Aconteceu de novo. No parlamento, testemunhámos uma agressão que se tem tornado constante em diversos contextos. Nos cafés, nas lojas, nos transportes, no trânsito, na rua, nas televisões, etc. A expressão “vai para a tua terra” tornou-se corrente e está hoje na ponta da língua de qualquer racista e xenófobo. E há tantos.
Estou a acabar de ler um livro de Omar El Akkad, sobre o genocídio na Palestina. Chama-se “Um dia, sempre teremos sido todos contra isto”. Há um capítulo em que o autor escreve exactamente sobre esta expressão: “Volta para a tua terra”. Não se pode deixar de pensar como o mundo seria diferente se os antepassados das mesmas pessoas que agora proclamam tais ideias tivessem seguido o mesmo conselho na altura. Na sua esmagadora maioria, profere-se esta expressão contra qualquer pessoa que tente fazer uso das liberdades de que o Ocidente tanto se orgulha: a liberdade de falar e de criticar, de responsabilizar o poder. Deste modo, partilha uma profunda ligação com a abordagem à liberdade de expressão que se encontra na maioria das ditaduras e dos regimes autoritários, lugares de onde tantos imigrantes fugiram: És livre de falar, desde que o que digas seja aceitável. Sempre que me dizem para voltar para a minha terra, não consigo deixar de pensar: porque não vais tu para o sítio de onde eu vim? Irias adorar viver ali.”
Muitos dos que ouvem esta frase vêm, efectivamente, daqui, o que torna a ofensa mais bizarra, de tal modo que apetece perguntar: “estás-me a enviar para onde? Eu sou daqui. Somos do mesmo lugar”. O que a deputada Eva Cruzeiro ouviu não é do mundo da lógica, mas abre uma ferida, não só nela como em tantos que aqui nasceram e vivem. Ainda assim, sempre olhados como estrangeiros. Talvez a questão central seja esta: ainda que não tivessem nascido neste país, se é aqui que estão significa que esta também é a sua terra. Ou será a terra de alguém em concreto? Há um dono e não nos avisaram? Em tempos, alguém pensou que sim, mas depois tombou de uma cadeira. E o que faz de mim mais português do que o meu vizinho?
O escritor Eduardo Galeano leu num jornal do Raval o que eu aqui replico: “O teu deus é judeu, a tua música é negra, o teu carro é japonês, a tua pizza é italiana, o teu gás é argelino, o teu café é brasileiro, a tua democracia é grega, os teus números são árabes, as tuas letras são latinas. Eu sou teu vizinho. E ainda me chamas estrangeiro?” (Do livro O Caçador de Histórias).
O que preocupa não é só a expressão, mas o resultado. Há uma indiferença quase total. O preconceito, outrora tímido, é hoje exibido com orgulho, e o parlamento é só mais um lugar para a sua concretização. Como sempre, o que faremos a seguir dirá tudo sobre nós. Vamos condenar devidamente a violência ou faremos como escreve Omar?, “todos aqueles que não foram directamente afectados por isto, que apenas tiveram de suportar o pequeno incómodo de ouvir falar, seguirão em frente, esquecerão.”
Aqui, na terra que piso, posso garantir que não esquecerei.