As empresas prometem inteligência artificial como solução para tudo mas ignoram  impacto humano e a complexidade na implementação. O resultado? Confiança em queda,  burnout em alta e mais regulação a caminho.

Já vimos este filme.

Primeiro foi o greenwashing. Marcas a falar verde e a autoproclamarem-se neutras em  carbono, sem comprovar práticas sustentáveis. A confiança ruiu, a inspiração encolheu,  surgiram diretivas europeias. A sustentabilidade é hoje medida, mas pelo caminho ficou a  maior oportunidade. Ser missão, reinvenção e transformação.

Com a inteligência artificial, não estaremos a repetir o mesmo erro, desta vez com  promessas de produtividade instantânea, superpoderes analíticos e automação mágica?

Entrámos na era do AI-washing: o uso simbólico da IA como ferramenta de narrativa  empresarial. As conferências são inundadas com gráficos de burnout provocados por  tarefas repetitivas e demo-promessas que mostram “agentes” super-heróis que libertam  equipas e regatam tempo.

Mas os dados contam outra história.

88% dos projetos-piloto de IA morrem antes de chegar à produção (IDC/Lenovo, 2025).

Um estudo com 2.500 trabalhadores em quatro países revela que 77% sentiram mais carga  de trabalho e menos produtividade após adoção da IA (Upwork, 2024). E 1 em cada 3  planeia sair da empresa nos próximos seis meses (UNLEASH, 2024).

Em vez de superpoderes, o que se vive é frustração e … mais burnout. 

O ciclo é conhecido: slogans antes de um novo sistema, encantamento antes de formação,  visibilidade antes de impacto real. Como no greenwashing, esta dissonância narrativa gera  consequências sérias: 

• Perda de confiança institucional

• Resistência à adoção da IA em escala

• Regulação (o AI Act já aí está)

Proponho cinco ideias, a implementar desde já, para não perdermos o poder transformador  da IA: 

1. Reinvestir os ganhos de produtividade da IA nas pessoas, em vez de as despedir

Alocar uma percentagem das poupanças ou aumentos de receitas a formação certificada  e ao redesenho de funções, oferecendo às pessoas o tempo de qualidade que lhes é  prometido.

2. Medir o impacto real da IA na saúde mental das pessoas

Dashboards devem passar a incluir indicadores como autonomia, carga mental e  satisfação tal como passámos a medir o nível das emissões CO2e.

3. Auditar e publicar os impactos da integração da IA nos processos da empresa

Sem transparência, quanto aos aumentos de eficiência, eficácia e qualidade de serviço tudo é teatro de curto prazo.

4. Governança com mais poder de decisão partilhado com as pessoas

Comités de decisão sobre projetos de IA onde RH e representantes dos Colaboradores  devem poder vetar implementações que ignorem o respeito pelas pessoas.

5. Comunicar com maturidade e verdade

Narrativas honestas que prescindem do hype e incluem os prós e contras da IA para  reforçar confiança.

A inteligência artificial não é um brinquedo de Natal, nem um medicamento para alívio  rápido de sintomas. É uma tecnologia de infraestrutura. Exige responsabilidade.

Se aprendermos com o greenwashing e investirmos na literacia, transparência e ética  operacional, ainda há tempo de evitar o AI-washing. 

E construir um futuro mais além do que as promessas da inteligência artificial com inteligência real.