António Costa tornou-se, em 2024, mais um dos muitos portugueses que, por via das condições laborais nacionais, se veem obrigados a emigrar.
Claro que as suas circunstâncias são singulares: não foi despedido por justa causa, demitiu-se. Não foi trabalhar para um restaurante belga a servir moules com batatas fritas, é Presidente do Conselho Europeu. E não chegou a Presidente do Conselho Europeu por ambição própria, mas sim pela (in)feliz descoberta de algumas caixas de vinho num gabinete alheio, com um pouco de lítio à mistura.
Mas Costa é um emigrante diferenciado: com a sua ida para Bruxelas, Portugal perdeu quase tanto como quando vê partir os milhares de jovens licenciados que o imitam todos os anos. Perdemos o maior defensor da imigração descontrolada, ficámos sem o grande aliado da extrema-esquerda e despedimo-nos daquele que foi o maior impulsionador indireto do crescimento da saúde privada, por via da destruição do SNS.
Em contrapartida, Portugal colocou na União Europeia, orgulhosamente, um Primeiro-Ministro demissionário por indícios de corrupção. Mais: temos agora um conterrâneo que evoluiu, mutou, e que defende que “temos de melhorar a gestão das nossas fronteiras para fazer face à migração ilegal (…)”. Costa ilustra como a ideologia, afinal, é um conceito flexível e que, na política europeia, a coerência é um detalhe completamente dispensável.
Mas nem tudo são rosas: ao abraçar o seu novo desafio europeu, Costa abriu mão de alguns dos prazeres genuinamente portugueses. Já não passeia por Lisboa enquanto aprecia, de fugida, a língua portuguesa, esse idioma exótico, raramente ouvido fora das repartições públicas. Perdeu a oportunidade de experimentar a imersiva vivência de esperar incontáveis horas por atendimento numa urgência pública decrépita e deixou de assistir ao notável processo através do qual um dos países mais seguros do mundo vai descobrindo, devagarinho, as virtudes do multiculturalismo.
É pena que António Costa não tenha ficado em Portugal para colher os frutos do seu trabalho árduo. Teria sido interessante vê-lo contemplar, com orgulho, a máquina estatal que concebeu com tanto afinco: um SNS destruído, uma incomportável degradação dos serviços públicos, uma justiça lenta e ineficaz, que não lhe diz onde pára o processo “Influencer”, e um país tão diligente a receber imigrantes que, pelo caminho, desistiu dos seus próprios cidadãos.
Mas, claro, Costa partiu antes de assistir ao epílogo da sua própria obra. Evitou, com a elegância estratégica a que nos habitou, o desconforto de observar de perto as consequências das políticas que tanto promoveu – reside longe delas, é remunerado acima delas e está rodeado de altos funcionários europeus que nunca tiveram de se preocupar com as repercussões de anos de gestão da geringonça.
No fundo, António Costa conseguiu aquilo que tantos portugueses ambicionam: encontrou no estrangeiro o conforto que o seu próprio governo não lhe conseguiu garantir. A nós, resta-nos a consolação patriótica de saber que Portugal exportou um dos seus grandes talentos nacionais – o político socialista.