Demorará até esquecermos o discurso de Natal de Luís Montenegro. Talvez dure até ao momento em que alguém de semelhante importância apareça e diga algo pior. A política é um mundo de substituições: é preciso entrar no espaço público uma nova baboseira para sair a anterior. Gostou desta metáfora futebolística, senhor primeiro-ministro?

Invocar uma “mentalidade Ronaldo” em tempos miseráveis apresenta alguns problemas. Vou procurar enumerá-los aqui:

1) As preocupações das pessoas comuns não se resolvem com fome de vencer;

2) A falta de ambulâncias, os partos a caminho do hospital e em casa, a pobreza, o racismo, a xenofobia, o discurso de ódio, a questão da habitação, os números da violência doméstica, etc., nada disto desaparecerá se gritarmos Siiiiiiii!;

3) As pessoas que suportam vários empregos e chegam a casa tarde, quantas vezes pensarão “tenho de fazer como o Ronaldo” ao longo do dia?;

4) Não estamos todos no mesmo degrau, o que significa que o tanque mental não é igual para toda a gente, embora exista uma certa direita que afirme que sim;

5) Na vida, muitas vezes é mais importante perder do que ganhar;

6) Desistir é importante e em certas situações recomenda-se.

7) Muitos portugueses não querem ser ricos, só querem o suficiente para tentarem ser felizes.

8) Acreditar que tudo se resume a uma questão de mentalidade coloca o ónus nas pessoas, quando muitas vezes é o seu contexto actual que as impede de prosseguir.

Se Luís Montenegro mencionasse uma mentalidade Mantorras, ter-me-ia inspirado mais. É que o ex-jogador angolano – aquele que toda a gente pedia que jogasse – marcava golos apesar dos seus joelhos fracos. Será este um discurso de loser? É possível. Mas eu não quero ser o Ronaldo. Prefiro ser o Mantorras, começar no banco e, ainda assim, decidir a partida.