29 de Janeiro de 2000. Os Goya – a cerimónia dos prémios da Academia de las Artes y las Ciencias Cinematográficas de España – saíam, pela primeira vez em 14 anos, de Madrid para celebrar o cinema espanhol. Naquele ano, Pedro Almodóvar saiu em ombros, qual Manolete, do L’Auditori de Barcelona. O Todo sobre mi madre tinha arrebatado três Goyas: Melhor Filme, Melhor Director, e Melhor Actriz para Cecilia Roth – a imortal enfermeira Manuela Echevarria. Dois meses depois, a obra prima do cineasta espanhol vencia o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Já passava da meia noite quando Pedro Almodóvar subiu ao palco para receber o Goya. Quando tomou a palavra, perguntou ao Príncipe Felipe de Borbón – que se encontrava impecavelmente sentado na plateia – “se não fazia anos?”. O Príncipe, à esquerda de um Rajoy ainda sem barba branca, acenou com a cabeça, riu-se, levantou-se, agradeceu – ao som de centenas de apluasos – e ouve de Pedro Almodóvar, “naturalmente, este Goya va por usted”. Segundos depois, um L’Auditori em uníssono cantava os parabéns a Felipe de Borbón.

Quando li sobre este episódio – já o Príncipe era Rei, e Pedro Almodóvar um homem cheio de blancas – interroguei-me sobre se seria possível que algo tão inocente, espontâneo, e sem agendas ou narrativas, pudesse voltar a passar. No passado Sábado, em Granada, na cerimónia de 2025 dos Goya, percebi que não.

A cerimónia do Todo sobre mi madre, do Mar adentro, do Volver e do El viaje a ninguna parte, relegou o Cinema para uma nota de rodapé, para se vestir de gala para um estridente e ortodoxo comício de esquerda.

Na edição de 2025, os actores, os realizadores, e até os técnicos de som que ouviram os seus nomes do palco, repetiram e, nalguns casos, vestiram, os slogans das madrassas woke. Gaza, from the river to the sea, Palestine will be free, a “urgência climática”, os direitos das “pessoas trans” – apesar do cancelamento de Karla Sofía Gascón, mas já voltarei à herege atriz trans – a extrema-direita e o regresso do fascismo, Trump, e claro, Milei. Enfim, o prevísivel e decadente épater la bourgeoisie, tão próprio do meio. E do tempo.

O guião ritualístico – seguido e aplaudido pelos fiéis – estava a ser cumprido à letra até que a quase desconhecida María Luisa Gutiérrez – a produtora do filme La infiltrada (também ele realizado por uma mulher) – pegou no microfone. María Luisa Gutiérrez, não se atreveu (apenas) a produzir um filme, que nos recorda o horror e o terror da ETA, como teve a ousadia de dedicar o Goya à Asociación de Víctimas del Terrorismo. Pior, exclamou sacrilégios como, “La memoria histórica también está para la historia reciente de España”, ou “la democracia se basa en la libertad de expresión y la libertad de expresión se basa en que, aunque pensemos distinto, podamos respetarnos“, ou ainda (sobre a Polícia) “arriesgan su vida por el bien común y por defender la democracia”.

Apesar dos lugares comuns de María Luisa Gutiérrez – a infiltrada da noite – a amnésica plateia assistiu ao sermão entre sorrisos amarelos e aplausos tímidos. Alguns até aparentaram vergonha alheia pela senhora. Afinal, em 2025, defender a dignidade das vítimas do terrorismo da ETA, ou a liberdade de pensamento e de expressão, está para a política contemporânea como o bruxedo esteve para a Inquisição. São temas tabu e, por isso, devem ser proibidos do espaço público. Estou certo, que na edição de 2026, a Comissão de Pensamento do evento, acompanhada pela força braçal dos porteiros de serviço, tomarão medidas – drásticas, espero – para que os infames e blasfemos fiquem à porta. No fundo, que as Karla Sofía Gascón sejam filtradas e trituradas – a tempo e com tempo – nas Bimby do politicamente correcto, e que as María Luisa Gutiérrez não voltem a ter tempo de antena.

O caso Karla Sofía Gascón – o assunto da red carpet – é, talvez, um dos maiores paradoxos do nosso tempo. A atriz trans – que interpretou a personagem-título no filme Emilia Pérez – que venceu a Palma de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Cannes, e o European Film Awards de Melhor Atriz, que está nomeada – será que ainda se mantém na corrida? – ao Oscar de Melhor Atriz, e que foi nomeada para os Globos de Ouro e para os BAFTA, passou de ícone woke a dalit social e cultural. Enquanto serviu de símbolo da esquerda – que, sejamos francos, se limitou a usá-la como alimento propagandístico – até em tweets de Pedro Sánchez e Irene Montero apareceu. Mas, quando uma arqueóloga do Twitter / X – travestida de jornalista do The Guardian, naturalmente – decidiu procurar pelas opiniões políticas de Karla Sofía Gascón descobriu que a atriz espanhola, “apesar de trans”, era conservadora e de direita. Pior, sofria de “islamofobia”, tinha criticado o black lives matter americano, a gestão da COVID-19 e a política de imigração do Governo Sánchez, etc., etc., etc. Fazia, “apesar de trans”, o pleno do politicamente incorrecto. Karla Sofía Gascón era, enfim, outra infiltrada.

A actriz acabou apagada dos tweets de Pedro Sánchez, barrada dos Goya e cancelada pelo tribunal da Netflix – a mesma plataforma, que até há um mês promovia o Emilia Pérez e Karla Sofía Gascón como os bastiões da diversidade, e da résistance aos Hitler renascidos, mas sem bigode.

Ora, o caso Karla Sofía Gascón não mostra apenas a cruel hipocrisia da esquerda das etiquetas e das gavetas, onde a individualidade, a humanidade e a singularidade de cada pessoa é esmagada e reduzida à sua raça, à sua orientação sexual, ao seu género e / ou à sua origem. Mas, sejamos sérios: são tão culpados os que hoje a cancelam, como aqueles que a promoveram, não pelo seu mérito ou arte, mas por se tratar de uma actriz trans. Karla Sofía Gascón é, também por isso, culpada. Por, conscientemente, se ter deixado usar, e por, durante o processo de cancelamento em curso, ter perdido perdão.

O certo, é que para alguma farandola cultural, a arte é funcional – uma antítese nos termos, eu sei – e instrumental, sempre e quando sirva o propósito da propaganda. Resta saber se as históricas (e quase sem paralelo) 13 nomeações para os Oscar, revelam a grandeza do Emilia Pérez, ou a propaganda revanchista do painel de Hollywood.