Há lugares que dizem muito mais do que aquilo que se vê. Taibeh, pequena aldeia cristã da Cisjordânia, é um desses lugares. Quando os seus habitantes são vítimas de ataques, incêndios, destruição de propriedades, ameaças às terras e se instala o medo de novos postos de colonos israelitas, não está apenas em causa o destino de uma pequena comunidade de cerca de 1.500 pessoas. A questão é muito mais profunda e prende-se com o futuro dos cristãos da Terra Santa.
Taibeh, antiga Efraim, o lugar onde, segundo o Evangelho de São João, Jesus se refugiou com os discípulos antes da Paixão, é hoje a última aldeia da Cisjordânia inteiramente cristã. Mas o seu verdadeiro significado não reside apenas na percentagem de habitantes cristãos, nem nas ruínas da igreja bizantina de São Jorge, cuja origem remonta ao século V. Está, sim, no facto de ali continuar a existir uma comunidade que não é um dado arqueológico, mas uma população viva, com famílias, crianças, velhos, profissionais, agricultores, escolas, trabalho, fé e esperança.
É precisamente esta dimensão que tantas vezes falta ao debate mediático e político sobre a Terra Santa: fala-se muito dos territórios, das fronteiras, da segurança e dos grandes conflitos políticos e militares, mas pouco das pessoas concretas que há séculos dão corpo e vida à sua história.
É bom recordar que os cristãos precederam os muçulmanos na Palestina, como lembrou o antigo ministro das Relações Exteriores da Autoridade Nacional Palestina, Riyad Al-Maliki, em 2021, e têm um passado comum com os judeus, no Antigo Testamento. A Igreja de Jerusalém é a Igreja Mãe, nascida no próprio coração dos acontecimentos fundadores do cristianismo. Ali foram anunciados o Evangelho, a Paixão e a Ressurreição; dali partiram os Apóstolos. São João Paulo II recordava a responsabilidade de toda a Igreja para com esta comunidade. E o Papa Bento XVI sublinhou a missão particular dos cristãos da Terra Santa na construção da harmonia entre comunidades diferentes.
Por isso, proteger os cristãos da Terra Santa não é conservar uma espécie de objectos religiosos. É defender as pedras vivas dos Lugares Santos. Uma basílica pode permanecer de pé; uma igreja pode ser restaurada; uma inscrição antiga pode ser preservada. Mas se desaparecerem as famílias, as crianças, as escolas e as paróquias, a Terra Santa corre o risco de conservar os seus monumentos e perder a sua alma.
Os números falam por si e deveriam provocar uma reflexão séria. Segundo dados oficiais publicados, os cristãos representavam cerca de 11% da população da Palestina em 1925; 8% em 1950; 3% em 1975; 2% em 2000; e menos de 1% em 2025. Em Belém, a transformação é ainda mais dramática: de 86% em 1950 estima-se que tenha reduzido para menos de 8% em 2025.
Não se trata apenas de demografia. Por detrás destes números estão décadas de emigração, dificuldades económicas, conflitos, insegurança e feridas que tardam em cicatrizar. E está sobretudo uma geração jovem que começa a perguntar se ainda existe futuro para ela na terra onde nasceram os seus pais e avós. Problema que se agrava quando comparado, através da internet e televisões, com o estilo de vida dos jovens em outras regiões do mundo.
É aqui que o silêncio se torna particularmente incómodo. A diminuição da presença cristã raramente ocupa o espaço mediático proporcional à sua importância histórica e humana. Os cristãos são uma minoria pacífica e, precisamente por isso, têm menos capacidade de fazer ouvir a sua voz. Mas uma minoria silenciosa não é uma minoria dispensável.
Taibeh tornou esse drama visível. Os ataques recorrentes iniciados em 2025 e continuados em 2026, as ameaças às propriedades e às terras e a insegurança sentida pelos habitantes mostram como a violência pode produzir um resultado ainda mais profundo do que o dano imediato: convencer uma família de que já não é possível construir ali uma vida normal.
A visita do Patriarca Latino de Jerusalém, Cardeal Pierbattista Pizzaballa a Taibeh, em Agosto passado, teve, por isso, um significado que ultrapassa aquela aldeia. Pizzaballa afirmou que a Igreja fará tudo o que estiver ao seu alcance para preservar a presença cristã na Terra Santa. E deixou uma mensagem que é simultaneamente espiritual e profundamente humana: permanecer, viver, não abandonar o direito à vida, ser corajosos e não ceder ao medo.
Mas o facto é que a Igreja não pode fazê-lo sozinha.
O Patriarcado Latino de Jerusalém tem desenvolvido um trabalho essencial de apoio às comunidades, e a rede de instituições da Igreja — dos Franciscanos à Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro de Jerusalém, da AIS à Cáritas e outras organizações de ajuda — demonstra que caridade e ajuda não podem ser apenas intenções. É preciso apoiar escolas, hospitais, habitação, emprego, agricultura, pequenas empresas e iniciativas que ofereçam aos jovens razões concretas para permanecer.
Também as peregrinações podem ser uma forma extraordinária de comunhão e apoio. Não como turismo religioso, como quem visita um museu, mas como encontro com uma Igreja viva. Ir à Terra Santa, rezar com as suas comunidades, conhecer as suas dificuldades, comprar nas suas lojas e bazares, visitar as suas instituições e mostrar aos cristãos que não estão esquecidos é uma forma concreta de estar com a Igreja Mãe de Jerusalém.
A comunidade internacional tem igualmente obrigações. Não basta condenar a violência. É necessário trabalhar para criar condições políticas, diplomáticas e económicas que permitam às famílias viver com segurança, liberdade, dignidade e perspectivas de futuro.
Não poderemos aceitar a ideia de que o desaparecimento dos cristãos é inevitável. Há uma dimensão política que não pode ser ignorada. A presença cristã constitui também um factor de humanização e de estabilidade numa região marcada pela polarização, pela violência e pela desconfiança. Os valores que os cristãos procuram testemunhar – a dignidade de cada pessoa, o respeito pelo outro, a liberdade religiosa, o perdão, a caridade, a educação e a sã convivência entre comunidades – podem ser um contributo concreto para reconstruir pontes onde hoje existem muros. Defender a sua permanência não é, por isso, apenas uma questão religiosa ou humanitária: é também apostar numa sociedade mais plural, mais equilibrada e mais capaz de encontrar caminhos de paz.
A Terra Santa não pertence exclusivamente a uma religião, a um povo ou a uma narrativa. É um lugar de encontro, precisamente porque ali se cruzam histórias, culturas e tradições. Os cristãos podem e devem ser parte dessa convivência. Não como espectadores do conflito, mas como “sal, luz e fermento”, na expressão do Cardeal Pizzaballa.
Taibeh é um sinal e um ponto de partida. A verdadeira questão é toda a Terra Santa.
E talvez seja tempo de o mundo compreender que defender a presença cristã não significa escolher um lado contra outro. Significa escolher a dignidade humana, a pluralidade, a memória e a possibilidade de um futuro comum.
Porque uma Terra Santa sem cristãos poderia continuar a ter igrejas, santuários e pedras antigas. Mas seria uma Terra Santa profundamente mais pobre onde Cristo, depois da traição de Judas, seria de novo traído.