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Arranca depois das 10:00 na Rádio Observador. Pode acompanhá-lo também em vídeo, o "Contracorrente" de hoje, onde pode participar com a sua opinião. 910 024 185 é o nosso número de telefone. Pode enviar uma mensagem de voz pelo WhatsApp. De que vamos falar hoje no "Contracorrente", Carla Jorge Carvalho?

2026 vai ficar como o ano em que os habitantes de algumas cidades da Europa se perguntaram a si mesmos: as cidades serão as próximas a arder? Depois de anos em que se viam arder longínquas paisagens rurais e florestais, passou-se para o fogo estar a chegar a Bordéus. Ao longo do "Contracorrente" de hoje, vamos tentar perceber se o fogo está a mudar e nós o que temos de mudar para o usarmos a nosso favor. Bom dia, Helena Matos. Hoje vais ter mesmo muita dificuldade em falar seriamente depois de tudo o que acabámos de saber.

Sim, até porque no meio disto entram palavras que em rádio são difíceis. Como pirocumulonimbo, que é o mais simples, poderemos talvez dizer pirocúmulo, já lá voltaremos para falar e explicar o que é, mas nós durante dias, é curioso quando analisamos a forma como as notícias foram sendo dadas sobre aquilo que estava a acontecer em Espanha e em França, era como se estivéssemos quase a falar de um inimigo invencível, uma horda, uma legião, uma nova invasão dos Átilas, invencíveis, que estivessem a atravessar aqueles vales, aquelas planícies, de uma forma que não se lhe conseguia praticamente fazer frente enquanto ele avançava. Mas, mais perturbante ainda do que aquilo que acontece quando avança um exército, e nós vimos aqui aquilo que foi uma invasão terrestre, era uma coisa que já aqui no nosso espaço achávamos que tinha terminado, quando vimos aqueles carros russos a avançarem pela Ucrânia, só que ao mesmo tempo íamos dando conta das perdas que eles estavam a ter. Ora, no caso do fogo, porque é disso que estamos a falar, isso não acontece. E não acontece exatamente por causa daquela imagem. Eu estou a pensar no Expresso esta semana, num artigo, usava uma expressão, que não é deles, eles estavam a fazer uma citação, que é o dragão que cospe fogo das nuvens. Já dá conta daquilo que aconteceu em França, na Gironde, e também aquilo que aconteceu em Ávila, próximo de Madrid, e que é quando o próprio incêndio, porque o incêndio também implica uma libertação de energia, acaba por criar ele mesmo a sua própria meteorologia. Ele vai criar correntes descendentes, vai quase que alimentar-se a si mesmo. E portanto, nesse sentido, a ideia de que o estamos a combater acaba muitas vezes por ser quase ingênua perante a grandiosidade terrível daquilo que temos à nossa frente. E volto a repetir, até ao fim hoje do "Contracorrente" tenho de conseguir dizer isto bem: pirocumulonimbo. Aconteceu em Portugal em 2017, também. E que dá conta daquilo que se tem vindo a tornar, não é inédito, mas que se tem vindo a tornar mais frequente. Temos registos da Austrália e tudo isso, mas agora está aqui e que também passava muito por aquela expressão que se começa a ler várias vezes em alguns jornais de grande imprensa, que era: "O fogo está quase a chegar a Bordéus. Será que o fogo vai chegar a Bordéus?" Aliás, a dado momento, havia já esta pergunta em alguma imprensa de referência na Europa, isto a propósito de Bordéus: "Pode uma cidade arder?" Era uma pergunta. E se o fogo chegar a Bordéus, como é que é? O que é que pode acontecer? E depois tínhamos especialistas a explicar. Sim, realmente, uma cidade não é um pinhal, mas o betão não é necessariamente uma muralha contra o fogo. E, portanto, há muito de perplexizante em tudo isto, até porque nós estaremos, porventura, a assistir a uma mudança, a uma grande alteração. Nós vivemos a altura em que os fogos eram rurais, eram florestais, era uma coisa que acontecia lá longe. Nós víamos na televisão, pessoas até muitas vezes vestidas ou a reagir, como aquilo que associamos ao mundo rural, mas não é isso que agora está já a acontecer. E portanto, é como se o fogo estivesse a chegar cada vez mais próximo de nós. E aí chegamos, e eu penso que como não temos bom, mau e o vilão, ainda posso tentar falar de um assunto que virá hoje aqui ao "Contracorrente" e que passa por isto, e que faz parte de um alerta que a OCDE nos fez este ano, e que é o nosso sucesso no combate, conseguindo extinguir os pequenos incêndios, de alguma forma, vai lá à frente tornar-se numa má notícia, porque vamos deixando ficar cada vez mais material acumulado, o que quer dizer, estamos a favorecer que lá à frente venhamos a ter um grande incêndio. Portanto, a realidade é muito mais complexa do que aquilo que possa parecer, e é de tudo isso, e do fogo e da forma como vamos ter de nos passar a relacionar com ele, porque alguma coisa terá de mudar, que hoje vamos falar aqui no "Contracorrente".

Mesmo com essa palavra impronunciável. Até já, Helena Matos.

Até já.