Nas noites quentes de verão, os pirilampos, verdes e amarelos, espalhavam-se pela vegetação que circundava a nossa casa. Anunciavam a presença através do brilho e a minha mãe dizia que, se conseguíssemos tapar um com um copo, transformar-se-ia numa moeda. Nessa altura, eu acreditava que aqueles pontos minúsculos de luz eram estrelas caídas. A nossa infância é um lugar povoado por lapsos, do qual somos retirados cedo demais.

Li uma notícia que dava conta de que os pirilampos estão a desaparecer. Isto acontece por algumas razões: a poluição luminosa (a luz em excesso afasta-os) e a degradação e perda de habitat (para onde vamos quando não temos para onde ir?). O perigo de extinção é um acontecimento triste, pelo papel que cumprem na Natureza, mas também pelo que simbolizam. O fim de um pirilampo parece ser o fim daquilo que é belo e puro, como acontece no filme japonês “O túmulo dos pirilampos”, de Isao Takahata, produzido pelo Studio Ghibli, que conta a história de Seita e Setsuko, dois irmãos órfãos que tentam sobreviver aos bombardeamentos durante a Segunda Guerra Mundial. Há uma pergunta que é feita numa parte delicada do filme: “why do fireflies have to die so soon?”. E a resposta é óbvia e devastadora: porque é o que temos feito a tudo aquilo que brilha – aniquilamos. Estamos a fazê-lo em Gaza e na Ucrânia.

Uma outra notícia dizia que há cada vez mais pessoas a recuar na utilização de pesticidas, de forma a criar condições para o regresso dos pirilampos. Este é um insecto que não precisa de muito para sobreviver: escuridão, vegetação, humidade e alimento. Se um dia a paisagem voltar a encher-se de luz, será por uma de duas razões: ou fomos dizimados ou tornámo-nos melhores. Não é preciso dizer qual destas é mais provável.