Por trás das portas de muitas Unidades de Cuidados Continuados em Portugal,  vivem profissionais cansados e doentes dependentes que mereciam mais. O que  começou como um projeto de esperança — a Rede Nacional de Cuidados  Continuados Integrados (RNCCI) — arrisca-se hoje a transformar-se num sistema  burocratizado, mal financiado, desajustado da realidade dos doentes e dos  profissionais, e sem rumo claro.

É urgente dizer o óbvio: a rede está a falhar. E está a falhar não por incompetência  dos que nela trabalham, mas porque as estruturas de decisão política e  administrativa têm vindo, sistematicamente, a ignorar os alertas de quem está no  terreno.

Financiamento insuficiente, cuidados em risco 

A RNCCI foi criada em 2006 com uma missão clara: oferecer continuidade de cuidados a doentes em situação de dependência. Mas os valores pagos por internamento mantêm-se praticamente inalterados desde então, enquanto os custos — com recursos humanos, medicamentos, alimentação e equipamentos  — dispararam. Hoje, muitas unidades só sobrevivem porque sacrificam  sustentabilidade ou recorrem a redes de apoio informal. Fala-se muito em humanização dos cuidados, mas como humanizar quando não há mãos suficientes, tempo suficiente, ou recursos mínimos?

Rácios obsoletos para uma realidade que já mudou 

O perfil dos doentes mudou radicalmente. Chegam-nos hoje utentes com quadros clínicos complexos, muitos em fim de vida, outros com doenças degenerativas e necessidades que exigem cuidados técnicos constantes. Mas os rácios de pessoal — sobretudo de auxiliares e enfermeiros — continuam a refletir um cenário de 15 anos atrás, quando a rede acolhia maioritariamente utentes com  autonomia parcial e recuperação previsível. Esta incoerência é mais do que um  erro técnico — é um risco ético e clínico diário.

Uma rede de referenciação que é um labirinto 

Outro ponto crítico é o sistema de referenciação. O que deveria ser uma via rápida e clara de acesso a cuidados transformou-se num processo opaco, moroso e altamente burocrático. A rede está bloqueada, não por falta de necessidades, mas  por um modelo de referenciação disfuncional, com critérios pouco uniformes e  comunicação deficiente entre unidades, centros de saúde e hospitais.

Reforma prometida, mas em banho-maria

Recentemente, foi iniciada uma tentativa de reformulação da RNCCI, com promessas de uma nova visão para o setor. No entanto, esta remodelação, apesar  das expectativas criadas, não contou com uma representatividade significativa  dos profissionais e gestores que diariamente enfrentam as falhas da rede. Com as  eleições antecipadas e a indefinição política atual, o processo está agora em  suspenso, mais uma vez relegado para segundo plano. E quem paga esta  paragem? Os doentes e os profissionais.

A exigência não pode continuar a ser apenas um fardo para quem cuida 

As exigências regulatórias continuam a aumentar: mais registos, mais auditorias, mais relatórios. Mas não há qualquer reforço proporcional dos meios humanos ou técnicos. Exige-se excelência, mas sem dar as condições para atingi-la. A equação é impossível de sustentar — e profundamente desmotivadora.

É tempo de mudar com coragem 

Chegámos a um ponto de rutura silenciosa. As unidades estão a tornar-se depósitos de frustração: para os doentes que não entendem a desorganização,  para os familiares que desesperam por respostas, e para os profissionais que,  com dedicação extrema, tentam fazer o impossível com quase nada.

A RNCCI precisa de uma mudança estrutural, não de remendos. Uma reforma real, com os olhos no futuro e os ouvidos no terreno. Uma rede que cuide — mas também que cuide de quem cuida.