A recente tomada de posição por parte de Donald Trump sobre a guerra na Ucrânia veio provocar um abalo nos alicerces da ordem internacional estabelecida, tendo as suas “ondas de choque” ultrapassado em muito as fronteiras do conflito russo-ucraniano.

Com o anunciado escopo de pôr termo a um conflito armado que decorre no continente europeu, Donald Trump não apenas ignorou a União Europeia como foi estender a mão ao agressor Putin gizando com este soluções para o fim da guerra, à revelia de Zelensky e das aspirações legítimas dos ucranianos, numa clara inversão daquele que era o posicionamento da administração norte-americana desde o inicio do conflito.

A Ucrânia sabe agora que perdeu um aliado essencial e uma das principais fontes de apoio para a aquisição de equipamento militar.

A Europa, essa, foi “ultrapassada pela direita”…..

Mas se a Ucrânia e a Europa ficaram atónitas perante esta inesperada inversão da política externa norte-americana, não menos preocupados estão os países da área do Indo-Pacífico.

Nações como o Japão, a Coreia do Sul ou a Austrália sempre tiveram nos Estados Unidos um aliado essencial para a segurança daquela região que contrabalançasse o poderio e influencia da China na região, assim como da ameaça nuclear norte-coreana. Também Taiwan receia há muito uma invasão por parte da China e tem no apoio norte-americano a única garantia da sua independência.

Desde o início do conflito russo-ucraniano que a China vem monitorizando a resposta norte-americana àquele conflito, tentando perceber as possíveis reacções dos Estados Unidos da América e dos seus aliados do pacífico a uma possível invasão de Taiwan.

A percepção de que a actual administração norte-americana não pretende contrariar a guerra de agressão desencadeada pela Rússia contra a Ucrânia, pode levar a que a China arrisque testar uma invasão de Taiwan e aguarde por ver qual a reacção dos Estados Unidos da América e os seus aliados na região. Na verdade, a segurança no Pacífico está militarmente dependente do apoio e intervenção que os Estados Unidos da América entendam prestar.

O Japão tem desde o final da Segunda Guerra Mundial disputas territoriais com a China e a Rússia, respectivamente quanto às ilhas Senkaku e aos denominados “Territórios do Norte”. E está permanentemente na linha de trajectória dos ensaios de misseis nucleares norte-coreanos.

Contudo, desde o final da Segunda Guerra Mundial que está impedido de ter forças militares, por força da sua constituição, dispondo apenas das denominadas “Forças de Autodefesa do Japão” as quais não tem capacidade, só por si, de repelir um ataque nuclear como pode ser desenvolvido pela Coreia do Norte.

Sem o apoio militar norte-americano, a segurança do Japão fica comprometida. Não admira, por isso, que o primeiro-ministro japonês Shigeru Ishiba tenha sido um dos primeiros chefes de governo a ter reunido com Donald Trump, após a tomada de posse deste, procurando obter compromissos de que a cooperação para a segurança no Indo-Pacífico será para manter. Por outro lado, a Coreia do Sul vive na angústia permanente de um confronto nuclear com a Coreia do Norte. E não obstante não ter as mesmas restrições constitucionais quanto à possibilidade de ter forças militares, ela depende também de um apoio norte-americano directo para garantir a sua defesa. Pelo que, a definição das prioridades da política externa norte-americana e da sua estratégia militar de segurança e defesa para o Indo-Pacífico não são indiferentes para a Coreia do Sul.
Acresce ainda que uma mudança na política externa norte-americana, terá implicações em plataformas como a “AUKUS” (pacto de segurança trilateral celebrado entre Austrália, Reino Unido e Estados Unidos da América) ou a “QUAD” (aliança entre a India, Austrália, Estados Unidos da América e Japão), as quais constituem alianças militares e fóruns de diálogo vocacionados para discutir e reforçar a segurança no Indo-Pacífico.

Assim, não só na Ucrânia e na Europa mas também no Indo-Pacífico se aguarda com expectativa os “próximos episódios” da imprevisível administração de Donald Trump, onde tudo soa a novidade e ruptura.

O tempo das certezas parece ter acabado por terras do “Tio Sam”. A única certeza é a incerteza