Numa altura em que a administração norte-americana avança com a possibilidade de comprar a Gronelândia, a curiosidade geral aperta e alguém se levanta na audiência e pergunta, em voz colocada: “Mas afinal quanto vale a Gronelândia?” Então vamos a contas.

O Alasca foi comprado pelos EUA ao Império Russo em 1867 por 7,2 milhões de dólares. Na época, muitos chamaram-lhe loucura: pagar por um “calhau de gelo”. Hoje, esse montante equivale a 157 680 972,97 dólares; ajustando pela área (a Gronelândia tem 2 166 086 km², cerca de 21% maior do que o Alasca), dá um valor indicativo de 190 milhões de dólares. De facto, esse valor nem daria para dar entrada. Não estamos em 1867.

Vamos ao resto, ponderando alguns fatores que não contavam em 1867: terras raras (REE, rare earth elements), petróleo e gás natural. Adicionalmente, juntaremos algo não ponderado na venda do Alasca, o ouro, e outro elemento fundamental num mundo hiperpopuloso: o potencial alimentar piscícola da Gronelândia, estimado a 50 anos.

Comecemos pelo ouro: o GEUS, ao sintetizar Nalunaq, aponta 1,01 milhões de onças (medidas + indicadas + inferidas). Ao preço spot de 7 de janeiro de 2026 (4 449,38 USD/oz), isto dá:
4,5 mil milhões USD.

Agora as “terras raras”, o termo que inflama as conversas. No GO29 do GEUS, dois depósitos sobressaem: Kvanefjeld, com 11,1 milhões de toneladas de óxidos de terras raras (TREO) contidos, e Kringlerne, com 30,5 milhões — juntos, mais de 41 milhões de toneladas de REO contido. Apesar de não existir um preço único para “TREO”, um cesto dominado por cério e lantânio vale pouco; um cesto rico em Nd/Pr (e, sobretudo, Dy/Tb) muda completamente a conta. Por isso, a única forma séria de falar de valor é construir cenários. Se assumirmos 25 USD/kg para o conjunto dos óxidos (valor intermédio), só estes dois depósitos sugerem:
1,04 biliões USD.

Passemos ao petróleo e ao gás. Uma avaliação do USGS (9 de julho de 2025) para a província de West Greenland fala em médias de 7,8 mil milhões de barris de petróleo e 91,9 Tcf de gás “não descobertos, tecnicamente recuperáveis”. Se valorizarmos a preços de produção, com Brent a 60,09 USD/bbl e o gás a 2,82 USD/MMBtu, a ordem de grandeza ronda:
737 mil milhões USD.

E há um fator que 1867 ignorava por completo: comida. Em 2023, as capturas em águas da Gronelândia rondavam 244 mil toneladas (peixe e marisco), com o camarão a representar 48% do peso. Cinquenta anos de exploração significam 12,2 milhões de toneladas. Sendo que a maior parte do peixe é bacalhau, a cerca de 9 000 USD por tonelada, e o camarão ronda 6 600 USD por tonelada. O valor de 50 anos de exploração piscícola é:
99,3 mil milhões USD.

Então, qual é o “asking price” da Gronelândia com estes fatores?
1,9 biliões de USD — o que, nos EUA, chamam de “trillion”, visto que, no uso americano, “billion” corresponde a mil milhões. Para não haver confusão: 1 900 000 000 000 USD.

Isto representa 36% de toda a receita anual dos EUA num ano e 65 vezes a receita anual da Dinamarca.

Todavia, não foram calculados ambiente, financiamento e soberania. O valor real está na combinação rara de escala territorial, posição estratégica e recursos críticos — e isso não cabe num cheque; cabe em decisões políticas, em investimento e, sobretudo, no consentimento de quem lá vive. Por falar nisso, o valor que indiquei distribuído por cada habitante da Groenlândia seria 33,5 milhões USD/hab. Todos os Kalaallit (groenlandeses) poderiam ficar milionários!