Segundo John Berger, a beleza existe sempre apesar de alguma coisa (Porquê olhar os animais?, Antígona), embora eu prefira a formulação do poeta Issa Kobayashi: “Imperfeito este mundo/E contudo/Recoberto de flores” (Primeira Neve, Assírio & Alvim). Estas formulações baseiam-se na dualidade — o dia e a noite, o mal e o bem, a ordem e o caos, etc. Se só existisse um dos lados, nenhum existiria. Borges falava de um rio que oferece a imortalidade e de outro que a tira (O Aleph, QUETZAL) e Wittgenstein escreveu algo como “se só existisse luz, não existiria luz”. Tudo tem, portanto, o seu contrapeso.

A beleza é um conceito relativo porque depende sempre daquele que olha. Quando admiro uma cicatriz, entendo-a como uma criação extraordinária — é uma espécie de remendo que esconde uma história (que pode ser mais ou menos interessante). Mostra-me as tuas cicatrizes e dir-te-ei quem és, poderia alguém dizer. A falha confere identidade, sobretudo numa sociedade viciada em corrigir. Os filtros digitais são isso mesmo: criam um aspecto plástico e deturpador. Tudo conflui, portanto, para o dia em que não conseguiremos distinguir-nos uns dos outros. Mas procuro resistir. No espelho encontro uma marca semelhante à do feiticeiro de Hogwarts. Neste caso, aquele que não podemos dizer o nome foi uma cadeira de aço, na infância. Apesar da pancada, a cicatriz. Não a corrigirei.

A imperfeição é uma ramificação do tempo. Encontro-a na casa abandonada engolida pelas eras, na estrada esburacada que parece não terminar, no banco perneta esquecido junto da oliveira, no cimento rachado, na pele estalada, no carrinho de mão enferrujado, na bicicleta sem roda da frente, na lenha comida pelo bicho da madeira, no gato cego que implora por espinhas e no homem que atravessa a passadeira a coxear. É como se todos estes elementos que por aí circulam fossem os esquecidos de Deus — o único Ser perfeito, sobretudo na arte de não aparecer.

Há uma passagem de um livro de Olga Tokarczuk (Viagens, cavalo de ferro), que descreve exactamente este fascínio: “O conjunto dos meus sintomas consiste na atracção que sinto por tudo o que está estragado e rachado, e por tudo o que é imperfeito e defeituoso. Tenho particular interesse por formas imperfeitas, erros na criação, becos sem saída. Por tudo aquilo que deveria desenvolver-se e que, por qualquer motivo, ficou atrofiado ou, pelo contrário, excedeu as medidas previstas. Por tudo o que escapa à norma, que é demasiado pequeno ou demasiado grande, exuberante ou incompleto, monstruoso e repugnante. Formas que não obedecem à simetria, que se multiplicam, que rebentam pelas costuras, que desabrocham por todos os lados ou que, pelo contrário, reduzem a diversidade à uniformidade. Não tenho qualquer interesse por acontecimentos que se repetem, aqueles que são atentamente tratados pela Estatística e que todos celebram com um sorriso feliz e familiar no rosto.” 

Sem a falha, a arte não existiria, pois é na imperfeição do mundo que tem origem. O artista é então aquele que olha para si (e em sua volta) e distingue a deformidade das coisas, servindo-se depois do que quiser. Às vezes, é difícil ver, claro. Diante de nós há um genocídio em Gaza, a fome, a perda, o desgosto, a violência, a tristeza, a pequena maldade, a miséria, a precariedade, a injustiça, enfim, todas as lutas duras que travamos. Como desviar então este cortinado pesado e ser capaz de encontrar um certo encanto? Há dias em que é preciso acreditar com muita força que, apesar de todo o horror, a beleza ainda existe.