Quando se procura explicar a emigração da mão de obra qualificada portuguesa, tende a fixar-se apenas no salário nominal: lá fora ganham-se melhores salários. Sim, e não. Essa metonímia é, no máximo, apenas e só uma meia-explicação. O que decide a vida quotidiana não é apenas o valor do vencimento em abstrato, mas a sua conversão em rendimento disponível: quanto sobra, com regularidade, depois de assegurados os bens e serviços indispensáveis.
O contraste revela-se com clareza num exercício simples: vamos observar um país da UE em que se ganha menos; logo, pouco atrativo segundo o critério salarial. Mas será assim?
Tomemos o exemplo de um docente universitário no patamar líquido mais baixo em Riga (Letónia) e em Lisboa. Em Riga, 1 478 €; em Lisboa, 1 918 €. Se, porém, introduzirmos o primeiro filtro do valor real desse vencimento, a habitação, o cenário inverte-se de imediato. Admitindo um T1 por 450 € (renda normal) em Riga e 1 100 € em Lisboa (com sorte encontra-se), o peso da renda sobre o rendimento é de cerca de 30% no primeiro caso e 57% no segundo. Restam 1 028 € em Riga e 818 € em Lisboa. O “melhor salário” português perde, logo à partida, a vantagem que aparentemente apresentava.
Mas piora: passemos à alimentação. Por absurdo, imaginemos, por absurdo e apenas para este exercício, que o dito docente universitário em início de carreira se alimenta exclusivamente de esparguete à bolonhesa, todos os dias: a cada três dias uma embalagem de esparguete (500 g), 200 g de carne picada diários, de dois em dois dias 200 ml de tomate em calda, e 6 g de sal por cada 500 g de massa. Desconsiderando água e energia de confeção, o custo mensal estimado é de 35,79 € em Riga e 43,56 € em Lisboa. Sobram, assim, 992,21 € e 774,44 €, respetivamente.
Acrescentemos a energia doméstica. Para um T1 com uma pessoa, 200 kWh/mês é uma ordem de grandeza plausível. Com 7,47 cêntimos/kWh em Riga e 14,24 cêntimos/kWh em Lisboa, o total aproxima-se de 14,00 € face a 28,48 €. O saldo desce para 978,21 € em Riga e 745,96 € em Lisboa.
Finalmente, a mobilidade individual, frequentemente inevitável. O mesmo automóvel (modelo compacto de marca francesa) custa 19 890 € na Letónia e 21 990 € em Portugal; diluindo por 48 meses, 414,00 € e 458,00 €. Somando combustível (1,43 €/l em Riga e 1,73 €/l em Lisboa) para 500 km/mês, com 6 l/100 km, obtemos 42,90 € e 51,90 €. O remanescente mensal fica, assim, em 521,31 € em Riga e 236,06 € em Lisboa. E ficam a faltar os cálculos de despesas de água, gás, saúde, seguros, vestuário, comissões bancárias e demais despesas.
É aqui que reside o ponto político e económico: o debate público que reduz a emigração a “salários baixos” falha o essencial. O poder de compra é o vencimento – custo de vida. Ao aumentarem os salários, não se irá controlar os acertos imediatos dos preços de tudo, desde habitação, alimentação e serviços. Aliás, vão justificar o aumento proporcional ao aumento dos salários. A transformação tem de iniciar-se na ética da estrutura de preços e medidas de incentivo à descida de preços de habitação, alimentação, energia e custos financeiros.
O problema estrutural português é a compressão do rendimento disponível por uma arquitetura de custos onde a habitação assume centralidade esmagadora e arrasta, por contágio, tudo o resto. Num quadro assim, emigrar torna-se menos uma ambição de enriquecimento e mais uma tentativa de recuperar normalidade económica.
A evidência comparativa é corroborada por instrumentos de referência usados internacionalmente. No Numbeo, Cost of Living Rankings (2025), Lisboa e Riga surgem com custo de vida praticamente idêntico sem renda (51,5 em Lisboa e 51,4 em Riga), com nuances em mercearias (47,9 em Lisboa e 45,4 em Riga) e restauração (50,7 em Lisboa e 55,2 em Riga), mas com divergência expressiva quando se inclui a habitação: o índice “cost of living plus rent” é 46,3 em Lisboa e 34,9 em Riga, refletindo também um “rent index” de 39,5 em Lisboa contra 13,6 em Riga. No mesmo quadro, o “local purchasing power index” é 59,3 em Lisboa e 88,0 em Riga. Ou seja: não é Riga que “é mais cara”; é Lisboa que se tornou estruturalmente difícil de sustentar para quem trabalha.
Portugal tem um problema ético nos preços e não unicamente nos rendimentos: margens exageradas, pressão especulativa, impostos e contribuições, produziram um custo de vida que, para a grande maioria, já não é compatível com o trabalho qualificado nem altamente qualificado. Em terra de poucos médicos e de menos Doutores, enquanto a política pública não enfrentar, com seriedade, a crise da habitação e a formação de preços nos bens essenciais, a emigração continuará a ser, para muitos, a resposta racional a um país que transformou o indispensável num luxo.