Passavam aproximadamente um mês e quinze dias desde que os meus pais tinham aterrado em Portugal.  Chegavam a um país estranho que nunca tinham pisado, a não ser através das páginas de livros escolares de  ensino, acomodado e distante. A minha mãe, grávida de mim, sendo a sua segunda filha, carregava no ventre a  incerteza de uma nova vida num território que desconhecia, mas de que ouvira falar: diziam que, em Portugal,  “o sol é gelado”. Nasci a 15 de novembro de 1975, no rescaldo de um verão quente que, para a minha família e  para tantos outros, tinha sido o inverno da alma.

Este Portugal que me recebeu vivia, e vive ainda, sob a égide de uma narrativa moral que raramente é  desafiada: a de que a justiça social e a caridade pública são propriedades exclusivas da esquerda, enquanto o  capital privado é, por natureza, um exercício de egoísmo. No entanto, uma análise desapaixonada aos dados e à  história recente do nosso país revela um paradoxo irónico. Se retirarmos a maquilhagem ideológica, percebemos  que os grandes centros de referência científica e social em Portugal foram erguidos com fortunas privadas  “malvadas”, enquanto certas instituições de referência da esquerda foram sustentadas, em larga escala, pelo  generoso e inesgotável erário público.

O contraste é quase folclórico. De um lado, temos o legado de António Champalimaud. O industrial de  topo deixou em testamento uma fortuna que hoje financia um dos centros de investigação oncológica e de  neurociências mais avançados do mundo. Temos a Fundação Belmiro de Azevedo, que transforma o lucro do  retalho em investimento na educação, e a Fundação Francisco Manuel dos Santos, que democratizou o acesso à  estatística com o portal PORDATA através de capital inteiramente privado. Nestes casos, o investimento é real,  o património é privado e o benefício é universal. É o “capitalismo de cartola” a fazer o que a retórica  revolucionária apenas promete: curar doenças e elevar o espírito através do conhecimento rigoroso.

No entanto, o espetro da generosidade portuguesa tem matizes mais complexos. É aqui que surge o caso  de Rui Nabeiro. O “patrão socialista” representa uma via diferente: a da economia social aplicada no terreno. Ao contrário dos outros, Nabeiro não sentiu a necessidade de deixar um grande centro de ciência abstrata ou de  doar um espólio documental ao Estado. O seu legado foi distributivo e comunitário, focado em Campo Maior e  em extensões sociais em África, onde patrocinou projetos de subsistência em vez de monumentos ao próprio  nome. Nabeiro investiu no presente da sua comunidade, provando que é possível praticar um socialismo  empresarial sem nunca pôr a mão no bolso do contribuinte.

No espetro oposto, encontramos as fundações de cariz político, sendo a Fundação Mário Soares o  exemplo de maior relevo. Aqui, a natureza da “doação” social muda de figura. Ao contrário das fundações de  base industrial ou do modelo Nabeiro, estas instituições de memória têm sido historicamente alimentadas por  subvenções estatais e protocolos públicos. É uma forma peculiar de filantropia: o líder político imortaliza o seu  próprio espólio e a sua visão do mundo utilizando o dinheiro daqueles que, muitas vezes, foram as vítimas das  suas decisões políticas. É, por definição, ser generoso com o chapéu dos outros.

Esta clivagem torna-se ainda mais gritante quando recordamos o processo de descolonização que  empurrou os meus pais para o tal “sol gelado”. A base científica da história documenta a brutalidade da  transição, mas a memória coletiva muitas vezes apaga a retórica inflamada da época. Enquanto a esquerda  revolucionária ocupava os microfones, surgiam frases que hoje arrepiariam qualquer defensor dos direitos  humanos, sugerindo que os retornados, os portugueses espoliados de tudo deveriam ser “atirados ao mar para  alimentar os tubarões”.

Esta desumanização de uma classe inteira de cidadãos contrasta com a realidade posterior: foi a  integração destes mais de quinhentos mil portugueses na economia de mercado e na iniciativa privada que  salvou o país do colapso, e não os planos de intervenção estatal. Foram os “espoliados” que ajudaram a construir  o país onde hoje as fundações de grandes empresários investem em microscópios.

A ciência dos dados não mente: quando o Estado intervém na caridade através de fundações políticas,  o dinheiro circula em circuitos fechados de influência. Quando o património privado se transforma em fundação,  o resultado é um centro de referência mundial que não pergunta em quem o doente votou. No final do dia, o  sarcasmo da história portuguesa dita que a direita dá o que é seu, o socialismo de Nabeiro dá o que produz, e a  esquerda institucional especializou-se em gerir a memória… desde que a fatura seja paga, com selo de urgência,  pelo Ministério das Finanças.