemos que a inteligência artificial não é apenas uma ferramenta, mas uma infraestrutura cultural. Que a crise climática exige mais do que inovação tecnológica. Que a confiança não se decreta, constrói-se, com transparência, coerência e tempo. Em 2026, espero ver Davos assumir esse lugar de maturidade com mais compromisso na implementação.
Assistir à distância também amplia o olhar sobre acesso e participação. Davos continua a ser uma estrutura complexa, mas cada vez mais consciente da sua responsabilidade simbólica. O potencial está em usar a visibilidade dos holofotes para amplificar vozes diversas, criar pontes reais entre setores e geografias, e transformar conversas globais em colaborações contínuas que não acabam quando a neve derrete.
Como designer, continuo a acreditar no poder dos processos. Em 2025, vi como pequenas conversas geraram alianças improváveis, como as perguntas certas potenciaram a abertura de espaço para soluções que não estavam no guião.
Claro que o risco permanece. Davos pode tornar-se um ciclo confortável de boas intenções. Mas também pode ser outra coisa: um espaço onde se treinam decisões difíceis em conjunto, onde se experimentam novos modelos antes de eles se tornarem inevitáveis. Em 2026, escolho acreditar nessa possibilidade, porque o futuro não nasce de grandes declarações, mas de compromissos sustentados.
E talvez seja esse o verdadeiro papel de Davos hoje: não prever o amanhã, mas ajudar-nos a praticá-lo com mais coragem, imaginação e, sobretudo, um sentido imperativo de responsabilidade partilhada.
O Observadorassocia-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.