Sabemos que olhar para trás pode destruir-nos. Acontece no mito de Orfeu e Eurídice, em que ela é mordida por uma serpente e morre. Ele, para trazê-la à vida, e por amar essa mulher como nunca amou ninguém, tenta resgatá-la da dimensão dos mortos, devendo obedecer a uma condição concreta: nunca olhar para trás enquanto caminham em direcção à luz. No entanto, Orfeu tem de garantir que Eurídice segue atrás de si. Acontece que ele não suporta não saber (uma impaciência muito contemporânea, para a qual os gregos já alertavam) e, para ter a certeza, vira-se, perdendo-a para sempre. Quando recordo esta tragédia clássica associo-a ao passado. É um «olhar para trás» metafórico, claro – significa que aquele que vira sistematicamente a cabeça arrisca-se a perder o aqui e agora. Uma frase de Richard Flanagan: “Um homem feliz não tem passado, enquanto um infeliz não tem outra coisa.” (A senda estreita para o norte profundo, 2014).

Mas é sobre outra variação que escrevo hoje. Talvez a grande doença do séc. XXI seja esse olhar que lançamos para o lado, qual cancro matreiro e lento que nos vai sugando. Como seria trazer um novo Orfeu e uma nova Eurídice para este século? Provavelmente, teriam de caminhar lado a lado (o que não significa proximidade), segurando um smartphone e filmando cada etapa do caminho, com algumas paragens para selfie.

A comparação é uma epidemia antiga. Ao contrário de outras, foi enrijecendo. Basta abrir o Dario, o LinkedIn, o Facebook, o TikTok e ligar a televisão ou o rádio, etc., para nos tornarmos voyeurs dessas vidas-modelo. Goethe, no séc. XVIII, já escrevia sobre isso: “(…) somos assim feitos de modo que tudo comparamos connosco e nós a tudo nos comparamos. (…) Tudo o que está fora de nós nos parece magnífico; para o mundo dos nossos sonhos afigura-se-nos muito mais perfeito do que é realmente. E isto é muito simples: como sentimos que nos falta qualquer coisa, quaisquer qualidades, supomo-las existentes nos outros” (A paixão do jovem Werther, 1774).

Se desejamos tanto viver vidas que não conhecemos, é sinal de que a nossa não vai muito bem. Mas como poderíamos não cobiçá-las quando parecem tão intactas e felizes? Não foi o que nos ensinaram a desejar? A verdade é que podem ser miseráveis, pois tudo o que vemos online sofreu um minucioso processo de enquadramento. Acontece como numa fotografia: quando fazemos um registo, excluímos alguma coisa. Deixamos dentro da imagem o que importa, mas também atiramos coisas fora. Uma mera publicação parece ter ganho o peso daquele espelho que a certa altura Harry Potter encontra numa sala e que devolve uma imagem do que ele mais deseja (não é essa a definição de algoritmo?).

Para concluir, sobra uma pergunta: o que fazer quando um olhar lançado para trás ou para o lado nos magoa? Olhar em frente, é evidente, e seguir por aí. A aprendizagem de Orfeu: apesar da incerteza, avança. De olhos fixos no horizonte havemos sempre de chegar a algum lugar.