A filosofia tem, desde os seus primórdios, uma vocação que simultaneamente a engrandece e a expõe ao ridículo: a de ousar dizer o que pareceria, a qualquer outro, insensato. O pensamento filosófico nunca se contentou com os limites do plausível; pelo contrário, sempre se alimentou do risco de enunciar aquilo que, à primeira vista, desafia a razão ou a decência do senso comum. É por isso que os filósofos são frequentemente acusados de extravagância. Que outro ofício se permite especular sobre a possibilidade de vivermos num sonho eterno, de sermos meras sombras projetadas na parede de uma caverna, de estarmos presos a uma vontade cega que se repete sem finalidade? Que outra disciplina se atreve a pôr em causa a realidade do tempo, a identidade do eu ou a existência do próprio mundo? A filosofia ousa dizê-lo e é precisamente nessa ousadia que reside a sua grandeza.
O escândalo, porém, não está no conteúdo isolado dessas proposições, mas no gesto que elas encarnam. Dizer o que parece absurdo é desafiar a clausura do já sabido, é abrir uma fresta onde se julgava haver parede. Quando Tales afirmou que “tudo é água”, não pretendia oferecer uma tese científica: propunha, antes, uma rutura. O cosmos poderia reduzir-se a uma unidade oculta sob a multiplicidade. O mesmo se aplica a Parménides, que negava o movimento, ou a Zenão, que nos oferecia paradoxos que até hoje nos desconcertam. O valor destas afirmações não se mede pelo seu grau de literalidade, mas pela sua capacidade de forçar o pensamento para além do óbvio.
Importa notar, todavia, que esta liberdade do filósofo não é licença para a arbitrariedade. O filósofo não é um mero excêntrico que coleciona disparates. A aparente insensatez das suas palavras obedece a uma lógica mais profunda: provocar, desconcertar, obrigar a mente a sair da inércia. O absurdo dito com rigor é um instrumento de clarificação, não um capricho. Sem esse gesto, a filosofia tornar-se-ia repetição do senso comum, comentário servil do que já está estabelecido. Convém também recordar que muitas das teses que outrora pareceram delirantes são hoje parte do nosso horizonte de obviedades. A ideia de que a Terra gira em torno do Sol foi, em tempos, condenada como heresia. A conceção de que o homem não ocupa um lugar central no cosmos parecia intolerável. O mesmo sucedeu com tantas descobertas científicas e conceções filosóficas que, de início, soavam a provocação. O que ontem se julgava disparate, hoje se reconhece como intuição genial.
Deste modo, a filosofia desempenha uma função paradoxal: protege-nos da ilusão da evidência. Aquilo que todos consideram óbvio pode esconder o maior dos equívocos. O filósofo, ao dizer o impensável, recorda-nos que pensar é, antes de tudo, não se render ao peso do hábito. Claro que tal ousadia tem o seu preço. O filósofo é, muitas vezes, alvo de troça, quando não de perseguição. Sócrates morreu acusado de corromper os jovens com ideias demasiado ousadas. Espinosa foi excomungado pela mesma razão. Nietzsche foi ridicularizado em vida pelas suas afirmações desmedidas. Mas talvez a medida da filosofia seja precisamente essa: suportar o risco de parecer louco para não trair a exigência de pensar até ao fim.
O que parece insensato, quando dito filosoficamente, não é ruído, mas um clarim. É o sinal de que ainda não desistimos da aventura de pensar o impossível. É por isso que não devemos temer o excesso do filósofo, mas antes suspeitar da moderação excessiva que adormece. No fundo, o que se diz na filosofia não é apenas “dito”: é o mundo que se abre pela palavra. Mesmo a frase mais desconcertante é já uma promessa de visão, uma tentativa de romper os limites do que acreditamos inamovível. Assim, mais perigoso do que um filósofo que diz o absurdo, é um filósofo que só diz o que todos já pensam.