A profissão de arquiteto encontra-se à beira de uma transformação radical. A relação entre projeto e construção, e entre burocracia e custos, é constantemente posta à prova e, com ela, o próprio papel do arquiteto se altera. Os mais recentes desenvolvimentos sugerem que poderemos ver mudanças ainda mais significativas a nível do papel do arquiteto tanto na arquitetura como no urbanismo.
Por um lado, no Canadá, uma nova lei que promove tipologias habitacionais pré-aprovadas assinala uma rutura fundamental com o modelo tradicional do projeto de arquitetura individualizado. A medida surge como resposta à necessidade de acelerar licenciamentos e mitigar a escalada dos preços e a carência habitacional. Um problema que é muito conhecido e discutido em Portugal, tal como noutros países da Europa.
A decisão canadiana de permitir modelos habitacionais pré-aprovados não constitui uma medida burocrática temporária, mas sim uma resposta lógica e ambiciosa a uma crise urgente. Uma vez aprovado um modelo pela autarquia, este pode ser replicado com um processo de revisão mínima, um cenário quase ideal para promotores e para municípios exaustos por procedimentos demorados e custosos.
Também a habitação modular e pré-fabricada responde exatamente a essa necessidade: prazos mais curtos, custos reduzidos e menor fricção regulamentar.
Por outro lado, ao mesmo tempo, na China, emerge um problema oposto mas intimamente relacionado: um excedente habitacional tão vasto que cidades inteiras permanecem semivazias. O mercado chinês já não consegue sustentar a sua mega-indústria da construção, sendo previsível que estas corporações procurem novos destinos além-fronteiras. Embora tal dinâmica não seja nova, pela primeira vez assume contornos de sobrevivência empresarial.
Entre estes dois extremos, uma nova era global aguarda o seu capítulo nos livros de história: a ascensão dos sistemas habitacionais pré-fabricados, estandardizados e pré-aprovados.
Esta mudança tem o potencial de redefinir não só a forma como construímos, mas também o significado da própria profissão de arquiteto.
Neste modelo, a casa transforma-se num produto de marca, e não numa criação única e singular que responde as dinâmicas existenciais dos lugares e pessoas. É projetada uma vez, otimizada para eficiência e reproduzida indefinidamente. As autarquias sairão certamente beneficiadas com menos processos a avaliar, menos inconsistências e maior controlo sobre a morfologia urbana.
A ideia de importar sistemas habitacionais pré-aprovados, eventualmente até de países como a China, onde a sobreprodução gerou vastas reservas de habitações não utilizadas, deixou de ser ficção científica. A circulação global de casas “prontas a usar” poderá em breve assemelhar-se ao comércio de automóveis ou dispositivos eletrónicos. Embora a pré-aprovação não implique obrigatoriamente pré-fabrico total ou importação, a estandardização abrirá inevitavelmente espaço para ambas.
Para o arquiteto, porém, esta eficiência tem um custo elevado. A arquitetura feita à medida, a alma da profissão, é por natureza lenta, dispendiosa e profundamente pessoal. Cada projeto exige negociação, adaptação e interpretação singular. Num mundo que valoriza rapidez e acessibilidade, estas virtudes podem ser vistas como ineficiências. Porquê investir meses em projeto, licenciamento e coordenação quando uma casa pré-aprovada, composta por partes pré-fabricadas, pode ser autorizada de imediato e construída em menos de metade do tempo e com menos complicações?
Como consequência, a prática arquitetónica poderá dividir-se cada vez mais em duas grandes áreas:
Por um lado, o mercado massificado, dominado por habitações estandardizadas, catálogos digitais e sistemas construtivos importados ou replicados com intervenção mínima de projeto, talvez até um campo ainda pouco explorado pelos arquitetos: a patente de um modelo de habitação coletiva.
Por outro, um nicho de luxo, onde o projeto personalizado permanece símbolo de distinção cultural e económica. Os arquitetos, anteriormente mediadores diligentes entre cliente, terreno, especialidades, orçamento e legislação, poderão transformar-se em consultores exclusivos para quem ainda pode pagar a individualidade.
O próprio urbanismo poderá seguir caminho semelhante: os arquitetos urbanistas poderão compor repetições de unidades modulares, definindo combinações e arquétipos teoricamente adequados a cada zona.
Este novo paradigma levanta questões desconfortáveis. O que acontece à diversidade e à identidade urbana quando as cidades são construídas a partir de um conjunto limitado de módulos? Poderá a repetição alcançar a riqueza de um crescimento orgânico? Assistimos a algo semelhante nas origens do modernismo e no Manifesto de Atenas.
E como ficará o desenho das fachadas urbanas? O desafio para arquitetos e urbanistas será o de garantir significado em sistemas concebidos para a uniformidade.
A questão central não é saber se a habitação pré-aprovada é eficiente, porque claramente que o é. mas sim se é adequada do ponto de vista urbano e cultural.
Cidades construídas a partir de módulos repetitivos correm o risco de gerar monotonia e distanciamento social, como se observa em bairros-gueto em várias partes do mundo.
Contudo, com um planeamento urbano criterioso, estes sistemas podem igualmente proporcionar coerência, previsibilidade, qualidade de vida e uma resposta rápida à escassez habitacional.
O equilíbrio dependerá de como o urbanismo evolui para gerir estas novas tipologias, não como unidades isoladas, mas como partes de um organismo vivo adaptável.
Neste futuro incerto, os arquitetos enfrentam uma verdade difícil: o seu trabalho poderá deixar de definir o ambiente construído da forma singular que outrora caracterizou a profissão. Mas, se forem capazes de navegar entre sistema e singularidade, entre pré-aprovação e criatividade, poderão ainda moldar a cidade futura, não através do desenho de edifícios individuais, mas através do desenho dos próprios sistemas que os produzem.