Imagine-se uma aldeia com um único poço. Durante gerações, os seus habitantes trabalharam para o manter cheio. Uns traziam água, outros abriam canais, outros reparavam as margens. Os mais velhos bebiam dessa água porque tinham passado uma vida inteira a contribuir.
A aldeia foi crescendo. Vieram pessoas de fora. Algumas trouxeram água, trabalharam e passaram a contribuir para o poço, enquanto outras pouco ou nada acrescentaram. E algumas descobriram até que era possível beber sem que ninguém reparasse na sua ínfima contribuição.
A preocupação instalou-se e a pergunta tornou-se inevitável: quem está a encher o poço e quem está apenas a beber a sua água?
Esta metáfora poderá ajudar a compreender uma das questões cuja decisão os governos mais temem e que os portugueses, sobretudo jovens, anseiam ver resolvida: a sustentabilidade da Segurança Social e a justiça na distribuição dos recursos públicos.
A Segurança Social é um contrato social que assenta num pacto entre gerações. Quem hoje trabalha e desconta financia, em grande medida, as pensões de quem trabalhou ontem, esperando que amanhã uma nova geração faça o mesmo. Mas Portugal envelhece, nascem poucas crianças, muitos jovens partem e os salários continuam baixos.
Os dados mais recentes da Unidade Técnica de Apoio Orçamental mostram que, no presente, o poço tem água. Nos primeiros sete meses de 2026, a Segurança Social registou um excedente de 4,4 mil milhões de euros, mais 37,4% do que no mesmo período de 2025, o valor mais elevado da última década para este período.
O resultado foi sustentado pelo aumento de 7,3% das contribuições sociais e por uma despesa que cresceu 4,4%, abaixo dos 9% previstos no OE2026. A despesa com pensões aumentou 4,3%, contra 6,1% previstos, e as restantes prestações sociais cresceram 5,8%, contra 12,2% orçamentados. A população empregada aumentou 2,9% e a remuneração média mensal cresceu 5,1% em termos nominais.
São números positivos, mas não eliminam o desafio estrutural. Em 2025, segundo o Conselho das Finanças Públicas, a despesa pública com pensões atingiu 37,6 mil milhões de euros, mais 47,6% do que em 2015.
É neste contexto que deve ser discutida a imigração, sem complexos e preconceitos, mas também sem ingenuidade. Em 2025, os estrangeiros representavam 19,7% dos contribuintes e as suas contribuições ultrapassaram 4 mil milhões de euros, cerca de 14% do total. Os trabalhadores estrangeiros que trabalham e descontam são, portanto, uma importante fonte de financiamento. Mas aumentar o número de trabalhadores não significa automaticamente aumentar a riqueza do País: se a imigração preencher sobretudo empregos de baixos salários e produtividade, não resolve os problemas estruturais.
É necessário saber quem entra, quem trabalha, quanto desconta e qual o impacto sobre habitação, escolas, transportes, Segurança Social e SNS. E é indispensável controlar as prestações. Não existe um número rigoroso que permita afirmar quantos estrangeiros vivem de subsídios e que nada contribuem. Existem, contudo, pagamentos indevidos: 159 milhões de euros detectados entre 2024 e Junho de 2025 e 76,5 milhões detectados e poupados em 2026 no combate à fraude.
Isto não significa que tudo seja fraude. Significa, sim, que o controlo deve ser exercido com rigor, justiça e bom senso, aplicando-se de igual forma a todos, portugueses ou estrangeiros.
É difícil compreender e aceitar, sobretudo para quem trabalha diariamente em instituições de apoio a populações dependentes, que existam profissionais que cuidam dos outros por remunerações inferiores aos apoios sociais de que alguns dos seus utentes beneficiam. Esta realidade merece ser analisada com seriedade, porque pode gerar um sentimento de injustiça entre quem trabalha, desconta e contribui para o sistema e quem dele depende.
Quem precisa deve ser ajudado e quem tem direito deve receber. Mas quem oculta rendimentos, acumula indevidamente prestações ou continua a receber depois de deixar de reunir as condições deve ser detectado e responsabilizado.
O mesmo princípio vale para o SNS. Portugal deve tratar quem está doente, mas deve também garantir que as despesas legalmente da responsabilidade de outros países, seguradoras ou entidades sejam efectivamente cobradas. A conta que o Estado não cobra não desaparece: é suportada pelos contribuintes.
O verdadeiro problema não é a protecção social. É a falta de responsabilidade que pode acompanhá-la. Uma rede social deve proteger quem cai. Não pode é transformar-se num incentivo para os que não se querem levantar.
E há uma geração que tem razões para estar inquieta: os jovens que hoje descontam. São eles que financiam o sistema actual e esperam encontrar amanhã uma Segurança Social capaz de lhes pagar uma pensão digna.
Os dados recentes mostram que, pelo menos no presente, o poço está longe de estar vazio. Há mais pessoas a trabalhar, as contribuições cresceram e a despesa aumentou menos do que o previsto.
Mas essa realidade não elimina a pergunta fundamental: quem estará a trazer água para o poço daqui a vinte ou trinta anos?
Não devemos transformar o imigrante no culpado de todos os problemas. O imigrante que trabalha, desconta e participa na economia é parte da solução. Mas também não podemos transformar a imigração num tabu que impeça discutir os seus custos, benefícios, dimensão e consequências.
Portugal precisa de imigração, desde que seja regulada, fiscalizada e integrada. Precisa também de combater a fraude e a economia paralela, aumentar salários e produtividade, promover a natalidade e gerir melhor os recursos públicos.
Voltando ao poço: o problema não é haver gente nova a beber água. É, antes, não saber quantos bebem, quanto consomem, quem enche o poço e se a água que entra é suficiente para matar a sede de amanhã.
Os fundos da Segurança Social não são inesgotáveis. E as decisões que hoje tomamos terão de ser pagas pelas gerações seguintes que terão de contribuir para manter o sistema. Não se pode exigir aos jovens que descontem durante toda a vida sem lhes dar a garantia de que encontrarão, no futuro, um sistema financeiramente capaz de os proteger.
Chegará, certamente, o dia em que serão os jovens de hoje que permanecerem na aldeia a aproximar-se do poço à procura de água.
E a questão que eles colocarão é saber se, enquanto ainda havia água, nós, os mais velhos, tivemos a coragem e preocupação de encher o poço, abrir novos canais e preparar outras fontes, ou se deixámos essa responsabilidade para quem chegar depois de nós, quando a última gota de água estiver prestes a secar.