A cada dia que passa sinto que a classe social “betos” merece um estudo aprofundado. Não me atrevo a colocar-me fora desta esfera, mas sim como um intruso que criticamente analisa certas nuances. Hoje, por exemplo, acordei de manhã e, entre malas e rotinas, regressei ao estrangeiro onde a vida de emigrante se desenrola entre cozinhados e ausências. Ao finalizar uma bolonhesa, percebi que faltava parmesão. Do outro lado do WhatsApp, a solução foi anunciada com entusiasmo: “Eu amo parmesão”. Foi aqui que perdi as estribeiras. Como é que se ama um queijo? Senti que era necessário, com urgência, abordar o abuso semântico da palavra “amar”.
Outrora uma palavra reservada para sentimentos arrebatadores e grandiosos – “Eu amo-te”, ou “Amo os meus filhos” -, a palavra “amar” é agora utilizada ao serviço de trivialidades. Não é que eu seja contra a modernização da linguagem, mas talvez estejamos perante uma crise semântica sem precedentes. “Amei este brunch”, dizem alguns, com a solenidade de quem acaba de fazer um juramento num casamento real. Amar um brunch? Ovos benedict numa torrada com abacate? Isto equivale a dizer “Adoro-te” a uma caixa de multibanco que entregou o troco certo.
Se amar se aplica a um mocaccino, o que nos resta para coisas verdadeiramente importantes? Como é que um casal pode resistir a uma discussão séria sobre a relação se “eu amo-te” foi utilizado para descrever a experiência de comprar uma mala nos saldos da Brownie?
Nesta versão beta, “amar” virou o “like” do Instagram, mas com esteroides. É como se cada momento da vida fosse uma oportunidade para protagonizar uma novela brasileira, mas sem guionistas competentes. “Amava que viesses connosco ao festival”. Pois claro, porque a imagem de ver um amigo pedir um kebab às cinco da manhã é o pináculo do amor moderno.
A questão é que, ao expandirem tanto o significado de “amar”, os betos conseguiram paradoxalmente reduzi-lo. Fizeram da palavra uma versão semântica do que o molho de soja é para o sushi: toda a gente usa, mas já ninguém sabe bem o que está lá dentro.
Por outro lado, talvez estejam a ser visionários. Num mundo cheio de cinismo, decidiu-se amar tudo, desde um brunch até uma imagem de um cão no Instagram. Mas ao mesmo tempo também se criam situações perigosas: como é que de facto se saberá se se ama alguém? “Amo-te mesmo-mesmo”? É um dilema que poderá levar à falência da própria linguagem.
Por isso, deixo aqui uma mensagem a esta classe de betos: malta, calma com o amar. Guardem para coisas grandes como a vossa família, o vosso parceiro ou o vosso clube de futebol – embora atualmente este último talvez seja “amar por sofrimento”. Quanto aos brunches, digam só que gostam muito, prometo que o abacate não vai levar a mal.