Contextos adversos como o que vivemos atualmente funcionam, muitas vezes, como triggers de ativação da inovação para as empresas, nomeadamente em ecossistemas empreendedores. A transformação acelerada, imposta desde o início do surto, tem exigido um acompanhamento célere no desenvolvimento de novas tecnologias e soluções disruptivas, que facilitem a adaptação das pessoas à nova realidade. De acordo com os resultados do estudo preliminar “O Impacto da COVID-19 no Ecossistema de Startups Nacional”, realizado pela Startup Portugal em parceria com a EY e a SAP, cerca de 40% das startups inquiridas afirmam ter tido novas oportunidades de negócio resultantes da atual situação.

Apesar da sua dimensão, as startups são um importante driver de crescimento económico, pois fomentam ideias inovadoras que conquistam novos mercados ou transformam os já existentes, dinamizando a economia local e as cidades onde estão inseridas. A sua dimensão permite, também, uma maior adaptabilidade à mudança e maior flexibilidade na altura de ajustar o seu modelo de negócio à realidade do momento.

Porém, face ao impacto económico provocado pela atual crise sanitária, como é que têm vindo a responder as startups portuguesas aos vários desafios decorrentes da pandemia? Apresentamos aqui três exemplos.

Taikai

Esta plataforma aberta que nasceu com o objetivo de apoiar grandes empresas e startups no desenvolvimento de desafios de inovação, viu o seu business-as-usual impactado pela pandemia. De acordo com Mário Alves, CEO e fundador da empresa, parte das iniciativas que estavam planeadas para o início do ano foram canceladas ou adiadas, o que obrigou a Taikai a acelerar o processo de internacionalização e a adaptar-se ao novo modelo de trabalho virtual. “Tivemos que redirecionar os nossos esforços para regiões nas quais o nosso mercado não tinha estagnado e, ao mesmo tempo, acelerar o processo de desenvolvimento de produto para que este se tornasse uma ferramenta tecnológica autónoma, sem a necessidade de presença física para que as iniciativas ocorram”, afirma Mário Alves. A adaptação para um contexto mais virtual surgiu ainda como uma oportunidade para o lançamento de iniciativas de inovação aberta, reduzindo os custos de operação e logística, abrindo o espetro geográfico dos participantes e reduzindo o impacto ambiental. Quanto à previsão de investimento, Mário salienta  estar “neste momento à procura de investimento de modo a fecharmos uma ronda no final deste ano. Apesar do novo contexto económico, estamos confiantes que o valor do nosso produto atrairá os parceiros de investimento certos que nos ajudem no processo de expansão internacional”.

GetBoarded.com

Com a missão de ajudar a alavancar a marca pessoal dos profissionais em todo o mundo, a plataforma GetBoarded.com permite criar um CV online e, através de ferramentas de analytics e tecnologia AI, combinar as melhores oportunidades de trabalho para cada perfil. De acordo com Shivam, CEO e fundador da empresa, a atual situação impactou o modelo de negócio da startup a vários níveis. Por um lado, tiveram de transformar um negócio assente em oportunidades físicas num modelo assente em assistências virtuais; por outro, as ineficiências pré-pandemia existentes no meio corporativo reduziram significativamente com a transformação do paradigma do trabalho e atualmente o processo de decisão é mais rápido e simples. No que concerne a novas oportunidades, Shivam salienta que “antes da pandemia lutávamos para convencer as empresas que sistemas digitais assentes em dados eram importantes. Agora, as empresas estão mais abertas a contratar recursos além-fronteiras para trabalho remoto”. Quanto a financiamento, a GetBoarded.com está a acompanhar alguns subsídios e programas europeus, que têm como objetivo apoiar as startups a encontrar soluções sustentáveis para os desafios consequentes da Covid-19.

Luggit

Para uma startup, cujo core do seu negócio era o transporte e gestão da bagagem de turistas urbanos, a pandemia teve um forte impacto na sua operação e rentabilidade – com a impossibilidade de viajar, a sua base de clientes quase desapareceu. Contudo, a equipa não cruzou os braços. Segundo Ricardo Figueiredo, cofundador e CEO da empresa, a solução passou por criar um novo serviço com base numa necessidade emergente. O WeMoveIT, um serviço de transporte disponível nas cidades de Lisboa e Porto, possibilitou à população enviar bens (ex.: medicamentos, alimentos ou roupas) para familiares e amigos ou para associações de apoio a pessoas carenciadas durante o período de isolamento social. “O objetivo foi, primeiramente, consciencializar a população da importância de ficar em casa; e, segundo, ajudar os nossos keepers – as pessoas que recolhiam e entregavam as bagagens antes da pandemia”. Este novo serviço permitiu à Luggit adotar medidas de segurança e higienização no transporte de bens (agora estendido às bagagens), transmitindo maior confiança aos clientes.

Relativamente a perspectivas futuras, Ricardo destaca que “felizmente angariamos investimento da Portugal Ventures no final de 2019, o que nos permitiu ter uma estratégia que não depende de uma nova ronda para este ano”.

Numa altura em que adaptabilidade e agilidade são palavras de ordem para responder às necessidades do mercado e sobreviver à disrupção atual, é visível o legado dinâmico e robusto de um ecossistema que, apesar de jovem, é maduro em soluções inovadoras e de valor acrescentado para a sociedade e economia.