Oferecer presentes é, em teoria, um dos gestos mais bonitos que fazemos uns pelos outros. Vemos algo numa montra ou no corredor de um hipermercado, imaginamos a cara da outra pessoa a sorrir e, num impulso emocional, fazemos aquela compra de oportunidade, entre duas outras tarefas, mas carregada de boa intenção. Nas últimas décadas, esse impulso foi bem capturado pelo marketing: em vez de objetos, oferecem-se “momentos”, “memórias”, “experiências únicas”. Soa mais profundo do que uma camisola ou uma garrafa de vinho. Mas será mesmo?

A prenda ideal, do ponto de vista psicológico e social, procura três coisas simples: mostrar afeto, ser minimamente útil e não criar problemas a quem a recebe. Os packs de experiências prometem exatamente isto: liberdade de escolha, tempo para marcar, variedade de opções. Quem oferece sente-se moderno, criativo, quase um curador de felicidade. O gesto emocional fica satisfeito no momento da compra, muitas vezes reforçado por slogans sedutores que criam um halo positivo, como “perfeito”, “experiência de topo”.

O problema é que, muitas vezes, o que se compra não é uma experiência, é a possibilidade teórica de, um dia, talvez, se conseguir uma experiência. Lê-se a letra grande da caixa, mas não a letra pequena das condições gerais! E nas surpresas dentro da caixa constam datas limitadas, parceiros com vagas escassas, suplementos obrigatórios, necessidade de registos em múltiplos sites, renovações com prazos rígidos e ausência de reembolso. Do lado de fora, emoção; do lado de dentro, burocracia e dores de cabeça.

Uma rápida pesquisa por avaliações e reclamações mostra um padrão repetido: packs que exigem pagamentos extra elevados para concretizar a estadia, hotéis que praticamente nunca têm vagas para vouchers, experiências anunciadas que afinal já não existem ou estão muito longe da zona de residência. Para quem oferece, tudo correu bem: pagou, entregou, sentiu-se generoso. Para quem recebe, começa ali uma pequena via-sacra.

No meu caso, ofereceram-me um pack que me dava direito a ver um jogo em casa do meu clube. Não um jogo concreto, nem um bilhete na mão: um voucher que, em teoria, me permitiria estar nas bancadas. Para o ativar, tive de aceitar um conjunto de condições. A principal era esta: eu teria acesso a um jogo em casa, mas apenas para os bilhetes que fossem ficando disponíveis, mediante um processo de adesão que abria durante poucas horas, anunciado por e-mail. Nos primeiros seis ou sete jogos em que tentei, fazia o que quase qualquer pessoa faz: via o e-mail ao fim do dia e tentava aderir. Sempre sem sucesso. Os lugares “elegíveis” já tinham desaparecido. Aprendi a lição e passei a ir logo a correr ao site assim que recebia o e-mail. Nada. Jogo após jogo, durante dois anos, nunca consegui converter o tal direito abstrato numa entrada real no estádio.

Pedi renovação, mas quando o prazo se aproximou do fim, a resposta trouxe mais uma quantidade de condições: nomeadamente o pedido teria de ser feito exatamente dentro do 24.º ao 27.º mês. Confesso que, naquele momento, em vez de entusiasmo pelo jogo, só sentia cansaço pelo processo exasperante. O presente de Natal transformara-se numa espécie de contrato armadilhado, em que o ónus estava sempre do meu lado.

A pessoa que me ofereceu este pack não sabia que na prática estava a dar-me um processo de tentativas falhadas e prazos absurdos. Só queria oferecer um bilhete, quis, genuinamente, fazer-me bem.

Quando oferecemos uma experiência, devemos perguntar: estou a dar algo que a pessoa pode realmente usufruir, com razoável facilidade, ou estou a ser vítima de um misto de compra emocional com viés de projeção, amplificado pelo efeito halo do marketing das ‘experiências”, que em concreto resulta apenas um potencial abstrato dependente de condições quase impossíveis? Em muitos casos, quem oferece está, sem saber, a comprar sobretudo marketing – e a verdadeira prenda acaba por ser outra coisa que ninguém quer receber: frustração embrulhada em papel colorido.